O Brasil provavelmente terá de reexaminar o plano de suspender o subsídio a venda do diesel para evitar a disparada de preços Imagem de satélite mostra os danos na refinaria de petróleo de Omsk (Rússia) após um ataque ucraniano com drone (7/07/2026) — Foto: Vantor/Divulgação via REUTERS As bombas voltaram a cair no Oriente Médio, com militares dos EUA realizando 90 ataques na infraestrutura do Irã na quarta-feira, enquanto os iranianos lançavam drones e mísseis em bases americanas de Catar, Bahrein e Kuwait. A origem da retomada dos conflitos foi a decisão do regime dos aiatolás de atacar navios petroleiros na segunda-feira, porque não seguiram a rota por ele designada. É impossível prever se a guerra será retomada com força total ou se o episódio é mais um de uma longa série de uma trégua mal negociada e ambígua. Há certeza, porém, de que o tráfego no Estreito de Ormuz, que escoa 20% do petróleo e gás natural do mundo, foi interrompido sem ter ao menos voltado a seu fluxo normal em nenhum momento desde 28 de fevereiro, quando o presidente Donald Trump deu início a uma aventura militar irresponsável, que agora não sabe como acabar. A interrupção de Ormuz encontra a economia global com estoques de petróleo baixos, consumidos para suprir a demanda nos meses de guerra aberta. As cotações do Brent caíram ontem para US$ 75 o barril, refletindo expectativas que olham para o passado e que indicam que aos EUA não interessa o recrudescimento do confronto, enquanto as declarações contraditórias de Trump sancionam tanto ataques devastadores como a continuação das conversas. Trump está acuado por eleições de meio de mandato que podem torná-lo um presidente sem poderes se os democratas tomarem o controle de Câmara e do Senado, e não tem boas opções para escapar da armadilha em que se meteu. Os mercados, por enquanto, refreiam apostas de que o estrangulamento da oferta se prolongará muito e as cotações finalmente explodirão. O aumento da escassez é um fato óbvio, agravado agora pelos dissabores enfrentados por outro presidente autoritário metido em uma guerra de mais de quatro anos, sem fim à vista: o russo Vladimir Putin — e sua invasão da Ucrânia. A Ucrânia bombardeou desde abril as 10 maiores refinarias de petróleo do segundo maior produtor mundial de óleo e diesel. Em junho, o governo russo começou a limitar vendas de gasolina, e na quarta-feira suspendeu as exportações de diesel. O diesel é vital para a agricultura, a indústria, parte do transporte terrestre de mercadorias e, no caso russo, para o vital abastecimento de tanques e veículos militares em suas linhas em solo ucraniano. O gargalo da oferta agora se estreitou ainda mais. Embora as cotações do petróleo bruto tenham recuado para a casa dos US$ 70 o barril após 17 de junho, quando foi assinado o memorando de entendimento entre EUA e Irã, as cotações do diesel permaneceram nas alturas, em US$ 135 o barril (FT, ontem). O anúncio da suspensão das exportações russas elevou as cotações em 13% na quarta-feira. A saída da Rússia do mercado global de diesel causará mais problemas ao Brasil, o maior cliente russo, que, em 2025, importou cerca de 64% do total exportado pelo país. As dificuldades de garantir o abastecimento levaram Moscou a reduzir exportações do derivado em maio, e em junho o Brasil buscou ampliar as compras dos EUA e da Índia. Entretanto, a maior disputa pelo produto tende a sustentar os preços. A Europa, que teve seu abastecimento de energia severamente comprometido após a invasão da Ucrânia, e que foi buscar novos mercados para escapar da dependência russa, terá seu fornecimento abalado pela demanda de mais países por um diesel mais escasso. Ao subsidiar a venda do diesel e planejar suspendê-la logo, o Brasil terá de reexaminar a questão e provavelmente manter os incentivos para evitar a disparada de preços. Problemas com o diesel se somam a outros que tendem a encarecer a oferta de alimentos da próxima safra, a ser plantada agora, como o da alta dos preços dos fertilizantes, que o FMI calcula em 26% após a eclosão do conflito. O El Niño, que deverá ser forte, pode acrescentar outro item nas desventuras em série que podem se abater sobre a agricultura brasileira nos próximos meses. Os esforços bélicos da Ucrânia estão conseguindo reduzir o papel da Rússia do mapa do fornecimento global, e não só de diesel. O governo de Kiev calcula que sua ofensiva contra refinarias cortou 43% da oferta russa de derivados e petróleo cru. Analistas privados têm cálculos que variam de 20% a 40%, de qualquer forma quantias suficientes para abalar ainda mais a equação da oferta global. Além disso, em três dias, o governo ucraniano diz ter atacado 21 navios tanques russos e 19 navios da frota fantasma que transporta óleo russo. Um acordo para por fim ao conflito não está próximo. O ataque arbitrário e improvisado ao Irã fortaleceu a linha dura do regime, que agora exige na mesa de negociações o que nunca teve em tempos de paz: o controle do Estreito de Ormuz. Navios foram atacados na segunda-feira por não seguirem as “disposições” do regime ditatorial iraniano, que incluem no futuro, ao que tudo indica, cobrança de pedágio na rota do estreito. Até agora, ao que parece, não houve um único avanço no entendimento após um memorando que permitiu ao Irã fazer mais exigências e conseguir abrir parte do cerco que os EUA lhe impuseram.
Escassez de diesel se agrava com conflitos com Irã e Ucrânia
O Brasil provavelmente terá de reexaminar o plano de suspender o subsídio a venda do diesel para evitar a disparada de preços












