"Efeito cardápio chinês", em que diante de opções em excesso as pessoas buscam uma escolha familiar, é mais forte em crianças 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Moana: Um Mar de Aventuras (2016) — Foto: Divulgação Rory Henry, uma menina de 2 anos de Fort Worth, Texas, está tomada por uma obsessão. Ela assistiu a "Moana", o filme de animação da Disney sobre a princesa polinésia, cerca de 40 vezes no último ano e meio. Ela tem boneco de Pua, o companheiro de Moana; um microfone de karaokê que toca uma música de "Moana 2"; além de vestidos, óculos de sol e presilhas de cabelo inspirados no filme. A mãe de Rory, Stacey Henry, de 38 anos, e o pai precisam tomar cuidado ao mencionar a "palavra com M" em casa. "Ela imediatamente faz aquela cara de quem está muito séria e diz: 'Entre no meu barco'", diz Stacey, rindo. Moana e Maui — Foto: Divulgação Rory não está sozinha nessa: desde sua estreia nos cinemas em 2016, "Moana" tornou-se o filme mais assistido de todos os tempos no Disney+. O longa acumula mais de 1,5 bilhão de horas de exibição via streaming, o equivalente a tocar a música "How far I’ll go" em um ciclo contínuo por mais de 170 mil anos. Tanto "Moana" quanto sua sequência de 2024, "Moana 2", figuram entre as 10 animações de maior bilheteria da Disney. Então, o que está por trás dessa condição que centenas de pais nas redes sociais apelidaram de "Moana Mania"? As músicas de praticamente todas as animações da Disney lançadas nas últimas décadas têm sido uma ameaça à paz e ao sossego dos pais. A lista é longa: "De nada", a canção de estilo polinésio e influências de jazz interpretada por Dwayne Johnson em "Moana"; "Livre estou", o hino arrebatador de autoaceitação de Elsa em "Frozen"; e "Não falamos sobre Bruno", de "Encanto", composição vibrante que mistura salsa e pop latino. Em cada caso, a Disney aplicou uma fórmula consagrada: pegar uma narrativa de apelo amplo, revesti-la com melodias cativantes e ver o número de visualizações disparar. Cristel Antonia Russell, professora de marketing da Universidade Pepperdine em Malibu, Califórnia, pesquisa por que as pessoas gostam de consumir as mesmas histórias repetidamente. Existe um nome, segundo ela, para esse impulso de buscar o conforto de uma obra conhecida: o paradoxo da escolha. O conceito, cunhado pelo psicólogo Barry Schwartz num livro de 2004, está na base de um fenômeno às vezes chamado de "efeito cardápio chinês". Diante de opções em excesso, as pessoas buscam uma escolha familiar — como pedir novamente o frango xadrez. "É aquela coisa de que você tem certeza absoluta que vai gostar", disse Russell. Essa atração é particularmente forte entre as crianças, afirmou Sam Wass, psicólogo infantil que dirige o Instituto de Ciência da Primeira Infância e Juventude da Universidade de East London. A repetição de uma narrativa familiar pode ajudar o cérebro das crianças a processar informações, fazer previsões e dominar os ritmos da linguagem. O aprendizado máximo, segundo ele, está em algum ponto entre saber exatamente o que vai acontecer e não conseguir prever o que virá a seguir. "Os psicólogos às vezes chamam isso de 'zona Cachinhos Dourados'", disse ele. Como as crianças pequenas têm menos experiências prévias, conseguem alcançar essa zona tanto com uma narrativa previsível quanto com histórias mais complexas — como "Moana" — que se tornam familiares com a repetição. "O que para nós parece entediante, da perspectiva do cérebro de uma criança de 3 anos pode ser o nível certo de desafio", afirmou. Cada vez que assistem à história, as crianças podem fortalecer e refinar suas previsões, explicou ele. Inicialmente, elas pegam os contornos gerais da trama. Depois, percebem expressões emocionais, piadas, motivações, vocabulário e relações sutis entre os acontecimentos. "Em certo sentido, elas estão realizando o mesmo experimento repetidas vezes, mas extraindo novas informações a cada vez", disse ele. Isso significa que, no caso de uma narrativa rica em nuances como “Moana”, talvez seja melhor os pais se conformarem em memorizar as letras de “De nada” e “Saber quem sou”. “Quanto mais complexo for o conteúdo e mais jovem o cérebro, mais vezes é preciso rever algo até que aquilo se torne previsível e a pessoa pare de aprender ao assistir." Esse ciclo de retroalimentação cognitiva ajuda a explicar por que as crianças não apenas reveem filmes. Elas também pedem para ouvir a mesma história repetidamente, insistem em comer os mesmos alimentos, usam as mesmas roupas e, às vezes, divertem-se derrubando a mesma colher no chão 20 vezes seguidas. “Da perspectiva de um adulto, nada de novo está acontecendo”, destaca Wass. “Mas, da perspectiva da criança, ela está refinando e testando milhares de pequenas previsões a cada segundo.” Mas por que "Moana", e não, digamos, "Valente" ou "Enrolados"? É uma combinação de três fatores, disse Russell: o filme traz uma protagonista "que não é a típica Cinderela loira de olhos azuis", um tema de empoderamento e "músicas e danças contagiantes que são pura alegria". 'Foi um filme difícil, mas tinha que ser': diz Christopher Nolan sobre a 'A Odisseia' Esse último fator pode ser o mais significativo. A trilha sonora contagiante de Lin-Manuel Miranda está repleta de músicas que não saem da cabeça, como "You’re Welcome", "We Know the Way" e "How Far I’ll Go" — esta última vencedora do Grammy de melhor canção escrita para mídia visual. Músicas memoráveis podem ajudar a tornar uma narrativa irresistível, afirmou Russell. "Você não precisa rever um musical para reviver a experiência do filme", disse ela. "Você pode ouvir uma música no rádio e ainda sentir todas as emoções positivas associadas a ele."
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