Um número crescente de pequenas e médias empresas japonesas está deixando a China diante do aumento dos riscos associados às tensões prolongadas entre Pequim e Washington, à desaceleração da economia chinesa e à aplicação da lei de espionagem do país. "Muitas empresas japonesas entraram na China quando o país era conhecido como a fábrica do mundo, mas decidiram sair à medida que riscos imprevisíveis aumentaram", afirmou Ichiro Kawaguchi, presidente da Quick, empresa de recrutamento e seleção. Fundada em 1980, a Quick abriu uma subsidiária integral em Xangai em 2003, mas encerrou as operações no fim de 2025. A unidade prestava serviços de consultoria e assessoria em recursos humanos, especialmente relacionados às leis trabalhistas chinesas, para empresas japonesas instaladas no país. Com a expansão da presença japonesa na China a partir de 2003, a demanda pelos serviços da Quick cresceu. Mas, segundo estimativas da companhia, o número de novas empresas japonesas entrando no mercado começou a diminuir por volta de 2020. Após o início da pandemia de covid-19, a desaceleração econômica chinesa ficou mais evidente, enquanto as tensões comerciais e políticas com os Estados Unidos se intensificaram. Além disso, autoridades chinesas passaram a investigar casos envolvendo funcionários de empresas japonesas acusados de violar a lei de espionagem do país. A subsidiária chinesa da Quick teve queda de cerca de 35% nas vendas em 2024, para 2,36 milhões de yuans (US$ 350 mil), e registrou prejuízo líquido de aproximadamente 470 mil yuans. A empresa começou a avaliar a saída do mercado no verão daquele ano e realizou diversas discussões sobre o futuro dos funcionários locais. "Talvez tenhamos demorado um pouco para decidir sair da China, mas vários riscos se tornaram evidentes. No fim, acredito que foi a decisão correta", disse Kawaguchi. As operações internacionais da Quick geraram receita de cerca de 2,5 bilhões de ienes (US$ 15,4 milhões) no ano fiscal encerrado em março de 2026. Após deixar a China, a companhia pretende fortalecer os negócios nos Estados Unidos e na Europa, que juntos representam cerca de 80% de suas vendas internacionais. A meta é elevar a receita consolidada em quase 3%, para 34,8 bilhões de ienes no atual ano fiscal. Nos Estados Unidos, onde atua desde 1999, a empresa mantém crescimento constante, impulsionada em parte pela demanda relacionada à inteligência artificial. Nos últimos quatro anos, ampliou de duas para sete o número de operações no país, criando uma rede com cobertura nacional a partir da sede em Dallas. Em parceria com câmaras de comércio japonesas locais, oferece serviços de recrutamento e consultoria de recursos humanos para empresas ligadas ao Japão. Na Europa, onde muitas companhias japonesas mantêm sedes regionais no Reino Unido ou na Holanda, a Quick presta suporte com informações adaptadas aos sistemas trabalhistas e salariais de cada país. No mercado doméstico, a empresa concentra esforços na contratação de profissionais especializados, como enfermeiros, cuja oferta é limitada, além de trabalhadores para o setor de defesa. A presença de empresas japonesas na China chegou a um ponto de inflexão. Cerca de 13 mil companhias japonesas operavam no país em 2024, uma queda de quase 10% em relação ao pico registrado em 2012, segundo o Teikoku Databank. "O interesse em expandir operações na China parece ter atingido seu auge", afirmou a consultoria com sede em Tóquio. Em pesquisa referente ao ano fiscal de 2025 com empresas japonesas instaladas na China, a Organização de Comércio Exterior do Japão (Jetro) ouviu 784 companhias sobre seus planos para os próximos um ou dois anos. Apenas 21,3% disseram que pretendiam expandir suas operações no país, o menor percentual desde o início da pesquisa, em 2007. Ao mesmo tempo, 14,4% afirmaram que planejavam reduzir, transferir ou encerrar atividades — o maior nível já registrado. Os demais 64,3% pretendiam manter suas operações atuais. Entre os principais desafios apontados estavam o aumento dos salários e a intensificação da concorrência. Pequenas e médias empresas relataram dificuldades especialmente para conquistar novos clientes. Embora muitas ainda considerem a China um mercado relevante no médio e longo prazo, a expansão das companhias chinesas locais tornou a competição mais difícil. A Care Service, empresa que administra unidades de cuidados de enfermagem, encerrou sua subsidiária integral em Xangai em 2025. A companhia havia iniciado operações na China em 2015, oferecendo serviços de preparação de corpos para funerárias locais. A entrada no mercado chinês ocorreu parcialmente a pedido das autoridades de Xangai, que previam o envelhecimento da população e buscavam serviços inspirados no modelo japonês. O filme japonês "Partidas", de 2008, que retrata um agente funerário, também ajudou a popularizar esse tipo de atividade entre o público chinês. Durante a pandemia, porém, as restrições rigorosas à circulação e ao contato social dificultaram a comunicação com autoridades e o acesso a informações. Uma década após sua chegada ao país, empresas locais também passaram a oferecer serviços semelhantes. "Não conseguimos enxergar com clareza nossas perspectivas futuras diante da crise da economia chinesa e decidimos sair para concentrar esforços nos negócios no Japão", disse o presidente Toshiharu Fukuhara. A Care Service planeja investir mais de 2 bilhões de ienes nos próximos cinco anos, criando centros de entrega de refeições para pacientes em atendimento domiciliar e ampliando sua rede de 111 unidades no Japão. A empresa pretende elevar a receita para 10,2 bilhões de ienes em três anos, ante 9,2 bilhões de ienes no último ano fiscal. A Olica Sangyo, fabricante de embalagens para alimentos sediada em Osaka, encerrou sua joint venture em Xangai em 2023. A decisão foi motivada pelo aumento dos custos de mão de obra e materiais, além da qualidade inferior em comparação com a produção no Japão. A empresa investirá 1,2 bilhão de ienes em uma nova fábrica na província de Shiga para fabricar caixas de presente de madeira e outros produtos de embalagem de maior valor agregado. Entre outubro de 2024 e junho deste ano, o Banco de Kyoto recebeu sete consultas de empresas clientes interessadas em deixar a China. Entre os países asiáticos, a China foi o destino que gerou o maior número de pedidos de retirada, enquanto Índia e Vietnã receberam mais de 20 consultas cada sobre expansão. "Quando uma empresa decide sair da China, as negociações com funcionários se tornam extremamente importantes", disse um representante da área internacional do banco. "O ideal é começar a planejar esse processo com um ou dois anos de antecedência."