Saída de Mykhailo Fedorov, apontado como arquiteto da transformação tecnológica das Forças Armadas, provoca reação em várias cidades e amplia questionamentos sobre reforma promovida por Zelensky 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Manifestantes seguram cartazes durante uma manifestação contra a decisão do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, de demitir o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, em Kiev, em 16 de julho de 2026, em meio à invasão russa da Ucrânia — Foto: TETIANA DZHAFAROVA / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/07/2026 - 11:15 Demissão de Ministro da Defesa da Ucrânia Gera Protestos e Preocupações A demissão de Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa da Ucrânia e responsável pela estratégia de drones, provocou protestos em várias cidades do país. Fedorov, visto como peça-chave na modernização tecnológica das Forças Armadas, enfrentou resistência dentro do comando militar. A decisão de Zelensky gerou críticas e preocupações sobre a continuidade da estratégia que vinha equilibrando as forças contra a Rússia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A decisão do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, de demitir o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, desencadeou protestos em diversas cidades do país nesta quinta-feira e abriu uma rara frente de contestação pública ao governo em meio à guerra contra a Rússia. Considerado o principal arquiteto da estratégia de drones que tem permitido a Kiev compensar a superioridade militar russa, Fedorov deixou o cargo após meses de atritos com a cúpula das Forças Armadas, embora Zelensky ainda não tenha explicado oficialmente os motivos da decisão. Em Kiev, milhares de pessoas, a maioria jovens, se reuniram na Praça Ivan Franko com cartazes que diziam "Tirem as mãos de Fedorov" e "Parem de sabotar a vitória". Manifestações semelhantes foram registradas em outras cidades ucranianas, como Dnipro, no centro do país, e Odessa, no sul, após a saída do ministro de 35 anos, que se tornou uma das figuras mais populares do governo por liderar a modernização tecnológica das Forças Armadas. A demissão surpreendeu parte da sociedade ucraniana porque ocorre em um momento em que a estratégia baseada no uso intensivo de drones vinha sendo apontada como uma das principais responsáveis por permitir que a Ucrânia compensasse a superioridade numérica e provocasse escassez de combustível em partes da Rússia. Nos últimos meses, ataques de longo alcance contra alvos russos e operações na Crimeia ocupada reforçaram a percepção de que a aposta tecnológica começava a produzir resultados concretos no campo de batalha. Nomeado para o cargo em janeiro, Fedorov assumiu o Ministério da Defesa após anos atuando como principal conselheiro de tecnologia do presidente e liderando iniciativas de transformação digital no governo. Durante sua breve passagem pela pasta, tornou-se o rosto mais visível da aposta ucraniana em drones, inteligência artificial, guerra eletrônica e sistemas automatizados de compras militares. — Este é o pior erro que Zelensky cometeu durante toda a sua presidência — afirmou à BBC o soldado Oleksandr, que disse ter se alistado neste ano por acreditar na visão defendida por Fedorov. — Não conheço ninguém que apoie a decisão de substituí-lo. Nem dentro das Forças Armadas, nem na sociedade. Manifestantes também ficaram perplexos com a decisão. — Não acompanho profundamente os debates políticos internos, mas esta é uma pessoa que mostra resultados no campo de batalha. Nós vemos os resultados, sentimos o espírito de luta e a confiança na vitória crescerem. E então, seis meses depois, ele é removido do cargo? — questionou Bohdan Huryak, participante dos protestos em Kiev, à agência de notícias Associated Press. O arquiteto da guerra dos drones Ex-ministro da Transformação Digital, Fedorov tornou-se um dos principais defensores da modernização tecnológica do esforço de guerra ucraniano desde os primeiros meses da invasão russa em larga escala, em 2022. Seu trabalho aproximou o governo de empresas do Vale do Silício e ajudou a consolidar uma estratégia baseada em inovação para compensar as limitações de efetivo e armamento da Ucrânia. Antes mesmo de assumir a Defesa, ele havia criado o chamado "Exército de TI da Ucrânia", uma rede de voluntários para operações cibernéticas contra a Rússia, e