Veleiro que era de Amyr Klink é transformado em plataforma científica para estudar sedimentos marinhos na Groenlândia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Marina Guedes durante expedição em veleiro, da França à Groelândia — Foto: Arquivo pessoal RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/07/2026 - 19:27 Veleiro de Amyr Klink vira laboratório para estudar clima no Ártico Uma expedição no Ártico, a bordo do veleiro Forel, ex-Paratii 2 de Amyr Klink, transforma a embarcação em plataforma científica para estudar mudanças climáticas na Groenlândia. A missão, focada em sedimentos marinhos, visa compreender alterações na criosfera. Com cientistas de várias nacionalidades, a expedição destaca a importância do Ártico, que aquece quatro vezes mais rápido que o resto do planeta. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Ventava pouco naquela manhã ensolarada de junho. Estávamos ancorados a oeste da Groenlândia, em Kangerlussuaq. Senti um calafrio quando Stéven Le Bras, tripulante do Forel — barco que nos levou até a maior ilha não continental do mundo — disse que eu poderia subir em um dos mastros. Fotografar do alto de um veleiro é uma tradição pessoal. Tudo começou há uma década, quando vivi a bordo, no Pacífico Sul. Sempre que a viagem é pelo mar, tento repetir o ritual. Desta vez, a 27 metros acima do convés, medida que confirmei, dias antes, com Jean-François Levasseur, um dos comandantes. É quase um prêmio, principalmente se o deslocamento for longo. Nessa experiência de Lorient, na Bretanha, ao Ártico, levamos 16 dias (quase sempre calmos) até completarmos as 2.500 milhas náuticas que separam a Europa do território autônomo da Dinamarca. Em quilômetros, quase o dobro. VIVI PRA CONTAR | Repórter relata viagem ao mais extremo norte da Terra A expedição não era turística, tampouco uma aventura. Construído nos arredores de São Paulo, entre 1993 e 2001, o monocasco de alumínio em que atravessamos o Atlântico Norte teve como primeiro dono Amyr Klink. Ele é conhecido, dentre outros feitos, por ter atravessado o Atlântico Sul, a remo, da África ao Brasil, há mais de 40 anos. Em 2022, Klink vendeu seu terceiro barco, o Paratii 2, à Fundação Polar Suíça, que transferiu a propriedade à Forel Heritage Association (FHA, na sigla em inglês) e o rebatizou de Forel. A grande dama A terceira missão da FHA a bordo do Forel começou em maio. Uma das novidades é a etapa na costa leste groenlandesa, considerada desafiadora em razão do gelo. Stéphane Aebischer, um dos fundadores e gerente-geral da instituição, afirma que um dos focos é permitir que cientistas de diferentes países tenham acesso a regiões costeiras, onde grandes navios quebra-gelo não chegam. — Menos pesquisas são feitas na costa, onde as mudanças são rápidas e vive a maior parte da população. Daí a importância em compreender o que vem ocorrendo — explica. arina Guedes durante expedição em Kangerlussuaq. Ela viajou em veleiro, da França à Groelândia — Foto: Marina Guedes Os trabalhos são desenvolvidos com ênfase nas conexões entre oceano, terra e atmosfera. Do ponto de vista científico, permite a comparação entre os dois lados do país, com correntes oceânicas distintas. Sobre a mudança do nome da embarcação, ele disse não ter sido escolha fácil. — Era importante haver uma conexão com a Suíça. Daí a homenagem a François-Alphonse Forel, pioneiro na limnologia, uma espécie de oceanografia dos lagos. A instalação de três laboratórios de pesquisas na popa foi decisiva para a nova vocação do Forel, destinado às ciências polares. Por suas dimensões, de quase 30 metros de comprimento, 8 metros de largura e 100 toneladas, o ex-Paratii 2 poderia ser equiparado a uma grande dama, brincou Thierry Stump, construtor e projetista náutico. A analogia faria mais sentido em inglês ou italiano, idiomas em que a palavra barco é do gênero feminino. Marina Guedes durante expedição em Kangerlussuaq. Ela viajou em veleiro, da França à Groelândia - Icebergs na rota à Groelândia — Foto: Marina Guedes Thierry “plantou” em mim a ideia de conhecer o icônico veleiro. Nos encontramos na Bélgica, em fevereiro. Ele falou que foi um