Anúncio do presidente americano ocorreu após o colapso do acordo de cessar-fogo com o Irã, que também tenta manter o controle da hidrovia estratégica para a economia global Embarcações no Estreito de Ormuz , vistas de Musandam, Omã, 9 de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Stringer O presidente americano, Donald Trump, afirmou na segunda-feira que os Estados Unidos cobrarão uma taxa de 20% sobre cargas transportadas pelo Estreito de Ormuz, após o colapso do acordo de cessar-fogo com o Irã em meio à disputa entre os dois países para manter o controle da hidrovia estratégica para a economia global. Teerã fechou o estreito de 34 quilômetros de largura - a principal rota de escoamento de cerca de 20% do petróleo consumido mundialmente e de outras mercadorias essenciais, como fertilizantes - após ser atacado pelos EUA e por Israel em 28 de fevereiro, provocando uma crise energética global. Veja o que se sabe sobre o plano de Trump, a posição do Irã e quais podem ser os impactos da cobrança para o resto do mundo: Mudança de posição de Trump No último dia 25 de junho, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou, durante reunião com países do Golfo Pérsico e em resposta à exigência do Irã de cobrar taxas em Ormuz, que "nenhum país tem o direito de cobrar pelo uso de hidrovias internacionais" e que tarifas sobre a navegação na área jamais fariam parte de qualquer acordo. Trump, porém, já havia aventado a possibilidade de os EUA cobrarem pedágios caso as negociações com Teerã fracassassem. "Não haverá pedágios no Estreito de Ormuz durante os 60 dias do período do cessar-fogo... a menos que sejam impostos pelos EUA e em seu benefício, caso o acordo não seja concluído", disse ele em uma rede social no dia 20 de junho. Na ocasião, Trump afirmou que a taxa seria um reembolso pelos custos dos EUA com serviços prestados, no passado, no presente e no futuro, como "anjo da guarda" dos países do Oriente Médio. Com o fim do acordo de cessar-fogo, o presidente americano parece ter retornado à posição anterior. "Os EUA passarão a ser conhecidos, a partir de agora, como os 'guardiões do Estreito de Ormuz' e, por uma questão de Justiça, serão reembolsados à razão de 20% sobre todas as cargas transportadas", escreveu ele em uma rede social na segunda-feira. Trump não explicou como essas cobranças seriam implementadas nem qual seria a base legal para exigir o pagamento pela passagem. O presidente Donald Trump fez um discurso na Casa Blanca durante a apresentação do próximo Grande Prêmio Liberdade 250, em 13 de julho de 2026, em Washington. — Foto: AP/Alex Brandon Como a proposta dos EUA difere da iraniana? O Irã transformou a manutenção do controle sobre o estreito, cujas águas compartilha com Omã, em prioridade nas negociações, considerando-o seu maior trunfo estratégico e a melhor garantia contra futuros ataques. Teerã acredita que Washington aceitou essa posição na redação do acordo provisório firmado no mês passado, segundo o qual o Irã "fará os melhores esforços para garantir a passagem segura de embarcações comerciais, sem cobrança de taxas, apenas durante 60 dias". Os Estados Unidos, porém, interpretaram essa redação apenas como um compromisso do Irã de facilitar a navegação segura, e não como autorização para impor restrições respaldadas pelo uso da força. Durante a guerra, Teerã criou a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, afirmando que qualquer embarcação que atravesse a hidrovia deve coordenar sua passagem com o órgão. O Irã também sustenta que os navios devem navegar apenas próximos ao seu litoral e atacou embarcações que tentaram utilizar a rota junto à costa de Omã sem autorização iraniana. O Irã afirma que poderá cobrar taxas pela travessia no futuro, mas ainda não detalhou como isso funcionaria. É legal cobrar pela passagem no Estreito de Ormuz? O Estreito de Ormuz é formado pelas águas territoriais do Irã e de Omã, com a fronteira marítima situada aproximadamente no meio da passagem. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (Unclos, na sigla em inglês) estabelece que os Estados que margeiam estreitos internacionais não podem cobrar simplesmente pela autorização de passagem. Eles podem, contudo, cobrar taxas limitadas por serviços específicos, como praticagem, rebocadores ou serviços portuários, desde que essas tarifas não discriminem embarcações de determinados países. Nem o Irã nem os Estados Unidos são signatários da Unclos, mas a convenção é amplamente reconhecida como referência do direito marítimo internacional, e Ormuz é considerado um estreito internacional. Em 1968, Irã e Omã firmaram, junto à Organização Marítima Internacional (OMI), um esquema de tráfego segundo o qual grandes embarcações utilizariam corredores de navegação próximos ao centro do estreito. Segundo a OMI, porém, a colocação de minas pelo Irã durante a guerra tornou essa rota insegura. Outros países aceitariam o pedágio ou taxas para transitar em Ormuz? Segundo representantes do setor marítimo, nunca houve, na história recente, uma iniciativa unilateral para cobrar taxas pela travessia de um estreito internacional. Omã manteve diálogo com o Irã sobre a questão e, no mês passado, publicou orientações para embarcações que transitam pelo estreito por suas águas territoriais sem prever qualquer cobrança. Os países do Golfo, cuja principal ligação com o oceano para exportação de energia passa por Ormuz, estão especialmente preocupados com a possibilidade de cobrança de taxas. Os grandes consumidores de petróleo, gás e fertilizantes do Golfo também podem ser afetados, sobretudo pela proposta de Trump de cobrar um adicional de 20% sobre as cargas, medida que pode provocar uma forte alta nos preços globais do petróleo. Especialistas ouvidos pelo jornal americano The New York Times afirmam que uma taxa de 20% sobre o valor da carga transportada poderia mais do que dobrar o custo do transporte de petróleo por Ormuz. No caso de um grande petroleiro transportando dois milhões de barris de petróleo, por exemplo, a cobrança poderia acrescentar mais de US$ 30 milhões aos custos da viagem, o que provavelmente seria repassado a consumidores em todo mundo. Embarcações no Estreito de Ormuz, vistas de Musandam, Omã, 16 de junho de 2026 — Foto: Reuters/Stringer/Foto de Arquivo Como o Irã reagiu? O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, reagiu com ironia ao plano de Trump de cobrar um pedágio pela passagem no Estreito de Ormuz após os EUA terem rejeitado a ideia aventada por Teerã. Em uma postagem nas redes sociais, Araqchi afirmou que o Irã é o verdadeiro "guardião do estreito" - repetindo o termo usado pelo presidente americano - e concordou com o reembolso pela garantia de uma passagem segura pela hidrovia. "[Uma taxa de] 20%, naturalmente, é um valor alto demais. Seremos justos", disse ele, com um evidente tom irônico sobre a tarifa proposta pela Casa Branca.
O que se sabe sobre o plano de Trump para cobrar pedágio no Estreito de Ormuz?
Anúncio do presidente americano ocorreu após o colapso do acordo de cessar-fogo com o Irã, que também tenta manter o controle da hidrovia estratégica para a economia global












