Dez anos depois de "pós-verdade" ter sido eleita palavra do ano, há um novo conceito político e social a impor-se: a "pós-vergonha".
Reparem: a vergonha é, desde os primórdios, um sentimento importante para o ser humano. A sociologia explica como esta emoção funciona como fenômeno de regulação social que é prévio até à lei – nós abstemo-nos de dizer ou fazer coisas que ofendem e chocam os outros, porque nos sentimos embaraçados. A vida coletiva assenta nesta preocupação inata com o olhar de aprovação exterior.
Mas, hoje, os sem-vergonha estão por todo o lado. São polêmicos, são ofensivos e não têm qualquer pudor em indignar ou atacar. Todos percebemos que são cada vez mais os que defendem posições abertamente racistas, xenófobas, machistas, homofóbicas ou autoritárias nas redes sociais – e não só.
As últimas semanas têm sido marcadas por declarações chocantes que correram o mundo. Há dias, por causa do mundial de futebol, a senadora paraguaia Celeste Amarilla atirou-se ao capitão da seleção francesa com ataques racistas. Ela disse, por exemplo, que Mbappé era um "camaronês colonizado" que "o mais instruído que ouvia eram os chimpanzés".
Antes, no Brasil, ouvimos o jornalista Paulo Figueiredo dizer que as mulheres votam mal e a influenciadora bolsonarista Pietra Bertolazzi afirmar, sem vergonha, que as mulheres não deveriam ter direito ao voto.






