País se torna o terceiro do mundo a repetir o feito de resgatar um propulsor orbital, técnica dominada até aqui apenas por empresas americanas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Recuperação de foguete da China — Foto: Divulgação/CASC RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/07/2026 - 11:06 China Avança na Corrida Espacial com Recuperação de Foguete Inovador A China deu um passo significativo na corrida espacial ao recuperar, pela primeira vez, o primeiro estágio de um foguete orbital, utilizando um sistema inédito. O feito, realizado com o Long March 10B, coloca a China mais próxima dos EUA no domínio espacial. A técnica chinesa elimina o uso de pernas de pouso, economizando combustível. Especialistas destacam o avanço, mas apontam que a China ainda está atrás das empresas americanas, como a SpaceX, que já realizou mais de 600 pousos com o Falcon 9. O desenvolvimento tecnológico tem implicações geopolíticas, com a reutilização de foguetes sendo vista como um fator estratégico pelos militares americanos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A China recuperou, nesta sexta-feira (10), pela primeira vez, o primeiro estágio de um foguete orbital, passo que aproxima o país dos Estados Unidos na disputa por domínio do espaço. A operação ocorreu no lançamento inaugural do Long March 10B, da base de Wenchang, na ilha de Hainan, no Sul do território chinês. Cerca de dez minutos depois, o propulsor se separou do estágio superior e desceu sobre o Mar da China Meridional, onde foi capturado por uma rede instalada em um navio, sem o uso de pernas de pouso, técnica inédita até então. O sistema desenvolvido pela estatal China Aerospace Science and Technology Corporation (CASC) utiliza cabos tensionados sobre o convés do navio Linghang Zhe. Eles formaram uma armação que suspende o propulsor no ar, já com os motores de pouso desligados. O modelo se diferencia tanto da técnica da SpaceX, que pousa seus propulsores sobre pernas em plataformas marítimas ou bases terrestres, quanto do método usado no foguete Starship, capturado por braços mecânicos presos à própria torre de lançamento. Ao eliminar o peso das pernas e recolher a estrutura a certa distância da base, a engenharia chinesa economiza combustível na descida e preserva capacidade de carga. Com cerca de 63,6 metros de altura, o Long March 10B tem dimensões próximas às do Falcon 9, o atual cavalo de batalha da SpaceX. O primeiro estágio reúne sete motores movidos a querosene e oxigênio líquido, batizados YF-100K, enquanto o segundo estágio conta com um único motor a metano, o primeiro do tipo utilizado pela CASC em voo. Em versão reutilizável, o veículo consegue levar cerca de 16 toneladas até a órbita baixa da Terra, capacidade ligeiramente inferior à do concorrente americano. No voo de estreia, colocou em órbita um satélite identificado apenas pelo codinome CX-26. Apesar do avanço, especialistas ouvidos pelo New York Times ponderam que a distância para as companhias americanas segue relevante. A SpaceX pousou seu primeiro propulsor do Falcon 9 em 2015 e, desde então, já repetiu a operação mais de 600 vezes. O volume agressivo reduziu custos e elevou o ritmo de lançamentos a ponto de a empresa de Elon Musk chegar a somar 165 missões em um único ano. — Isso significa que eles estão avançando, mas não necessariamente alcançando o nível que os Estados Unidos têm hoje — avaliou Todd Harrison, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, ao Times. A Blue Origin, terceira empresa a repetir o feito antes da China, pousou pela primeira vez o propulsor do foguete New Glenn em uma plataforma marítima em novembro passado Phil Smith, analista da BryceTech, uma empresa de consultoria aeroespacial na Virgínia, disse que o pouso do propulsor não foi um divisor de águas, mas mostrou que os engenheiros de foguetes chineses são talentosos. — A percepção era a de que a qualidade não era tão boa. Isso já ficou para trás — disse Smith, ao Times. Peso geopolítico Militares e parlamentares americanos enxergam na reutilização de foguetes um fator estratégico. O major-general Brian Sidari, vice-chefe de operações espaciais para inteligência da Força Espacial dos Estados Unidos, já declarou publicamente que o domínio dessa tecnologia permitiria à China acelerar o ritmo de lançamentos e ampliar rapidamente sua presença em órbita. Para Charles Galbreath, coronel reformado da Força Espacial e pesquisador do think tank Mitchell Institute, o avanço chinês na reutilização tende a ampliar a capacidade de colocar satélites em órbita em ritmo mais acelerado — o que, segundo ele, pesa tanto em termos de prestígio quanto de poder militar, já que o setor espacial do país está subordinado à estrutura das Forças Armadas. Ao Times, o senador republicano Ted Cruz, presidente do Comitê de Comércio, Ciência e Tecnologia do Senado americano, resumiu a mudança de percepção sobre a disputa: — O espaço não é mais reservado apenas à exploração pacífica. Hoje, ele é uma fronteira estratégica, com consequências diretas para a segurança nacional, o crescimento econômico e a liderança tecnológica — declarou Cruz, durante audiência no Congresso em setembro. A centralização das decisões no Partido Comunista chinês também entra no debate: diferentemente dos Estados Unidos, onde trocas de governo costumam reformular prioridades da Nasa e travar programas de exploração humana, Pequim consegue planejar metas espaciais ao longo de décadas sem interrupções políticas. Esse fator pesa, sobretudo, na corrida lunar. Atrasos no programa Artemis, da Nasa, abrem espaço para que astronautas chineses cheguem primeiro à Lua nesta década. — Acho que eles vão conseguir levar um humano à Lua antes de nós conseguirmos voltar lá — projetou Harrison, ao jornal americano. Corrida lunar O Long March 10B integra uma família de foguetes que a China projeta para os próximos anos. Uma variante quase idêntica, batizada Long March 10A, ainda aguarda seu primeiro voo completo e será destinada a lançamentos tripulados à estação espacial Tiangong, a bordo da nova cápsula Mengzhou, que substituirá a Shenzhou. Uma configuração mais pesada, chamada apenas Long March 10, deverá reunir três propulsores reutilizáveis do mesmo modelo lançados em conjunto, gerando o impulso necessário para enviar astronautas chineses à Lua, meta que Pequim mantém para 2030. Projeto de base da China na Lua — Foto: CAST Outras empresas chinesas também correm atrás dos foguetes reutilizáveis. A companhia privada LandSpace viu o propulsor de seu foguete Zhuque-3 se espatifar no deserto de Gobi em dezembro e deve tentar nova recuperação ainda neste mês ou em agosto. Outro projeto estatal, o Long March 12A, também perdeu o controle na descida em tentativa recente. Seguem na fila modelos como o Tianlong-3, da Space Pioneer; o Long March 12B, da China Commercial Rocket; o Kinetica-2, da CAS Space; o Hyperbola-3, da i-Space; e o Pallas-1, da Galactic Energy. Mais à frente, Pequim projeta um foguete de porte comparável ao Starship, batizado Long March 9. Do lado americano, além do Falcon 9 e do Starship, a SpaceX opera o Falcon Heavy, enquanto a Blue Origin segue com o New Glenn. Outras companhias também disputam espaço no setor: a Rocket Lab pretende lançar até o fim do ano seu foguete Neutron, a Relativity Space desenvolve o Terran R e a Firefly Aerospace trabalha, em parceria com a Northrop Grumman, no Eclipse — todos com algum grau de reaproveitamento previsto. A Stoke Space, por sua vez, aposta em um modelo totalmente reutilizável, batizado Nova. (Com The New York Times)