Os houthis dispararam mísseis contra a Arábia Saudita depois de acusarem o país de bombardear, na segunda-feira, um aeroporto controlado pelo grupo Os ataques à Arábia Saudita realizados nesta semana pelos houthis do Iêmen, aliados de Teerã, frustraram o Paquistão e ameaçam arrastar Islamabad para o conflito, complicando qualquer futuro papel que o país possa desempenhar como mediador entre Estados Unidos e Irã. Em 2025, o Paquistão - potência nuclear que ajudou a intermediar um acordo em junho na guerra entre Washington e Teerã - assinou um acordo de defesa mútua com a Arábia Saudita e enviou milhares de soldados para o país, juntamente com um esquadrão de caças. O governo paquistanês havia manifestado indignação com os ataques iranianos contra a Arábia Saudita no início deste ano, mas analistas e autoridades da região disseram que as ações desta semana elevaram a frustração de Islamabad com Teerã a um novo patamar, ao aumentarem a perspectiva de um novo conflito entre os sauditas e os houthis. Os houthis dispararam mísseis contra a Arábia Saudita depois de acusarem o país de bombardear, na segunda-feira, um aeroporto controlado pelo grupo. A troca de ataques rompeu uma trégua de quatro anos, mas, até o momento, este foi o único incidente entre os países. "Nossos principais líderes civis e militares transmitiram ao Irã, no mais alto nível, que ataques contra a Arábia Saudita são ataques contra o Paquistão", disse à Reuters uma autoridade paquistanesa. "Essa é a nossa linha vermelha." A fonte e outras autoridades paquistanesas ouvidas para esta reportagem falaram sob condição de anonimato por não terem autorização para comentar o assunto publicamente. "O Paquistão não esperava que as tensões aumentassem de forma tão repentina", disse Muhammad Amir Rana, analista paquistanês de segurança. A frustração do Paquistão parece estar enraizada na crescente preocupação de que o envolvimento dos houthis tenha maior potencial para arrastar o país ao conflito do que tiveram os ataques com mísseis do Irã no início do ano. Soldados paquistaneses estão posicionados perto da fronteira saudita com o Iêmen, disseram duas autoridades paquistanesas, aumentando a exposição direta a um eventual conflito dos houthis com os sauditas. Também há preocupações em Islamabad de que uma escalada liderada pelos houthis possa interromper a navegação no Mar Vermelho, uma importante rota comercial da qual o Paquistão e muitos outros países dependem. Um conflito ampliado na região poderia ser mais difícil de conter e atingir interesses sauditas de forma a obrigar o Paquistão a intervir militarmente nos termos de seu pacto de defesa mútua. Ghulam Mustafa, general paquistanês da reserva, afirmou que, por enquanto, "os principais líderes do Paquistão ainda estão empenhados em apaziguar todas as partes envolvidas". Mas advertiu que isso pode mudar "se os houthis ampliarem o alcance de seus ataques na Arábia Saudita". Preocupações crescentes As tensões desta semana entre os houthis do Iêmen e a Arábia Saudita alimentaram preocupações mais amplas em Islamabad em relação ao Irã. Duas autoridades do governo paquistanês disseram que as crescentes divisões dentro da liderança iraniana vêm sendo acompanhadas com preocupação em Islamabad. As visões e objetivos dos líderes políticos do Irã, incluindo o presidente do país, Masoud Pezeshkian, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, e o presidente do Parlamento, Mohammad Qalibaf, divergem cada vez mais dos da Guarda Revolucionária Islâmica, segundo disseram as autoridades paquistanesas. "Os militares parecem estar dominando o processo de tomada de decisões no Irã", afirmou Muhammad Ali, analista paquistanês de defesa, acrescentando que isso vem sendo cada vez mais "reconhecido em Islamabad". A recente escalada contribuiu para o adiamento de uma visita de uma delegação iraniana a Islamabad no início desta semana, que não havia sido anunciada publicamente, disseram duas autoridades paquistanesas. A delegação, liderada pelo ministro do Interior, Eskandar Momeni, chegou a Islamabad na quarta-feira, dois dias depois do previsto, disseram as autoridades. Espera-se que as conversas incluam discussões sobre o acordo entre Estados Unidos e Irã. Em coletiva nesta quinta-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Tahir Andrabi, disse que o Paquistão conclama "todas as partes a exercerem máxima contenção" e que "não há alternativa ao engajamento contínuo, ao diálogo e à diplomacia". Papel paquistanês À medida que o Paquistão busca um papel regional mais proeminente, analistas afirmam que o país também enfrentará cada vez mais os desafios decorrentes dessa maior exposição. Quando o acordo de defesa entre Paquistão e Arábia Saudita foi anunciado, em setembro passado, ele foi amplamente interpretado como um sinal de que os países árabes do Golfo Pérsico estavam cada vez mais desconfiados de que os EUA seguiriam como garantidor da segurança regional e buscavam Islamabad e outros governos como possíveis alternativas. Mas o Paquistão depende fortemente dos países do Oriente Médio para o fornecimento de petróleo e gás. As tensões em torno do Estreito de Ormuz interromperam rotas de abastecimento do país, e o governo adotou medidas de emergência, incluindo o fechamento antecipado de estabelecimentos comerciais, para evitar escassez de combustíveis. Segundo analistas e autoridades paquistanesas, mediar entre Estados Unidos e Irã tem tanto a ver com a reabertura dessas rotas de abastecimento quanto com ampliar a influência diplomática do país. "Sim, há frustração, mas isso não significa que estejamos abandonando esse projeto", disse uma autoridade, referindo-se à mediação. "Investimos muito nisso e temos interesse em mantê-lo vivo." Ainda assim, raramente, o Paquistão pareceu tão próximo de ter de escolher um lado quanto nesta semana. "É do interesse de todos que a guerra termine", afirmou outra fonte paquistanesa a par da mediação. "Mas, se a Arábia Saudita nos convocar, estaremos ao lado dela, e não há nenhuma dúvida quanto a isso." Apoiadores dos houthis — Foto: Osamah Abdulrahman/AP Photo