Autoridades espanholas aguardam os resultados das autópsias nos corpos das 12 pessoas que morreram em um incêndio florestal no sul da Espanha, onde equipes de resgate ainda trabalham no combate às chamas e nas buscas aos desaparecidos. O desastre ocorre no momento em que a Europa registra temperaturas historicamente elevadas, afetando seriamente as vidas de milhões de pessoas. De acordo com as autoridades espanholas, o incêndio na região de Los Gallardos começou após o rompimento de uma linha de transmissão de energia à margem de uma estrada. Com o tempo seco e quente, os ventos fortes impulsionaram as chamas, e o fogo avançou 15 km em apenas duas horas. Com o terreno acidentado, as investigações sugerem que as chamas encurralaram as pessoas que tentavam fugir: quatro vítimas foram encontradas em um carro, e testemunhas dizem que um grupo ignorou os alertas para que saíssem de casa. — Sete morreram — relatou o prefeito de Bédar, Ángel Francisco Collado, uma das cidades da região, à AFP. Los Gallardos se preparava para celebrar sua festa local quando a tragédia ocorreu. — Eles estavam instalando as luzes da festa, e os trabalhadores tiveram que parar completamente porque cinzas caíam como chuva , elas entram na boca e você as sente em toda parte —disse Ana, proprietária de um supermercado, ao jornal local Ideal. Carro destruído por incêndio florestal nos arredores de Bèdar, no sul da Espanha — Foto: JOSE JORDAN / AFP Enquanto isso, Víctor Fernández, pároco de Bédar e Los Gallardos, explicou à rádio Cadena Cope que a região abriga "estrangeiros... em sua maioria idosos que encontraram aqui um refúgio de paz". Segundo ele, muitos viviam "em grande isolamento", sendo que há um número considerável de britânicos. Mais de 500 profissionais, incluindo membros da Unidade Militar de Emergência, estão atualmente no local, mas o incêndio segue fora de controle. Além dos 12 mortos confirmados, oito pessoas ficaram feridas. Alguns relatos apontam que até 23 pessoas estão desaparecidas, mas o ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, que visitou o local na tarde de sexta-feira, pediu"cautela" em relação a esse número. Cerca de 1,4 mil pessoas foram retiradas para áreas mais seguras. As previsões meteorológicas indicam que as condições de sábado poderão facilitar o trabalho dos bombeiros. Como um país na linha de frente das mudanças climáticas, a Espanha tem enfrentado ondas de calor cada vez mais frequentes e prolongadas nos últimos anos, com temperaturas que que frequentemente ultrapassam os 40ºC. Incêndios devastaram quase 400 mil hectares no ano passado — o maior número registrado no país pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais —, deixando oito pessoas mortas. O calor extremo também provoca incêndios na França. De acordo com Julien Marion, diretor-geral de Segurança Civil, o fogo consumiu em 2026 o dobro da área em relação ao mesmo período de 2025. Segundo ele, houve “pouco mais de 8 mil focos de incêndio em nosso país, afetando uma área queimada estimada em mais de 25 mil hectares”. No sudeste, em uma área montanhosa do departamento de Drôme, um incêndio que já consumiu 3.700 hectares continuava avançando "lentamente" na sexta-feira, segundo a prefeitura. De acordo com o Alto Conselho do Clima local, as políticas nacionais para combater o aquecimento global são "insuficientes". Em junho, o país registrou mais de 2.000 mortes atribuíveis à onda de calor, e outras 300 durante as altas temperaturas do final de maio, segundo dados oficiais. Segundo a rede de cientistas World Weather Attribution, esta onda de calor teria sido "praticamente impossível" sem a influência das mudanças climáticas. Mais de dois terços dos europeus, cerca de 410 milhões de pessoas, foram expostos a temperaturas superiores a 35 ºC entre 15 e 30 de junho, apontou uma análise da AFP. Em relatório, divulgado também na quinta-feira, a ONG Global Witness afirmou que cerca de 300 dos 450 milhões de habitantes da União Europeia ficaram expostos a níveis perigosos de ozônio durante a última onda de calor, no final do mês passado. O ozônio troposférico é diferente da camada de ozônio na atmosfera, que protege a Terra da radiação solar. Ao nível do solo, o ozônio se forma por meio de reações químicas provocadas pelas altas temperaturas e pela intensa luz solar, e é uma forma de poluição. O documento não foi publicado em uma revista científica e se baseia principalmente em dados coletados em 162 estações de medição da qualidade do ar em toda a UE. Ele ainda aponta que os oceanos tiveram no mês passado as temperaturas mais elevadas já registradas, em um contexto marcado pela chegada do fenômeno El Niño no Pacífico, que deverá se intensificar nos próximos meses. — A mudança climática está deixando de ser um problema futuro, abstrato e estatístico, sobre o qual se toma conhecimento por meio de relatórios, para se tornar uma realidade concreta que altera a vida cotidiana — declarou à AFP Samantha Burgess, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF, na sigla em inglês), a organização intergovernamental que administra o Copernicus.