A inflação oficial apurada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) diminuiu para menos da metade, entre maio e junho, de 0,58% para 0,16%. O resultado surpreendeu analistas do mercado financeiro. A taxa ficou abaixo da mediana das projeções de 27 instituições financeiras e consultorias, ouvidas pelo Valor Data, de alta de 0,31%. O resultado também ficou abaixo do piso do intervalo das projeções, que ia de aumento de 0,24% a alta de 0,37%. Mas como entender uma diminuição tão forte na inflação, de um mês para o outro? Veja aqui cinco pontos que ajudam a explicar o comportamento da inflação em junho: Inflação de alimentos despencou “Vilão” da inflação no passado, o setor de alimentação surpreendeu em junho, com recuos e desacelerações de preços em diferentes itens. José Fernando Pereira Gonçalves, pesquisador do IBGE, informou que a variação de preços nessa classe de despesa saiu de alta de 1,33% em maio para queda de 0,24% de maio a junho. Sozinha, essa classe de despesa responde por cerca de 21,75% do total do IPCA. Portanto, qualquer mudança em trajetória de preço, em alimentação e bebidas, pesa muito na formação do índice. “E tivemos, em alimentação e bebidas, a mais forte queda para meses de junho desde 2023, quando essa classe de despesa mostrou queda de 0,66%”, acrescentou. Gonçalves ponderou que as quedas ocorreram por uma série de razões. Ele disse que pode ser efeito indireto de combustíveis mais baratos, que diminui o preço de frete e, por sua vez, ajuda a reduzir o preço final dos alimentos no varejo. Também pode ser devolução de altas sucessivas em meses anteriores, afirmou. “Mas pode ser questão de maior oferta”, acrescentou. Quando safras operam em alta, com boa performance no campo, a oferta de produtos de origem agrícola sobe e isso ajuda o preço a cair. Combustíveis tiveram queda de preços em junho A variação de preços no setor de combustível para veículos permaneceu negativa, em junho. Com recuo de 0,48% no IPCA de junho, foi a segunda queda seguida nesse tipo de produto, que mostrou deflação de 1,95% em maio. Gonçalves lembrou o expressivo peso de combustíveis no IPCA. O segmento representa 6,22% do total do indicador. O setor passa por ajuste, para baixo, após ser impactado por conflito no Oriente Médio, nos primeiros meses de 2026. A guerra envolvendo Israel, Estados Unidos, Irã e Líbano, que começou em fevereiro, elevou os preços do petróleo no mundo. A conjuntura internacional pressionou os preços dos derivados. O arrefecimento do conflito em junho acabou por reduzir a cotação do barril de petróleo, o que foi benéfico para formação de preços de derivados da commodity, no mês passado. Diminuiu a parcela de itens do IPCA em alta, em junho O cálculo do IPCA é feito por meio de mapeamento de evolução de preços de cerca de 377 subitens. Nesse universo, o IBGE costuma fazer o cálculo de quantos desses subitens subiram ou caíram de preço. E, com esse cálculo, apuram a proporção de cada fatia. O resultado desse cálculo dá origem a um indicador chamado de índice de difusão. Esse índice mede o “espalhamento” da inflação. Em junho, mais da metade do total de subitens no IPCA teve alta de preços. No entanto, o índice de difusão de junho foi o menor desde outubro do ano passado Isso significa que a inflação, em junho, não foi tão disseminada, como em meses anteriores, nos componentes que fazem parte do cálculo do indicador. Alimentos mais baratos ajudam a derrubar inflação de serviços O mês de junho contou com quedas e desacelerações de preços expressivas no setor de alimentos. O café ficou 3,72% mais barato. E o tomate, cujo preço havia disparado nos primeiros meses do ano, caiu 2,02%, no mês passado. Esse comportamento de preços dos alimentos, influenciado por boas safras e melhor oferta, ajudou a reduzir preços em um segmento importante, dentro do IPCA: a inflação de serviços. Esses são preços de serviços que vão desde restaurante até condomínio. E, de maio a junho, a inflação de serviços diminuiu de 0,40% para 0,34%. Foi a menor taxa desde abril deste ano (0,04%). Com o desempenho, a taxa em 12 meses ficou em 5,90% até junho, também a menor desde abril (5,75%). Mas isso significa que todos os serviços ficaram mais baratos? Não necessariamente. Esse campo da economia é muito diversificado e, cada segmento de serviços, opera com lógica própria de cadência de preços. No entanto, especificamente de maio para junho, ocorreu movimento de alimentos mais baratos – e isso beneficiou em cheio o mais relevante subitem dentro da inflação de serviços, a alimentação fora do domicílio, cuja variação de preços despencou, de 0,49% para 0,15%, no período. O pesquisador do IBGE informou ainda que alimentação fora do domicílio responde por 16,89% da inflação de serviços, maior peso entre itens componentes. A influência e o peso da alimentação fora do domicílio foram determinantes para reduzir a inflação de serviços. Tanto que acabou por inibir, em parte, o impacto da disparada de preços ocorrida em outros subitens de serviços. É o caso da aceleração do preço em passagens aéreas, de 3,20% para 7,12%, e de aluguel de veículo, que saiu de queda de -7,42% para alta de 4,37%, de maio para junho, informou ainda o IBGE. O que subiu de preço, em junho, tem menos peso, do que o que caiu, no cálculo do IPCA Os segmentos de combustíveis e de alimentos e bebidas foram determinantes para a taxa menor do IPCA de junho. Juntos, esses dois grupos representam quase 30% do cálculo total do indicador. E, no mês passado, tiveram taxas negativas, de 0,48% e de 0,24%, na variação de preços, respectivamente. Em contrapartida, o mês de junho também contou com altas de preços em itens relevantes na cesta orçamentária do brasileiro. É o caso de energia elétrica residencial, que ficou 1,53% mais cara no mês passado. Foi maior impacto individual positivo do IPCA em junho, com contribuição de 0,06 ponto percentual (p.p.) no total do indicador. No entanto, energia elétrica responde por cerca de 3,99% no cálculo do IPCA. Ou seja: o peso desse subitem não é mais elevado do que os de combustíveis e de alimentos. Outro subitem que teve alta expressiva, em junho, foi passagem aérea, que ficou 7,12% mais cara. Mas o peso desse subitem, no cálculo do IPCA, é de cerca de 0,69%. Outro tópico que ficou mais caro foi aluguel residencial, com aumento de 0,45% em junho. Entretanto, o peso desse subitem gira em torno de 3,8% a 4%, no IPCA. Assim, na prática, as mais expressivas elevações ocorreram em itens e em serviços cujos pesos, no cálculo do indicador, são menores do que os dos subitens que mostraram recuo, de preços, em junho.