Um dia depois de anunciar que pretende adotar um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, o governo dos Estados Unidos propôs uma nova rodada de sobretaxas a um grupo de 60 países, que inclui o Brasil. Dessa vez, a ameaça é de uma tarifa de 12,5% sobre produtos importados pelos americanos. As duas medidas são resultados de investigações realizadas com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos que basearam um novo tarifaço do presidente do país, Donald Trump. A primeira foi aplicada em uma apuração com foco exclusivo no Brasil com críticas a várias supostas práticas desleais que concluiu que determinados atos, políticas e práticas do governo do país são "irrazoáveis" e "oneram ou restringem" o comércio dos Estados Unidos. As duas medidas ainda serão alvo de consulta pública antes de entrarem em vigor, o que só deve acontecer no mês que vem. O que o novo tarifaço vai taxar? O documento disponível na página do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), sobre as sanções decorrentes da investigação sobre trabalho escravo traz uma tabela que mostra se os países importaram produtos que teriam sido feitos com trabalho forçado entre 2021 e 2025 e se importaram os mesmos produtos dos EUA (neste caso, sem trabalho forçado). São seis produtos listados: alumínioalgodãoeletrônicosbaterias de lítiotabacoarroz O Brasil é acusado de comprar cinco desses produtos fabricados com desrespeito a normas trabalhistas. Por isso, recebeu a recomendação de ter seus produtos taxados em 12,5% nos EUA. E quais são os alvos da outra proposta de tarifaço? Na proposta de tarifaço focada especificamente no Brasil, anunciada anteontem, há um documento de 107 páginas. É o relatório final da investigação comercial contra o Brasil, no qual o USTR traça um raio-x sobre as políticas brasileiras acusadas de supostamente promoverem uma concorrência desleal para as empresas americanas. A investigação foi iniciada em 15 de julho de 2025 por orientação do presidente Donald Trump e ficou aberta por quase 11 meses. Nesse período, foram recebidos mais de 295 comentários de pessoas e empresas interessadas. Houve ainda uma audiência pública em setembro do ano passado, e os representantes brasileiros foram ouvidos em abril deste ano. O processo abordou possíveis práticas desleais em seis tópicos: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico (nas quais se inserem as críticas ao Pix e decisões que atingem big techs); tarifas preferenciais consideradas injustas pelos EUA; aplicação de leis anticorrupção; proteção de propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal. Por essas supostas infrações, o USTR recomendou taxar produtos brasileiros importados pelos americanos em 25%. Há exceções? A proposta do USTR (Escritório de Comércio dos Estados Unidos) para taxar produtos brasileiros em 25%, sob a legislação conhecida como seção 301, prevê uma ampla lista de exceções que contempla os principais produtos da pauta de exportações do Brasil. Carne bovina é um dos produtos na lista de exceções — Foto: Olivia Harris/Bloomberg O anexo que discrimina essas exceções lista mais de 1.600 códigos tarifários. São designações técnicas, mas que abrangem principalmente esse conjunto de produtos: Produtos bovinosCafé e especiariasAeronaves civis e peçasSuco de laranjaTerras-rarasFrutas e nozesMinérios e combustíveisProdutos químicos e farmacêuticosTecnologia e eletrônicos As novas tarifas vão se somar? Esse percentual se refere à taxa de 25% imposta às mercadorias brasileiras em virtude de uma investigação específica sobre práticas “injustas” brasileiras e à tarifa de 12,5% aplicada devido a falhas na proibição de importação de produtos fabricados com trabalho forçado, que atinge 60 países, inclusive o Brasil. O que diz o Brasil? Qual é a cronologia e o vaivém de todos tarifaços de Trump? De janeiro a abril de 2025: Após medidas iniciais para aço e bens de China, México e Canadá, Trump lança em abril o primeiro tarifaço generalizado. Batizado de “Dia da Libertação”, as tarifas variam conforme o país e tomam por base a Lei de Poderes Econômicos de Emergências Internacionais (Ieepa, na sigla em inglês). O Brasil fica com taxa de 10%.Brasil na mira: Trump anunciou, nas redes sociais, em julho, tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, citando o tratamento das autoridades policiais e judiciais nas investigações e processos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro como uma “caça às bruxas”. No fim de julho: Decreto da Casa Branca confirmou a medida. Alguns produtos ficaram com sobretaxa total de 50%. Junto ao decreto, vinha lista com cerca de 700 exceções. Em paralelo, a Casa Branca anunciou a abertura de investigação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), com base na seção 301 da Lei de Comércio americana, de 1974, sobre práticas comerciais do Brasil.Encontro entre Lula e Trump: Na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, Trump e Lula têm seu primeiro encontro pessoal e trocam elogios públicos. O americano diz ter sentido “química” entre eles e acena com a possibilidade de um encontro. Em outubro, Lula e Trump se reuniram frente a frente, na Malásia, para discutir o tarifaço.Mais exceções: A Casa Branca anunciou em novembro de 2025 a ampliação da lista de produtos que ficam de fora do tarifaço, vindos de vários países, após meses de pressão de empresas americanas de setores que dependem da importação de insumos e alertaram que estavam repassando aos preços finais a elevação de custos, alimentando a inflação.Revés na Justiça: Em fevereiro passado, a Suprema Corte americana considerou inconstitucional boa parte do tarifaço de Trump. Para o órgão, Trump excedeu sua autoridade ao basear a decisão de sobretaxar parceiros comerciais com base na Ieepa. Ficaram suspensas tarifas elevadas com essa justificativa legal. Era o caso das tarifas recíprocas de abril de 2025 e da sobretaxa de 40% contra o Brasil, de julho.O rebote de Trump: Logo após a decisão da Suprema Corte, Trump anunciou que assinaria decreto impondo nova tarifa global de 10% sobre todos os países, para substituir as tarifas recíprocas suspensas pela decisão judicial. A ideia, afirmou Trump, foi recorrer à Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, driblando a inconstitucionalidade da aplicação da Ieepa.Próximos passos: O tarifaço generalizado de 10% aplicado após a decisão da Suprema Corte terminaria no início de julho. O republicano busca adotar tarifas substitutas.
Tarifaços em série: que produtos brasileiros serão taxados por Trump agora? E as outras sobretaxas? Tire suas dúvidas
As duas medidas recomendadas por agência de comércio do governo Trump ainda serão alvo de consulta pública antes de entrarem em vigor, o que só deve acontecer no mês que vem











