Fechamento de agências e retirada de abono estão entre as medidas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O plano de reestruturação era a contrapartida ao aval do Tesouro para um empréstimo de R$ 12 bilhões; estatal busca ainda outros R$ 7 bilhões — Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/07/2026 - 21:42 Correios Suspendem Plano de Reestruturação Após Pressão dos Funcionários e Ameaça de Greve Sob pressão dos funcionários, os Correios suspenderam parcialmente seu plano de reestruturação, que incluía fechamento de agências e corte de gratificações, após ameaça de greve. O plano, essencial para a obtenção de empréstimos e recuperação financeira, enfrenta desafios, aumentando a desconfiança sobre a capacidade da estatal de sanar suas finanças e o risco de os custos recaírem sobre os cofres públicos. A suspensão visa abrir espaço para diálogo com os trabalhadores e avaliar distorções no plano. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Apresentado no ano passado como contrapartida ao aval do Tesouro para um empréstimo de R$ 12 bilhões, o plano de reestruturação em curso nos Correios foi parcialmente interrompido neste mês. A estatal suspendeu o fechamento de agências, a retirada de uma gratificação de R$ 500 para funcionários que exercem atendimento ao público e a adoção de um sistema para mapear os recursos necessários para realizar as entregas. A decisão foi tomada devido à ameaça de greve dos servidores. A suspensão das medidas previstas no plano ocorre no momento em que a empresa, comandada por Emmanoel Rondon, busca um novo empréstimo, agora de R$ 7 bilhões, como parte da estratégia para reverter os resultados negativos dos últimos anos. A estatal fechou 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões, e o rombo deve ser ainda maior neste ano. No primeiro trimestre de 2026, o déficit foi de R$ 3,1 bilhões. Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, a decisão alimenta a desconfiança sobre a capacidade da estatal de efetivamente sanear suas finanças. Diálogo com servidores Em nota, os Correios argumentam que a suspensão é temporária e servirá para que entidades representativas dos trabalhadores possam apontar possíveis distorções no plano. “A suspensão das medidas citadas é temporária e restrita aos temas em discussão, permitindo que as demais iniciativas previstas no plano de reestruturação tenham continuidade”, afirmou. Estão mantidas, por exemplo, a venda de imóveis e outras ações de contenção de despesas. A suspensão temporária foi proposta em carta a sindicalistas. Insatisfeitos com as medidas do plano de reestruturação, os representantes dos trabalhadores haviam indicado que começariam uma paralisação na última terça-feira. Depois do aceno da direção dos Correios, recuaram e só mantiveram o estado de greve, que permite à categoria cruzar os braços a qualquer momento, caso haja descumprimento dos termos da negociação pela empresa. “Como demonstração concreta do compromisso dos Correios com o diálogo e com a busca de soluções construídas de forma negociada, propõe-se a suspensão do fechamento de unidades previstas no plano de reestruturação dos Correios até 31 de julho de 2026, ressalvadas as unidades fechadas ou em processo avançado de fechamento”, diz a carta, à qual O GLOBO teve acesso. O documento é assinado por Rondon e pelos diretores de Gestão de Pessoas e de Operações. No período da suspensão, segundo o documento, serão avaliados e debatidos novos fechamentos, com “análise técnica, institucional e social das situações apresentadas”. ‘Afeta a credibilidade’ Da mesma forma, foi proposta a suspensão do sistema de dimensionamento de distribuição e a reavaliação de medidas realizadas em junho. Por fim, a direção se comprometeu a interromper a retirada das remunerações relativas ao Adicional de Atendimento em Guichê (AAG) e ao de Quebra de Caixa (pago a quem lida com dinheiro), com a reavaliação dos benefícios que já foram encerrados. Das ações paralisadas, uma das mais relevantes para a recuperação financeira da empresa é o fechamento de agências e centros de tratamento e distribuição. Das mil unidades que a estatal pretendia encerrar, com previsão de economia de R$ 2,1 bilhões, foram fechadas 256 até agora. No primeiro PDV deste ano, houve frustração. A meta era de 10 mil, mas somente 3.075 funcionários aderiram, o que representou uma economia de cerca de R$ 700 milhões, bem abaixo do objetivo de R$ 1,4 bilhão. Agora, a meta é desligar entre 2 mil e 3 mil pessoas. Com relação à busca de novas receitas, a empresa, por sua vez, vem avançando em parcerias. O especialista em finanças Daniel Pecanka de Andrade, mestre em Administração pelo Insper e pela Nova School of Business and Economics, afirmou que a decisão da direção da empresa de suspender parte do plano de reestruturação traz desconfiança em relação à capacidade de cortar efetivamente gastos: — É preciso fazer um plano de reestruturação forte e consistente. Não adianta começar e suspender, porque isso afeta a credibilidade e dificulta mais a operação. Ele sugere medidas além do corte de gastos, como separar as unidades de negócio, para ter clareza de onde a atividade é menos lucrativa e, se for o caso, subsidiá-la de forma transparente: — Esse é o caso da universalização do serviço — destacou Pecanka, acrescentando que as parcerias podem ajudar, principalmente se forem fontes de novas receitas e de melhoria da eficiência. Risco para cofres públicos Para o economista Armando Castelar, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), a suspensão parcial do plano de reestruturação enfraquece a estratégia dos Correios para reduzir os prejuízos e aumenta o risco de que o custo da crise recaia sobre os cofres públicos, já que os financiamentos contam com garantia do Tesouro Nacional: — Já era um desafio grande com o plano. Se as medidas não são implementadas, não só o prejuízo aumenta, mas toda a negociação para conseguir esse empréstimo adicional fica mais difícil. O sintoma maior é o fato de a empresa estar conseguindo implementar apenas uma fração do plano de reestruturação. Já havia dúvidas se seria suficiente, dado o tamanho do prejuízo, mas, se só um quarto ou um terço do plano está sendo implementado, a conta não fecha. Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento do FGV Ibre, também avalia que o plano original estava abaixo do desejável: — O ajuste a ser feito é muito grande, e as medidas anunciadas ficaram bastante aquém do resultado esperado.