"Não estamos vivendo o declínio americano para a China", diz Gunther RudzitEspecialistas Gunther Rudzit e Cristina Pecequilo debatem a política americana, de George Washington a Donald Trump. Em junho, a China impôs restrições a 40 empresas japonesas, alegando uso militar, intensificando tensões históricas. O Japão, sob a liderança de Sanae Takaichi, busca reforçar sua defesa, temendo ameaças da China, Coreia do Norte e Rússia. A rivalidade afeta comércio e política, com ambos os países se vendo como ameaças. O Japão busca novas parcerias regionais, enquanto os EUA incentivam maior autodefesa. Xi Jinping e Takaichi se encontrarão em novembro na Apec, podendo redefinir relações.Na última semana de junho, a China impôs controles de exportação para 40 empresas japonesas, alegando que seus produtos poderiam ser utilizados pela indústria militar nipônica. Em resposta, o Japão se distanciou de seu vizinho asiático em parcerias comerciais e estratégicas. A tensão histórica entre os dois países ganhou, então, mais um capítulo - um dos mais explícitos dos últimos anos.PUBLICIDADEO bloqueio das últimas semanas foi um alarme para uma rivalidade adormecida e que tem sido um dos alvos, mesmo que indireto, das medidas da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi. Em novembro do ano passado, dias após assumir o cargo, Takaichi afirmou que caso houvesse uma tomada de Taiwan pela China usando aparatos como navios de guerra, seu país poderia se envolver no conflito por considerar uma ameaça ao redor do território japonês. PublicidadeChina e Japão estão aumentando suas demonstrações de força em uma escalada de tensão na Ásia Foto: Ng Han Guan/AP Photo“A chamada contingência de Taiwan tornou-se tão grave que precisamos nos preparar para o pior cenário possível”, afirmou Takaichi.Desde então, a China tem dificultado a exportação de produtos e a mobilidade entre os dois países, com a diminuição de voos diretos e restrição de intercâmbios acadêmicos, além de quase cessar o acesso do Japão às suas terras raras.“O que essa crise diplomática em curso ilustra é que o Japão e a China mudaram o modus operandi de suas relações bilaterais. Enquanto, no período pós-guerra até o início dos anos 2000, ambos os países seguiram um manual diplomático que separava estritamente a política da economia, hoje, o comércio e a política estão entrelaçados e são utilizados como armas”, diz Sebastian Maslow, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Tóquio.PublicidadeAo longo da história, China e Japão compartilharam momentos de atrito e briga por poder na Ásia. A tomada de partes do território chinês pelos japoneses durante a 2ªGuerra Mundial ainda é uma ferida aberta para o governo de Xi Jinping, que considera que os nipônicos não se desculparam o suficiente. Na época, de 200 mil a 300 mil chineses foram mortos pelas forças militares japonesas.É após esse período que surge uma cláusula da constituição japonesa que a premiê tenta mudar com manobras políticas e de reforço à sua defesa. Após a rendição do Japão, em 1945, o país ficou proibido de manter um Exército e forças militares em seu território. Assim, o Japão não pode, oficialmente, manter um potencial bélico, com a exceção de ter uma espécie de polícia de autodefesa. Mas, para Takaichi, essa denominação já não atende às necessidades do país, que se sente ameaçado por uma China cada vez mais poderosa e vê nos EUA um aliado pouco confiável no momento. Publicidade“Atualmente, não está claro se há outras medidas disponíveis para exercer pressão sobre o Japão, mas as tensões estão aumentando. O problema é que os sistemas de gestão de crises entre os dois países provavelmente não funcionariam de maneira eficaz caso ocorresse um incidente inesperado. Em outras palavras, o ambiente é tal que uma escalada poderia ocorrer facilmente”, afirmou Shin Kawashima, professor do departamento de relações internacionais da Universidade de Tóquio.Apenas em 2025, segundo um relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês), o Japão ficou na décima colocação em gastos militares, tendo dedicado cerca de US$ 