liderado a campanha "Exército dos Drones", voltada para arrecadação e desenvolvimento de equipamentos não tripulados, iniciativas consideradas inovadoras dentro das Forças Armadas que alimentaram sua popularidade. Já como ministro, ampliou projetos como as plataformas Brave1 e DotChain, que buscavam acelerar a aquisição de armamentos e permitir que soldados escolhessem determinados equipamentos diretamente pela internet, reduzindo etapas burocráticas e a influência de intermediários do setor de defesa. Nos primeiros meses à frente da Defesa, ele também afirmou ter convencido o fundador da SpaceX, Elon Musk, a restringir o uso do sistema de internet via satélite Starlink por forças russas em operações com drones, medida que, segundo ele, prejudicou temporariamente ações militares de Moscou na linha de frente. Divisão na cúpula militar As reformas, porém, também criaram resistências. Segundo analistas e veículos locais, Fedorov entrou em conflito tanto com integrantes da cúpula militar quanto com empresas tradicionais da indústria bélica. Generais experientes questionavam sua visão de uma guerra cada vez mais dependente de drones e robôs, defendendo a manutenção de operações convencionais com tropas de infantaria. Em entrevista coletiva após sua demissão, o ex-ministro confirmou divergências com o comandante-chefe das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi, e afirmou ter sugerido a Zelensky a substituição dele e do chefe do Estado-Maior, Andrii Hnatov. — Quando o presidente disse que não pretendia substituir Syrskyi, eu disse que aprenderia a trabalhar com ele. Mas todas as iniciativas que propusemos foram bloqueadas — declarou. Fedorov afirmou ainda que sua agenda de reformas encontrou resistência dentro da alta hierarquia militar e acusou Syrskyi de bloquear mudanças que considerava necessárias para adaptar o Exército à nova fase da guerra. — Em vez de pensar em como derrotar a Rússia de forma assimétrica, encontrou uma maneira de dividir o país — afirmou. Apesar das críticas, o ex-ministro reconheceu o papel desempenhado por Syrskyi no início da invasão russa e negou ter apresentado qualquer ultimato ao presidente, dizendo acreditar que ele "ouve o povo ucraniano" e será capaz de resolver a situação. Questionado sobre a disputa entre os dois nesta quinta-feira, Zelensky reconheceu o desgaste provocado pelo conflito e defendeu maior coesão na liderança militar. — Francamente, um presidente em tempos de guerra não deveria ter que escolher em uma situação dessas. Eu gostaria muito que houvesse unidade — afirmou. Nesta quinta, manifestantes em Kiev também fizeram críticas a Syrskyi. Entre os slogans entoados estavam "Syrskyi, vá embora!" e "Um Exército europeu para um país europeu!". Reformulação do governo A saída de Fedorov faz parte de uma ampla reformulação do governo promovida por Zelensky. Os parlamentares devem votar nesta quinta-feira a indicação do atual ministro do Interior, Ihor Klymenko, para substituí-lo no comando da Defesa. Na mesma reorganização, o Parlamento aprovou a nomeação de Serhiy Koretsky, ex-chefe da estatal de petróleo e gás da Ucrânia, para o cargo de primeiro-ministro, após a renúncia de Yuliia Svyrydenko no início desta semana. Para muitos manifestantes, porém, a troca ultrapassa uma simples reorganização política. — Tenho muitos amigos no Exército. Muitos deles morreram. Não quero que isso continue — diz Maria Lavrynets, de 31 anos, durante um dos protestos em Kiev. — Vemos os resultados dele. Vemos a motivação dos soldados. Devemos apoiá-los. Nas redes sociais, apoiadores do ex-ministro descrevem sua saída como uma ameaça à estratégia que permitiu à Ucrânia recuperar iniciativa em diversas frentes da guerra. Pavlo Yelizarov, comandante de uma renomada unidade de drones, chegou a renunciar ao cargo de vice-comandante da Força Aérea em protesto contra a demissão, classificando a decisão como "um grande mal para a capacidade de defesa do país". Em uma publicação nas redes sociais após confirmar sua saída, Fedorov classificou como "uma grande honra" ter servido ao povo ucraniano e listou as principais realizações de sua gestão. O ex-ministro também defendeu que a Ucrânia continue apostando em "assimetria, velocidade de inovação e força organizacional" para enfrentar a Rússia e afirmou que seguirá trabalhando pela derrota do país vizinho, sem detalhar quais serão seus próximos passos. (Com New York Times)