Ordem do ministro do STF proíbe visitas do presidenciável a Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, após divulgação de carta com apelos à direita 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o enteado e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) — Foto: Beto Barata/PL e Cristiano Mariz/O Globo A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de proibir o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ), de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro provocou indignação entre aliados – e diferentes leituras sobre o impacto da medida para o próprio Flávio e para Michelle Bolsonaro. A decisão faz da ex-primeira-dama a principal interlocutora do marido em um momento pivotal da guerra travada com o enteado, com o avanço do calendário eleitoral na definição de palanques estaduais e realização de convenções partidárias. Embora a declaração manuscrita de Bolsonaro coloque Flávio como seu único porta-voz e nas entrelinhas desautorize Michelle no contexto do racha familiar, na prática a ex-primeira-dama vai se tornar uma espécie de “interlocutora privilegiada”, com um acesso direto ao marido que Flávio não terá pelo menos até o primeiro turno das eleições presidenciais, que ocorre em 4 de outubro. A medida de Moraes vale por 90 dias. Por outro lado, ainda que a medida “reabilite” Michelle e represente um revés na campanha do PL, aliados do clã Bolsonaro avaliam nos bastidores que a decisão é controversa e fortalece perante uma parte da opinião pública a narrativa de que o Supremo, e Moraes em particular, age em prol da reeleição de Lula e persegue politicamente o ex-presidente, proibindo um filho de ver o pai. “O Alexandre está dando discurso para perseguição. Isso pode fortalecer o Flávio na narrativa política de vitimização e perseguição do STF”, afirmou ao blog um integrante da cúpula do PL. “Se a equipe de marketing quisesse ter encomendado um fato político bom, não poderia ter encomendado um melhor." Além de Flávio, Jair Bolsonaro também está proibido de se comunicar com o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que vive no autoexílio nos Estados Unidos, e o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que ainda é alvo das investigações da trama golpista. “Isso só vai fazer o Flávio subir ainda mais nas pesquisas, porque perante os eleitores ninguém gosta de ver um filho ser proibido de visitar o pai”, disse Valdemar à equipe do blog. Para um integrante do núcleo duro da campanha de Flávio, a proibição de Moraes se insere em uma série de decisões do STF que colidiram com os interesses do PL, como a manutenção do desembargador Ricardo Couto no governo interino do Rio, em detrimento do presidente da Assembleia Legislativa do Rio, o deputado Douglas Ruas (PL). “É uma camada de decisões heterodoxas que só atinge um lado. É impossível não falar de perseguição”, afirmou. Ruídos No caso do filho 03, a restrição foi determinada dentro do inquérito que condenou Eduardo e seu aliado Paulo Figueiredo por coação contra o Supremo pela articulação de sanções contra ministros – como Moraes, alvo da Lei Magnitsky – na tentativa de pressionar a Corte durante o julgamento da trama golpista Pessoas próximas do ex-presidente se queixam das cautelares desde as eleições municipais de 2024. Internamente, os ruídos nas campanhas de diferentes candidatos a prefeito, como o caso de Ricardo Nunes (MDB) em São Paulo, foram atribuídos à impossibilidade de contato entre Valdemar e Bolsonaro. Agora, o veto às visitas de Flávio ao pai durante o cumprimento da prisão domiciliar tende a dificultar os esforços da campanha do filho 01 para concluir a costura dos palanques estaduais e unir a direita, principal apelo da carta divulgada no final de semana. Em uma live transmitida na última segunda-feira (13), Flávio se queixou da decisão de Moraes e aludiu à articulação política de Lula na eleição presidencial de 2018, quando estava preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba e lançou Fernando Haddad como seu substituto na corrida. “Lula podia fazer tudo, qual o critério agora com o presidente Bolsonaro? Ele está censurado, não pode usar as suas redes sociais”, declarou o presidenciável do PL. ‘Interlocutora privilegiada’ A tendência é que as atenções se voltem para Michelle, que deixou a presidência do PL Mulher alegando a necessidade de cuidar do marido e da filha do casal, Laura, em tempo integral. Desde a divulgação do vídeo de 27 minutos em que acusou Flávio de maltratá-la e até de apunhalá-la pelas costas, a ex-primeira-dama tem reiterado nos bastidores que não tem a menor pretensão de embarcar na campanha do enteado. Com o pré-candidato do PL e Valdemar fora do circuito do ex-presidente, Michelle recuperou o status de “interlocutora privilegiada” do marido. Mesmo que outras visitas estejam autorizadas, nenhuma delas detêm a mesma influência e interlocução da ex-primeira-dama. Carlos Bolsonaro, por exemplo, tem visitado frequentemente o pai, mas não ocupa papel de destaque na campanha de Flávio, já que está voltado para viabilizar sua candidatura ao Senado em Santa Catarina, assim como o irmão Jair Renan, que disputará uma vaga na Câmara dos Deputados pelo mesmo estado. O que ninguém do PL arrisca cravar neste momento é se Michelle irá se dispor a fazer a ponte entre os interlocutores de Flávio e o marido – ou se aproveitará o novo contexto forjado pelo STF para defender seu ponto de vista sobre o embate com o enteado junto ao ex-presidente.