dos grandes trabalhos de sua carreira, “uma espécie de doutorado em construção naval.” Klink recorda que o então Paratii 2 foi inspirado em um projeto da dupla francesa Luc Bouvet e Olivier Petit — que, junto com a equipe de Stump, assina o projeto. Sua meta era navegar por dez anos. Ele afirma ter feito o dobro. Desejava percorrer 100 mil milhas, e garante ter ido além. — Recebi uma proposta da Suíça. Ao invés de vendê-lo para um milionário, que iria enchê-lo de “peladonas”, foi para um projeto de pesquisas de muitos anos no Ártico e na Antártica, em um programa muito bonito. Estou bastante orgulhoso — comemora Klink. O Forel foi reestruturado para receber seis pesquisadores e a mesma quantidade de tripulantes. Samuel Toucanne, do Instituto Francês de Ciências Marinhas, e Brandon Finley, da Universidade de Lausanne, foram os primeiros a chegar. Eles integram o projeto GreenCORE. Geólogo marinho, Toucanne revelou que a pesquisa foca em sedimentos marinhos para entender a criosfera, regiões onde há presença de gelo ou neve, na superfície continental, oceânica ou subsuperfície. — Sedimentos são como livros: contam a história das geleiras e da calota polar — comparou, explicando que diferentes geleiras serão analisadas. — Algumas terminam em terra, outras no mar. Nossa meta é reconstruir o passado, analisando tais sedimentos. Ou seja, comparar as transformações decorrentes das mudanças climáticas. Marina Guedes durante expedição em Kangerlussuaq. Ela viajou em veleiro, da França à Groelândia - Tripulação do Forel — Foto: Marina Guedes Por 40 dias, a dupla vai desenvolver duas atividades principais, de Kangerlussuaq até Narsaq, a sudoeste. Primeiro, o detalhamento gráfico da disposição dos sedimentos abaixo do fundo do mar, nos fiordes. Depois, farão a coleta das amostras em locais selecionados. A temporada no Forel inclui mais seis projetos. Em setembro, voltam à França. Ao desembarcar, visitei Kangerlussuaq. O povoado abriga cerca de 500 pessoas e atrai turistas para a experiência única de caminhar na calota polar. Fui até lá com o sorridente guia Adolf Jorgensen. Felizmente, ninguém mais. Ciência a bordo De carro, seguimos por cerca de 30km entre cachoeiras, montanhas e avistamento de renas. Um breve percurso a pé, entre colinas de pedras cinzas até que, finalmente, avistamos a imensa massa de gelo. Emocionada, recordei-me das palavras de duas referências nas questões polares e do clima, Jefferson Cardia Simões e Paulo Artaxo. Professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, Artaxo é um dos principais cientistas brasileiros em mudanças climáticas. Sobre a importância da Groenlândia no clima, ele apontou o impacto do derretimento acelerado. — A ilha contém uma quantidade de água que, se derreter, pode aumentar o nível médio dos oceanos em sete metros — explicou, ressaltando que o nível do mar já subiu, em média, 24cm no mundo. — As projeções são para um aumento, ainda neste século, de um metro. Vai trazer problemas sérios para portos, praias e infraestruturas próximas à costa, em cidades como Nova York e Rio. Marina Guedes durante expedição em Kangerlussuaq. Ela viajou em veleiro, da França à Groelândia - Tripulação do Veleiro — Foto: Marina Guedes Simões reforçou que cerca de 6% do volume de gelo mundial está na Groenlândia, chegando a 3.200m de espessura. — O Ártico é a região que mais aquece. Em média, quatro vezes mais que o restante do planeta. No dia seguinte, participei das festas do Dia Nacional, 21 de junho. A importância da natureza para o país de quase 60 mil habitantes foi marcante em apresentações culturais. Também provei iguarias típicas: gordura crua de foca e baleia. Admito que senti saudades das lasanhas, camarões e outras delícias feitas por Virginie Guarin e Julien Girardot, tripulantes do Forel. No avião rumo à Europa, a derradeira emoção foi ver a imensidão branca da ilha. Reforçou o desejo de voltar, no inverno.
Vivi para contar: Entre fiordes e geleiras, expedição no Ártico tenta decifrar efeitos da mudança climática
Veleiro que era de Amyr Klink é transformado em plataforma científica para estudar sedimentos marinhos na Groenlândia







