Até agora, o choque do petróleo provocado pela guerra no Irã produziu menos impactos negativos do que se previa em março — Foto: REUTERS/Umit Bektas Em novembro passado, discuti nesta coluna as perspectivas para os EUA em 2026, sob a premissa de menor incerteza após os acordos que afastaram o risco de colapso do comércio internacional. Com a eclosão do conflito no Oriente Médio em fevereiro, as expectativas tornaram-se mais adversas, com petróleo mais caro, inflação mais elevada, menor crescimento e maiores juros. O acordo para o fim do conflito, ainda que sujeito a idas e vindas, reverteu parte dessa deterioração. As projeções de inflação aumentaram, mas não houve mudanças relevantes no mercado de trabalho nem no crescimento agregado — apesar de alterações nos seus componentes. O preço do barril de petróleo Brent, após superar US$ 110, recuou recentemente para perto dos US$ 70 de antes da guerra, contrariando previsões de preço elevado por mais tempo devido à suposta lenta recuperação da produção. Mesmo assim, a inflação ao consumidor PCE aumentou de 2,9% em fevereiro para 4,1% em maio, com alta do núcleo que exclui alimentação e energia de 3% para 3,4% — maior valor desde outubro de 2023. A deterioração também aparece nas expectativas. A previsão da maioria dos analistas para o núcleo do PCE em 2026 aumentou para 2,9% a 3,4%, ante 2,3% a 2,8% de novembro de 2025. A alta das projeções decorre, entre outras razões, dos efeitos secundários do encarecimento da energia, do maior repasse das tarifas de importação e da multiplicação dos preços de chips de memória, como DRAM e NAND Flash. Os números seriam maiores sem a revisão metodológica do PCE de setembro, que reduzirá seu núcleo em 0,2 ponto percentual. O maior risco está na possibilidade de Trump ampliar os desequilíbrios institucionais e atritos com outras economias Há três riscos claros para essas previsões. O primeiro é geopolítico: um ambiente mais volátil no Oriente Médio reverteria o recuo do preço do petróleo, intensificando efeitos secundários — reaceleração para US$ 87 em 14 de julho confirma essa incerteza. O segundo é a reaceleração dos preços de chips de memória, cujas altas não geraram forte disseminação inflacionária, mas ainda podem alcançar os preços de duráveis e bens de tecnologia. Por fim, não se pode descartar a imposição de novas tarifas sobre importados. A projeção de crescimento para 2026 retornou ao intervalo de antes do conflito, entre 1,9% e 2,2%, próxima aos 2,1% de 2025. A composição, porém, mudou. Esperava-se, no fim de 2025, maior expansão do consumo real, favorecida por juros mais baixos e compras mais substanciais das famílias de maior renda. A alta dos preços de energia contrariou essa perspectiva, limitando o crescimento do consumo das famílias a algo entre 1,3% e 1,6% em 2026. O investimento residencial, pressionado pelo aumento das taxas de hipotecas, pode contrair quase 5% neste ano, ante os 2,2% de 2025. O investimento corporativo compensou essa contração, crescendo 10,4% no 1 trimestre em termos anualizados, com avanço surpreendente 17,2% do investimento em equipamentos. A previsão é de expansão entre 6% e 8% em 2026, acima dos 4,1% de 2025. Parte expressiva dessa dinâmica se deve à inteligência artificial. Esse movimento constitui o principal risco favorável: uma alta significativa do crescimento potencial em função do expressivo investimento em equipamentos, semicondutores, infraestrutura e intangíveis. O conflito tampouco teve influência relevante no mercado de trabalho, com a taxa de desemprego oscilando em torno de 4,3% e a criação líquida de vagas acima das 15 mil a 60 mil mensais necessárias para estabilizá-la. As projeções para 2026 variam entre 4,1% e 4,6%, amplitude que reflete diferentes taxas de participação e imigração. Do lado fiscal, as contas permanecerão expansionistas. Segundo o FMI, o déficit do governo geral aumentará de 6,8% do PIB em 2025 para 7,5% do PIB em 2026, por conta de redução de tributos e dos maiores gastos com defesa e controle das fronteiras. Eventual devolução de tributos sobre tarifas de importação invalidadas pela Suprema Corte elevaria o déficit em até 0,5 ponto percentual do PIB. Nesse ambiente, a dívida bruta aumentaria de 124% do PIB em 2025 para 126% do PIB em 2026. Em vez do afrouxamento embutido no fim de 2025, a curva de juros passou a embutir uma alta do fed funds em setembro — a mediana das previsões dos membros do comitê de política monetária na reunião de junho sinalizou ao menos uma alta até dezembro. O aperto é coerente com inflação em alta, já acima da meta antes do choque do petróleo, e com crescimento e mercado de trabalho resilientes. Ainda assim, declarações do novo presidente do Fed admitem a interpretação de que a alta advém de efeitos defasados do choque, e não da elevação permanente da inflação subjacente. Portanto, não se pode descartar a estabilidade do fed funds em 3,50%-3,75% em 2026. Caso os núcleos de inflação não recuem até o fim do 3 trimestre, a alta dos juros será quase certa, embora possa ser postergada para após as eleições. Dois temas com efeitos além deste ano ganharam relevância. O primeiro é a comunicação do Fed. O seu novo presidente tem criticado o forward guidance e a divulgação de informações supostamente excessivas, tendo iniciado uma revisão das práticas da instituição. Medidas nessa direção teriam consequências negativas para a transparência e para a coordenação de expectativas, com risco de contágio de outros bancos centrais. O segundo tema é a eleição de novembro. Em 14 de julho, de acordo com kalshi.com, a probabilidade de o Partido Democrata assumir o controle da Câmara era de 82%, frente aos 55% de o Partido Republicano manter o Senado. O efeito nos fundamentos em 2026 oriundo da posse dos congressistas em janeiro será baixo, mas a perspectiva de atrito entre o Executivo e a Câmara pode afetar os preços dos ativos ainda neste ano. Em suma, o choque do petróleo produziu menos impactos negativos do que se previa em março. O crescimento retornou ao intervalo anterior ao conflito, o investimento corporativo surpreendeu e o mercado de trabalho segue favorável. Nesse sentido, o cenário permanece benigno. A exceção é a inflação, que continua muito acima da meta e exige, ao menos, juros estáveis por um período mais longo. O maior risco está na possibilidade de o Executivo ampliar desequilíbrios institucionais e atritos com outras economias. Nilson Teixeira, Ph.D. em economia, escreve quinzenalmente neste espaço.
Cenário dos EUA em 2026 ainda é benigno
Até agora, o choque do petróleo provocado pela guerra no Irã produziu menos impactos negativos do que se previa em março