62,2 bilhões, 1,4% de seu PIB. Esse investimento significou um aumento de 9,7% em relação à 2024 e de 61% em relação à 2016. Neste ano, os gastos previstos podem passar da cifra de US$ 58 bilhões. De acordo com o governo japonês, esse aumento nos gastos de defesa está acontecendo pela necessidade de uma autodefesa para a regularização de um exército. A ameaça atual seria, além do crescimento do arsenal chinês, um temor em relação à Coreia do Norte e à Rússia, que fazem treinamentos bélicos no Pacífico, além da própria questão de Taiwan, que fica a cerca de 110 km de distância do Japão.PublicidadePUBLICIDADEDo lado da China, é o investimento japonês em seu aparato de defesa que desperta desconfiança e representa uma ameaça, principalmente, porque seria um abandono da cláusula de paz nipônica. Pequim ainda acredita que a aliança entre Japão e EUA é um ativo perigoso para o país. “Quando o Japão aumenta seu processamento de defesa, a China começa a perceber como uma ameaça para ela. Porque ela pensa: ‘por que o Japão está aumentando seus orçamentos? O que que isso significa?’. Então, hoje, a gente está em uma situação em que cada um sente o outro como uma possível ameaça e isso leva a esse crescimento na tensão”, explicou Alexandre Uehara, professor de relações internacionais da ESPM-SP. Xi Jinping e Sanae Takaichi se encontram novamente em Shenzhen, na reunião da APEC em novembro Foto: Cabinet Public Affairs OfficeParcerias podem mudar cenário asiáticoO estranhamento entre os dois países pode mudar a forma como os poderes são divididos na Ásia. A China, enquanto a maior potência e um território provedor de diversos produtos e matéria-prima deve ter a vantagem, pelo menos, para incentivar a “retomada da ordem” no continente, acreditam os especialistas ouvidos pelo Estadão.PublicidadeMas o Japão tem feito parcerias que podem convencer aliados menos fiéis a Pequim. Nos últimos meses, o país tem buscado novos acordos na região voltados à segurança, como exercícios militares conjuntos com Filipinas e Índia, além de ações trilaterais com Coreia do Sul e Estados Unidos, e de treinamento de forças com a Austrália.Veja mais China e Japão trocam acusações sobre tráfego em águas próximas à ilha disputada pelas duas naçõesTudo o que você precisa saber sobre o raro teste de míssil da China e por que desperta preocupaçõesChina faz teste com míssil balístico lançado de submarino nuclear e preocupa países da Ásia“É claro que tudo isso pode resultar em divisão regional. No fim das contas, os países do Indo-Pacífico vão se deparar com uma escolha entre a China e o Japão e, se o Japão não aliar sua postura de defesa a uma assistência econômica confiável, muitos vão optar pelo crescimento econômico impulsionado pelo comércio com a China”, apontou Maslow.Apesar de ainda ser uma força importante e presente na região, os EUA têm demonstrado cada vez mais que é necessário apostar na diversificação de parcerias e estratégias em relação à segurança. Com um governo de palavra instável, na figura de Donald Trump, o movimento é importante, mesmo que Takaichi tenha sinalizado simpatia e apoio ao presidente americano.“Os Estados Unidos abandonaram seu papel de “policial do mundo” e agora estão exortando seus aliados, incluindo o Japão, a aumentar os gastos com defesa e aprimorar suas capacidades de autodefesa”, explicou Kawashima. Enquanto os dois países buscam parcerias, a tensão regional continua em um sentimento mútuo de ameaça à segurança e interferência em assuntos domésticos. Em novembro, Xi Jinping e Sanae Takaichi se encontram em Shenzhen, na reunião da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec, na sigla em inglês). Até lá, as relações podem mudar completamente - para melhor ou para pior -, segundo os especialistas.“A China forneceu à primeira-ministra Takaichi mais argumentos para sua agenda, que se concentra na segurança econômica e na resiliência da cadeia de abastecimento. As tensões atuais foram intensificadas pela declaração da primeira-ministra sobre Taiwan, mas certamente não foram desencadeadas por ela”, apontou Maslow. Publicidade