Entenda as tarifas de Trump para os produtos brasileirosNeste Guia do Adulto Premium, você entende a cronologia de tentativas do presidente norte-americano de tarifar os produtos brasileiros. Crédito: Lucas Ghitelar/Larissa Burchard/EstadãoGerando resumoBRASÍLIA - Os Estados Unidos devem aplicar um novo tarifaço sobre produtos importados brasileiros. A decisão do governo americano, com o resultado da investigação de supostas práticas desleais adotadas no comércio pelo Brasil, que deve ensejar em uma nova sobretaxa, deve ser publicada entre a noite desta terça-feira e esta quarta-feira.A alíquota tende a ser fixada em 25%, atingindo aproximadamente 21% das exportações nacionais, com a expectativa de uma lista de exclusão para produtos que afetam a inflação americana. A avaliação é compartilhada entre integrantes do governo e representantes do setor privado.Governo já esperava que a tarifa seria aplicada diante das reuniões infrutíferas que tiveram com os representantes de Trump Foto: Kevin Dietsch/Getty Images via AFPPUBLICIDADEEm seu relatório preliminar, em 1º de junho, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) sugeriu a aplicação de alíquota de 25% sobre os produtos importados brasileiros, com uma lista de exclusões a produtos básicos do consumo americano - excetuando aeronaves, produtos agropecuários e insumos industriais.Interlocutores afirmam que as negociações se esgotaram, mas o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) está em contato com representantes dos Estados Unidos sobre a questão das tarifas e não possui nenhuma informação adiantada pelos norte-americanos até o momento. “A gente precisa primeiro avaliar se, de fato, se confirma mais essa medida despropositada para avaliar quais são os setores afetados. E a gente vai chamar os setores para dialogar e avaliar quais as condições, quais as medidas que eventualmente podem ser propostas. Mas tudo com muita tranquilidade”, disse Durigan a jornalistas na noite desta terça.Em nota divulgada na noite desta terça-feira, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) informou que a pasta, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e a Assessoria Especial do Presidente da República mantiveram hoje a quinta reunião de alto nível com o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. PublicidadeO encontro foi o quinto desde 7 de maio, quando os dois presidentes decidiram estabelecer um grupo de trabalho dedicado ao diálogo comercial. “Como já demonstrado pelo governo brasileiro, nenhuma das razões apontadas na Seção 301 justifica a aplicação das tarifas recomendadas. Cumprindo a orientação do presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado”, afirmou o MDIC na nota.Leia maisGoverno reitera ‘caráter injusto’ de recomendação de novas tarifas ao Brasil após reunião com EUASetor privado vê tarifaço de Trump como ‘inevitável’, mas com chance de maior lista de exceçõesA expectativa, tanto do setor privado quanto do governo, é de recomendação do USTR de tarifa de 25% sobre os produtos importados brasileiros. Para alguns setores, pode haver modulação da sobretaxa para 20%, segundo interlocutores. A tendência é de manutenção da lista de exceções, abrangendo produtos agropecuários, aeronaves e insumos industriais, conforme sugerido pelo USTR no relatório preliminar, com possibilidade de ampliação a produtos que podem afetar a inflação americana.PublicidadeComo apurou o Estadão/Broadcast, o governo já esperava que a tarifa seria aplicada diante das reuniões infrutíferas que tiveram com os representantes de Trump. No encontro de Lula e o republicano, em maio, ficou acertado que um grupo de trabalho seria feito para solucionar com celeridade as divergências entre os países sobre tarifas. A sugestão do USTR veio após as primeiras reuniões e a situação, ao invés de se apaziguar, se transformou em nova crise.Sabendo que a taxação se tornou inevitável, os representantes de Lula agora tentam incluir produtos estratégicos na lista de exceções à taxação. A confiança do Planalto vem do último tarifaço, do ano passado, quando a lista de produtos deixados de fora da taxação foi aumentando com o tempo.Representantes do agronegócio e da indústria e lideranças empresariais, que participaram da audiência na última semana em Washington, consideram o novo tarifaço sobre produtos importados brasileiros como “inevitável”. PublicidadePUBLICIDADEA percepção deles é de que a decisão do USTR sobre as tarifas já estava tomada. Para os empresários, representantes do agronegócio e da indústria, ouvidos pela reportagem, a decisão sobre a aplicação das tarifas sobre o Brasil será “política”. Ao mesmo tempo, o setor privado vê espaço para a ampliação da lista de exceções à nova sobretaxa. No relatório preliminar, o USTR recomendou a exclusão da tarifa para a maior parte de produtos agropecuários, aeronaves e partes aeronáuticas, fertilizantes, minerais críticos e estratégicos e insumos industriais relevantes para cadeias produtivas americanas. Agora, o setor privado vê espaço para manutenção dessas recomendações e extensão da lista a itens como calçados, café solúvel e insumos industriais, sobretudo da cadeia de máquinas e equipamentos - setores nos quais as contrapartes americanas defenderam a exceção às tarifas.PublicidadeÉ o caso, por exemplo, do mercado de calçados importados pelos EUA. O país norte-americano consome mais de 2 bilhões de pares de calçados por ano e produz aproximadamente 20 milhões de pares, o equivalente a cerca de 1% de todo o seu consumo doméstico. Embora os EUA importem calçados de várias origens, a oferta permanece fortemente concentrada na Ásia. Em termos de volume, a China detém a maior fatia, com 48%, seguida pelo Vietnã (28%) e Indonésia (10%).A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) aguarda a decisão final para uma avaliação mais precisa dos possíveis impactos. “A entidade vê espaço para uma decisão equilibrada e mantém expectativa positiva em relação ao anúncio, embora reconheça que ainda há incertezas quanto ao formato final da medida, à sua abrangência e a eventuais alterações na lista de exceções, ciente de que a análise envolve uma ampla gama de setores”, disse o presidente-executivo, Haroldo Ferreira. A Abicalçados atuou nos âmbitos público e privado, tanto no mercado brasileiro quanto junto aos seus interlocutores no mercado norte-americano.A nova tarifa, se confirmada sobre o Brasil, ocorre no âmbito da investigação comercial sob a Seção 301 da Lei de Comércio americana. Os EUA acusam o Brasil de adotar práticas ilegais em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico - como o Pix -, tarifas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal. A previsão é de conclusão da investigação até esta quarta-feira, 15, após as consultas públicas ocorridas na última semana.