A Folha informa que cerca de 1 milhão de crianças e adolescentes brasileiros estão em situação de defasagem idade-série. O dado é grave, mas a forma como ele costuma ser apresentado revela um problema ainda mais preocupante: a tendência de interpretar a realidade escolar pela lógica da falta.

Fala-se em alunos atrasados, trajetórias interrompidas, desempenho insuficiente e inadequação ao fluxo escolar. Pouco se pergunta, porém, sobre as condições que produziram tais percursos. Que escola esses estudantes encontraram? Que currículo lhes foi oferecido? Que experiências de aprendizagem viveram? Que sentidos conseguiram atribuir ao conhecimento?

A expressão "aluno atrasado" carrega pressupostos sobre o que conta como aprendizagem, desenvolvimento e sucesso escolar. Ao tomarem como referência um percurso único e linear, transformam diferenças de trajetória em sinais de insuficiência. O estudante passa a ser definido por aquilo que lhe falta, enquanto desaparecem do debate as responsabilidades históricas, sociais e pedagógicas envolvidas em seu percurso.

Essa leitura reduz tudo isso a um rótulo colado ao estudante. Diz-se que ele está atrasado, mas pouco se pergunta sobre as condições que produziram esse atraso. Que escola encontrou? Que currículo lhe foi imposto? Que relações construiu com o saber? Que práticas pedagógicas conseguiram mobilizá-lo?