Explicações mais frequentes contra a medida incluem o aumento de gastos para os produtores americanos e, consequentemente, para o consumidor do país e a falta de alternativas de fornecedores A maioria dos empresários e executivos americanos que participaram na semana passada da audiência pública no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) foi contra o aumento das tarifas contra o Brasil, seja de modo geral, seja para seu setor específico. Uma análise dos pronunciamentos de 44 executivos não brasileiros que estiveram presentes em Washington mostra que 31 deles (70%) se manifestaram contra sobretaxas. As explicações mais frequentes contra a medida incluem o aumento de gastos para os produtores americanos e, consequentemente, para o consumidor do país, a falta de alternativas de fornecedores, os ganhos que outros países (especialmente a China) terão com o deslocamento da exportação e até mesmo a guerra entre Rússia e Ucrânia. “As tarifas interrompem o fluxo de inovação. Elas aumentam os custos de pesquisa, desencorajam o investimento em programas de melhoramento genético com sede nos EUA e criam incentivos para realizar mais pesquisas fora dos Estados Unidos, em vez de aqui. O resultado não é uma competitividade americana mais forte; mas sim mais fraca”, disse Andrew LaVigne, presidente da Associação Americana do Comércio de Sementes. A falta de produção nos EUA de itens que estão no alvo das tarifas foi recorrente nos argumentos dos empresários americanos, ainda que fosse também frequente a defesa da administração Donald Trump contra práticas comerciais que o país considera injustas. “No caso do açúcar orgânico, as tarifas propostas contrariariam diretamente esse objetivo [de defender as empresas americanas]. O açúcar orgânico difere do mercado de açúcar em geral. Os Estados Unidos não produzem açúcar orgânico suficiente para atender à demanda”, afirmou Joddy Bickett, da Wholesome Sweeteners de adoçantes naturais. “A Wholesome não importa por preferência, mas porque não temos alternativa.” Outro ponto bastante abordado foi o impacto das tarifas para os consumidores americanos. “As novas tarifas da Seção 301 resultarão em custos mais elevados para as famílias trabalhadoras americanas, em um momento em que elas já enfrentam incertezas econômicas”, afirmou Matt Priest, da Associação de Distribuidores e Varejistas de Calçados da América (FDRA, na sigla em inglês). Na mesma linha foi Jonathan Gold, vice-presidente da Federação Nacional do Varejo americano. “Tarifas sobre bens de consumo aumentariam os custos para as famílias americanas sem abordar efetivamente as políticas brasileiras identificadas nesta investigação. As famílias já enfrentam preços mais altos decorrentes de uma combinação de tarifas, custos de combustível e pressões ·inflacionárias crescentes. A imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos de consumo agravaria essas pressões.” Na siderurgia, a guerra da Rússia e Ucrânia foi bastante lembrada, já que Moscou deixou de ser uma alternativa de importação para os americanos, enquanto a produção ucraniana foi fortemente atingida. “Fornecedores alternativos não conseguem substituir facilmente o Brasil. A Ucrânia continua afetada por interrupções decorrentes da guerra. A Rússia apresenta sanções e restrições geopolíticas. A China consome a maior parte de sua própria produção. Outras fontes não conseguem igualar a combinação de quantidade, consistência, qualidade, logística e preço oferecida pelo Brasil”, disse Barry Schneider, presidente da fabricante de aço Steel Dynamics. Um dos discursos mais enfáticos foi de Melinda St.Louis, diretora do Public Citizen (organização de defesa dos consumidores), que defendeu o Pix e como as empresas de mídias sociais têm sido tratadas no Brasil. “O Brasil está plenamente no exercício de seu direito, como país soberano, de regular o discurso on-line em seu território. Assim como todos os governos, o Estado brasileiro tem o dever de proteger os direitos de seus cidadãos, a ordem democrática e os processos democráticos.” Sobre o Pix, ela disse que o USTR não levou em consideração que o meio de pagamento é uma infraestrutura pública digital, e não um empreendimento comercial privado. O governo Trump deve anunciar até quarta-feira (15) se aplicará novas tarifas a exportações do Brasil com base na Seção 301, um dos principais instrumentos de política comercial dos Estados Unidos. Washington acusa o Brasil de uma série de práticas que considera prejudiciais aos interesses americanos. Uma delas é o Pix, que estaria afetando empresas de cartões e pagamentos dos Estados Unidos. O governo Trump diz ainda haver proteção insuficiente para a propriedade intelectual no Brasil. Também critica a disposição brasileira de regular o comércio digital e critica decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo plataformas digitais e redes sociais. Estão sob risco de sobretaxa de 25% produtos manufaturados, químicos, bens industriais e de madeira. Apesar das negociações, a aposta do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é que a nova taxa de 25% seja implementada pelo governo americano. Como mostrou o Valor, a avaliação do governo Lula é que, a menos de três meses da eleição brasileira, o caminho mais seguro para o USTR é taxar o país com os 25%, como forma de evitar adentrar, ainda mais, na disputa política entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Isso porque, de um lado, a eventual não implementação da taxa abrirá caminho para o governo petista dizer que foi por causa das negociações e que houve recuo americano. De outro lado, dá brecha para Flávio argumentar que os motivos foram o seu apelo público na semana passada e o diálogo com interlocutores da Casa Branca. Nesse cenário, a alternativa mais segura para o USTR não desqualificar o seu próprio trabalho seria manter a tarifa. Containers no Porto de Santos — Foto: Divulgação/Porto de Santos