— Foto: Ferdinand Ostrop/AP A União Europeia deverá apresentar nesta semana seu Plano de Ação para a Eletrificação. A iniciativa parte de um diagnóstico correto: embora a geração de eletricidade na Europa esteja se tornando progressivamente mais limpa, a eletricidade ainda representa apenas cerca de 23% do consumo final de energia da União Europeia. Transportes, aquecimento e parte significativa da indústria ainda dependem de combustíveis fósseis. O plano pretende acelerar a eletrificação desses setores, reduzir a exposição às importações de petróleo e gás e proteger a economia da volatilidade energética. Mas eletrificar mais não significa necessariamente descarbonizar ao menor custo. O risco é a Europa tratar o problema predominantemente como uma questão de ampliar a geração renovável, modernizar redes, instalar armazenamento, acelerar licenciamentos e subsidiar o consumo industrial. Tudo isso é necessário. Não será, porém, suficiente para resolver o conflito crescente entre descarbonização, segurança energética e competitividade. O powershoring é identificar em cada etapa da cadeia de valor onde produzir com menos custo e emissões A eletrificação altera profundamente a economia da localização industrial. Petróleo, carvão e gás natural possuem elevada densidade energética, podem ser armazenados e percorrem grandes distâncias a custos relativamente baixos. Por mais de um século, a energia foi até a indústria. Eletricidade solar, eólica e hidráulica obedecem a outra lógica. São dependentes da geografia, das redes e da disponibilidade de transmissão, armazenamento, balanceamento e redundância. Hidrogênio, amônia e metanol ajudam a contornar essas limitações, mas não as eliminam. Converter eletricidade em moléculas, transportá-las e eventualmente reconvertê-las envolve perdas energéticas, infraestrutura e custos adicionais significativos. Para boa parte da indústria, portanto, a variável decisiva não será apenas o custo de geração da energia renovável, mas o custo de entregar energia limpa, firme e confiável no local de consumo. Esse é o ponto que a política europeia não pode ignorar. À medida que aço, alumínio, químicos, fertilizantes, combustíveis sintéticos e outros setores se eletrificam, o preço e a disponibilidade da energia tornam-se determinantes ainda mais importantes das decisões de investimento. Regiões com melhores ventos, maior incidência solar, disponibilidade de terras, água e sistemas menos congestionados passam a ter uma vantagem estrutural. A Europa tem três opções. A primeira é tentar reter domesticamente a maior parte das cadeias industriais verdes. Isso exigiria enormes investimentos em geração, redes, armazenamento e subsídios permanentes. Pode ser justificável em atividades críticas, mas, como estratégia geral, corre o risco de transformar uma desvantagem geográfica em custos fiscais e de competitividade recorrentes. A UE estima serem necessários investimentos anuais da ordem de 660 bilhões de euros até 2030 e vários trilhões adicionais para alcançar a neutralidade climática em 2050. A segunda opção é proteger a produção doméstica com conteúdo local, compras públicas, barreiras comerciais e uma aplicação cada vez mais defensiva do Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM). Essa abordagem pode evitar concorrência desleal de produtos intensivos em carbono, mas torna-se contraproducente quando também bloqueia produtos efetivamente mais limpos e baratos. O recente movimento em favor de requisitos “Made in EU” ilustra a tentação de confundir descarbonização e combate ao vazamento de carbono com territorialização da produção. A terceira opção é otimizar as cadeias de valor. Etapas intensivas em eletricidade, cujos produtos sejam facilmente transportáveis, seriam localizadas em regiões com energia renovável abundante e competitiva. Etapas intensivas em conhecimento, tecnologia, engenharia, serviços industriais, design e proximidade com o mercado permaneceriam na Europa. Esse é o powershoring. Não se trata de transferir indústrias inteiras nem de promover uma nova dependência. Trata-se de identificar, etapa por etapa, onde produzir com menor custo, menor emissão e maior segurança. A unidade relevante deixa de ser a fábrica e passa a ser a cadeia de valor. Considere o aço. Em vez de transportar eletricidade ou hidrogênio por milhares de quilômetros, pode ser mais eficiente produzir ferro-esponja, inclusive briquetado a quente, em países que combinam minério de qualidade e energia renovável competitiva. O produto intermediário seguiria para siderúrgicas europeias, onde seriam preservadas etapas de maior complexidade, empregos qualificados e relações com as indústrias automotiva, de máquinas e equipamentos. O mesmo raciocínio vale para alumínio de baixo carbono, amônia, fertilizantes, combustíveis sustentáveis e determinados minerais processados. Quando a realocação de uma etapa reduz simultaneamente o custo entregue e as emissões incorporadas, surge uma verdadeira arbitragem de carbono habilitada pelo comércio. A integração energética Norte-Sul passa, assim, a ser parte da solução climática, e não apenas da agenda de desenvolvimento. Naturalmente, o mercado não organizará sozinho essa nova geografia da produção. É preciso criar corredores verdes específicos por produto. Um corredor de ferro verde é diferente de um corredor de combustível sustentável de aviação. Cada um requer acordos de compra de longo prazo, certificação, medição e verificação de emissões, financiamento, infraestrutura, regras de origem e acesso previsível ao mercado. Em vez de tentar negociar grandes pactos abstratos, governos, empresas, bancos e compradores podem resolver pragmaticamente uma cadeia de cada vez. O CBAM deveria deixar de ser apenas defensivo e também favorecer a integração de cadeias de baixo carbono. A Europa poderia utilizar garantias, bancos de desenvolvimento, crédito à exportação e contratos por diferença para reduzir os riscos dos primeiros corredores. A segurança seria buscada pela diversificação de parceiros, em especial daqueles com os quais empresas europeias já mantêm longo histórico de investimentos, e não pela duplicação de todas as capacidades dentro das fronteiras europeias. Embora o Plano de Eletrificação seja necessário, seu erro será imaginar que a eletricidade adicional e a indústria por ela alimentada precisam estar na Europa. Na economia renovável, nem sempre será eficiente transportar a energia até a indústria. Em muitos casos, algumas etapas da indústria terão de ir até a energia, transportando-se produtos que incorporem essa eletricidade limpa. Para a Europa, isso significa menores custos, menos inflação verde, mais resiliência e maior competitividade industrial. Para países de powershoring, significa investimento, industrialização e empregos. Para o clima, significa descarbonizar mais rapidamente e a um custo menor. Esse é o ganha-ganha sem o qual a eletrificação europeia será mais cara, lenta e conflitiva. Jorge Arbache é professor de economia da Universidade de Brasília e da Fundação Dom Cabral e senior fellow do Instituto Clima e Sociedade.