Escrevo esta crônica na quarta-feira, dia 8 de julho. Primeiro dia em um mês sem jogo de Copa. Minhas mãos tremem. Humor alterado. Secura nas mucosas. Todos os sintomas de abstinência. Foi um teste para o que está por vir. Um longo e doloroso desmame. A Copa vai acabar e não estou sabendo lidar.

As redes sociais nos viciaram na dopamina. A cada tantos minutos, uma imagem de gato ou bebê, um coração na sua foto de barriga encolhida na praia, uma novidadezinha tremendo no bolso. Aquilo era só o começo. Citando Mateus, 3:11, sobre João, o cara que veio antes de Jesus, o Instagram nos batizou com água. A Copa do Mundo, com fogo. Uma DM não é capaz de lavar os pés de um Mbappé, de um Messi. Dando uma atualizada na Bíblia, Instagram era cafeína. Copa é cocaína.

Queria ver um PET-Scan do meu cérebro assistindo às defesas do Vozinha contra a Espanha. E a virada da Argentina contra o Egito? As seleções africanas dando show diante das europeias. Paraguai tirando a Alemanha. Imagino o Galvão narrando: "É jogo pra neurologista! Chooooooove, chooooove neurotransmissor! É chuuuuuva de dopamina!"

Essas cargas de neurotransmissores foram desenvolvidas por milhares de anos pra fugirmos de leão e onça. Aí a gente cria esse esporte, esse campeonato, é leão e onça três vezes por dia. No caso, não fugimos do leão e da onça, mas torcemos por eles. Sentimos que somos eles. Depois termina? Não estou pronto pra voltar pra mediocridade da minha vida. Tratarei disso na análise e nos tribunais. Sim. Processarei a Fifa.