O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, tentou conter nesta quinta-feira uma crise política desencadeada pela demissão de um ministro da Defesa reformista ao nomear para o cargo um dos supervisores dos ataques de longo alcance contra a Rússia. Protestos eclodiram no país após a destituição de Mykhailo Fedorov em uma inesperada reforma ministerial. A demissão expôs um conflito entre o jovem defensor da inovação tecnológica e o principal general de Kiev durante segunda grande reformulação do governo promovida por Zelensky em um ano. Centenas de pessoas foram às ruas de Kiev e de outras cidades para exigir a recondução de Fedorov, que buscava transformar o Exército ucraniano, em desvantagem numérica, em uma força de combate mais eficiente contra a Rússia. Um alto comandante da campanha aérea ucraniana também renunciou. Em comunicado, Zelensky afirmou que nomeou Yevhenii Khmara, chefe interino do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), como ministro interino da Defesa e que pedirá ao Parlamento sua aprovação definitiva para o cargo. "Khmara adquiriu uma experiência ampla e, em muitos aspectos, sem precedentes em operações de combate baseadas em tecnologia", escreveu Zelensky no X. "É exatamente nisso que nossos esforços de defesa devem estar concentrados durante esta guerra." Os ataques de longo alcance da Ucrânia contra a infraestrutura petrolífera e a indústria de defesa da Rússia ajudaram a enfraquecer a máquina de guerra de Moscou nos últimos meses, elevando o moral ucraniano em um momento crítico da guerra, que já dura mais de quatro anos. A equipe Alpha do SBU, anteriormente comandada por Khmara, desempenhou papel central nesses ataques e em outras grandes operações. Não ficou imediatamente claro quando o Parlamento — que mais cedo nesta quinta-feira aprovou um novo governo liderado pelo executivo do setor de energia Sergii Koretskyi — analisará a nomeação de Khmara. A próxima sessão está marcada para 18 de agosto. Em conversa com jornalistas em Kiev, Fedorov, de 35 anos, afirmou nesta quinta-feira que recusou uma oferta de Zelensky para atuar como assessor, depois que o presidente decidiu não incluí-lo no próximo governo. Em duras críticas ao comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi, Fedorov acusou o general de bloquear iniciativas do ministério e de não enfrentar diretamente os problemas. "Em vez de descobrir como derrotar a Rússia... ele descobriu como dividir o país", afirmou, vestido com sua tradicional camiseta e calça jeans. Syrskyi, de 60 anos, ocupa o cargo desde o início de 2024, mas vem sendo criticado por seu estilo rígido de comando, que, segundo alguns militares, resulta em elevadas perdas de tropas. Em comunicado, Syrskyi defendeu que o foco permaneça no esforço de guerra da Ucrânia e lembrou seu papel na defesa de Kiev contra as forças russas nas primeiras semanas da invasão de 2022. "E agora, nesta cidade, podem ser realizadas coletivas de imprensa, elaboradas visões e tomadas decisões", disse o general, em aparente ironia à entrevista concedida por Fedorov horas antes. Pavlo Yelizarov, vice-comandante da Força Aérea da Ucrânia e um dos principais líderes da guerra com drones, afirmou que estava deixando o cargo em resposta à demissão de Fedorov. Em Kiev, mais de mil manifestantes protestaram em frente ao gabinete de Zelensky, entoando gritos de "Vergonha!" e carregando cartazes com frases como "Por quê?" e "Os russos estão comemorando". A cena lembrou os grandes protestos de julho do ano passado, quando a indignação popular obrigou Zelensky a revogar uma medida impopular que retirava a independência das agências anticorrupção. "Somos a favor de uma melhora, não de um retrocesso", disse um manifestante que se identificou apenas como Ali. Outros protestantes exigiram que Zelensky demitisse Syrskyi em vez de Fedorov. Fedorov, que anteriormente ocupou o cargo de primeiro ministro da Transformação Digital da Ucrânia, é creditado por reduzir a burocracia, impulsionar a guerra com drones e adotar uma estratégia baseada em dados para desgastar as forças russas. Mas apoiadores afirmam que suas tentativas de moralizar as compras da Defesa irritaram setores do establishment. Ele também foi criticado por não avançar com rapidez suficiente na promessa de reformar o sistema de recrutamento. Zelensky anunciou a mais recente reformulação de seu governo no domingo, provocando ampla surpresa, ao argumentar que o governo e os órgãos de segurança precisavam de uma "renovação". Koretskyi afirmou, em publicação no X, que a principal missão de seu governo será "equipar plenamente" as Forças Armadas com uma ampla variedade de drones, ampliar a capacidade da indústria de defesa ucraniana e preparar o país para mais um inverno de ataques russos contra a rede elétrica. A Ucrânia vive sua melhor situação no campo de batalha desde o fim de 2022, recuperando impulso militar enquanto atinge o setor petrolífero e a logística militar da Rússia com ataques de drones e mísseis. Apesar desses avanços, as forças de Kiev continuam enfrentando o lento avanço russo no leste, em meio a uma grave escassez de tropas terrestres e à falta de sistemas de defesa aérea, enquanto Moscou intensifica os ataques com mísseis balísticos. "Nos momentos difíceis, Zelensky se comporta como um herói", escreveu Vitalii Sych, editor-chefe do veículo ucraniano NV. "Mas não devemos esquecer que esses momentos difíceis muitas vezes são provocados por suas decisões idiotas." Um porta-voz do presidente russo, Vladimir Putin, disse a jornalistas que o Kremlin acompanha a reformulação do governo ucraniano. O Ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, e o Ministro da Defesa da Suécia, Pal Jonson (não aparece na foto), concedem uma entrevista coletiva em Estocolmo, Suécia, em 7 de maio de 2026 — Foto: TT News Agency/Fredrik Sandberg/via REUTERS Zelensky disse nesta quinta-feira que ainda avalia quem substituirá Fedorov e ressaltou que Klymenko é apenas um dos nomes considerados. "O presidente não deve tomar partido em uma situação como essa durante uma guerra", afirmou, referindo-se ao conflito entre Fedorov e Syrskyi, demonstrando certo desconforto. "Eu gostaria muito que houvesse unidade. As partes não conseguiram encontrá-la”, acrescentou. A Ucrânia vive hoje sua melhor posição militar desde o fim de 2022, realizando ataques com drones e mísseis contra o setor petrolífero e a logística militar da Rússia, o que enfraqueceu a máquina de guerra de Moscou. Apesar disso, as forças ucranianas continuam enfrentando avanços graduais das tropas russas no leste do país, em meio à escassez crítica de soldados e de sistemas de defesa aérea, enquanto Moscou intensifica os ataques com mísseis balísticos. "Nos momentos difíceis, Zelensky se comporta como um herói", escreveu Vitalii Sych, editor-chefe da publicação ucraniana NV. "Mas não devemos esquecer que esses momentos difíceis muitas vezes são consequência de suas decisões idiotas." Um porta-voz do presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que o Kremlin acompanha de perto a reforma ministerial na Ucrânia. Em Kiev, mais de mil manifestantes protestaram diante da sede da Presidência, entoando gritos de "Vergonha!" e exibindo cartazes com frases como "Por quê?" e "Os russos estão comemorando". A cena lembrou as grandes manifestações de julho do ano passado, quando a pressão popular levou Zelensky a revogar uma medida impopular que retirava a independência das agências anticorrupção. "Somos a favor de uma melhoria, não de um retrocesso", afirmou um manifestante identificado apenas como Ali, que descreveu Fedorov como um gestor moderno e eficiente. "Vemos resultados, vemos um progresso claro na nossa luta pela liberdade." Outros manifestantes defenderam que Zelensky destruísse Syrskyi, e não Fedorov. Pessoas protestam contra a decisão do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky de substituir Mykhailo Fedorov como ministro da Defesa, em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia, em Kharkiv, Ucrânia, 16 de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Sofiia Gatilova Antes da votação no Parlamento, figuras públicas de destaque e militares haviam manifestado apoio ao então ministro da Defesa. Antes de assumir a Defesa, Fedorov foi o primeiro ministro da Transformação Digital da Ucrânia. Ele recebeu crédito por reduzir a burocracia, impulsionar a guerra com drones e adotar uma estratégia baseada em dados para desgastar as forças russas. Aliados afirmam, porém, que suas tentativas de reformar o sistema de compras militares desagradaram setores do establishment. Ele também foi criticado por não conseguir cumprir rapidamente a promessa de reformar o sistema de recrutamento militar. Zelensky anunciou a reforma ministerial no domingo, causando surpresa generalizada, ao afirmar que o governo e os órgãos de segurança precisavam de uma "renovação". Em publicação na rede X, Koretskyi afirmou que a principal missão de seu governo será "equipar plenamente" as Forças Armadas com diferentes tipos de drones, ampliar a capacidade da indústria de defesa da Ucrânia e preparar o país para mais um inverno de ataques russos contra a infraestrutura elétrica.
Demissão de ministro da Defesa por Zelensky gera crise política na Ucrânia
Mudança no gabinete alimentou a indignação popular com a saída de Mykhailo Fedorov, que buscava transformar as Forças Armadas ucranianas em uma força de combate mais eficiente













