Vencedor das prévias para o Senado no Maine, catador de ostras empolgou militância mas já era criticado por outros escândalos, entre eles agressões a ex-namoradas, postagens misóginas e tatuagem nazista; substituto sairá de convenção extraordinária e terá o desafio de unir a sigla contra veterana republicana 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Graham Platner fala a apoiadores em Blue Hill, no Maine, depois de vencer a primária do Partido Democrata para o Senado — Foto: Sophie Park/NYT RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/07/2026 - 17:04 Desistência de Platner abala estratégia democrata no Senado dos EUA A desistência de Graham Platner, acusado de estupro, desestabiliza a estratégia democrata para retomar o Senado dos EUA, especialmente no Maine, onde enfrentaria a republicana Susan Collins. Platner, apoiado pela esquerda, foi envolvido em diversos escândalos, incluindo postagens misóginas e uma tatuagem nazista. O Partido Democrata agora busca um substituto viável, enfrentando divisões internas entre progressistas e moderados. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Não foi exatamente uma surpresa. Mas quando Graham Platner, escolhido nas primárias da oposição para tomar dos governistas a vaga em jogo no Senado pelo Maine, anunciou, na noite de quarta-feira, o fim de sua candidatura, ruiu, junto com sua meteórica trajetória política, parte central da estratégia do Partido Democrata para retomar o controle da Casa Alta do Capitólio em novembro. O motivo da desistência, uma acusação de estupro por uma ex-namorada, tornado público após uma série de outros escândalos durante as prévias, deu fôlego às críticas do comando do partido, nas mãos dos moderados, ao avanço recente da esquerda país afora. Notadamente à unção de nomes com apelo popular nas primárias, porém jamais testados nas urnas para enfrentar adversários experientes, uma delas justamente Susan Collins, única senadora republicana da Nova Inglaterra e apontada como pule de dez para perder a reeleição em novembro no Maine. Não mais. A disputa pelo Senado dos Estados Unidos este ano é mais ingrata para os democratas. A maioria das cadeiras em jogo se encontra em estados vencidos com folga por Trump em 2024. Daí a imprensa americana ter classificado a saída de Platner como uma "mudança sísmica” na corrida eleitoral. A oposição precisa vencer oito dos 11 enfrentamentos competitivos à Casa para retomar a maioria perdida em 2024. O caminho mais lógico é defender os quatro assentos contestados que já detêm — Geórgia, New Hampshire, Michigan e Minnesota — e conquistar outros quatro hoje nas mãos dos republicanos. Pela ordem de dificuldade, Carolina do Norte, Maine, Iowa e Alasca, com Texas e Flórida como possibilidades mais remotas. E a pouco menos de quatro meses de os americanos irem às urnas, pesquisas mostram os democratas, impulsionados pelo recorde de impopularidade do Trump 2.0, com aprovação média de apenas 34%, bem posicionados na maioria das batalhas decisivas. Mas se os números dão razão para otimismo aos democratas, derrotar Susan Collins, especialmente vulnerável pela percepção local de sua migração à direita no Trump 2.0, não é apenas desejável, mas obrigatório. E Platner, apoiado por medalhões da esquerda, entre eles o senador Bernie Sanders, do vizinho Vermont, apesar dos escândalos, se provara um fenômeno singular. Fuzileiro naval veterano tornado catador de ostras, foi capaz de atrair tanto os jovens dos centros urbanos de Portland, Lewiston, Bangor e Augusta, quanto os trabalhadores das zonas rurais há muito descontentes com “a burocracia de Washington”, nos dois lados do tabuleiro político. Parecia a solução perfeita, inclusive para a dificuldade da oposição com o eleitorado masculino. Não era. A estrela em ascensão do movimento progressista tocou, como detalhou extensa reportagem do New York Times, uma campanha “confusa, desorganizada e condenada pela sequência lenta, mas constante, de escândalos”. Entre eles, a reprodução em redes sociais de postagens que mesclavam anti-semitismo com nacionalismo cristão, uma tatuagem com símbolo nazista, o relato à imprensa, por três ex-namoradas, sobre seu comportamento tóxico, com episódios de violência física, e por fim a acusação de estupro, feita ao site Politico. Sobre a tatuagem, Platner afirmara ter pensado se tratar “apenas de uma caveira com ossos cruzados”. Sobre o estupro, após o comando do Partido Democrata anunciar que não iria mais participar do financiamento de sua campanha, que era uma falsidade. Graham Platner em evento de sua campanha às primárias do Partido Democrata para o Senado — Foto: Gabe Souza/ NYT Trump: 'é questão de se acreditar ou não na mulher' Em coletiva no Air Force One, ao retornar da cúpula da Otan na Turquia, em prova do impacto do anTrump foi questionado sobre o fim da candidatura Platner. Ele pareceu oferecer sua solidariedade, ao afirmar que, no fim, “é uma questão de se acreditar ou não na mulher”, e “muitas pessoas dizem grandes mentiras”. No mesmo dia, a Justiça americana autorizara o pagamento de indenização de US$ 5,8 milhões (R$ 29,8 milhões) pelo presidente à escritora E.Jean Carroll por abuso sexual e difamação, em processo julgado em 2023 mas que, após apelação da defesa, pode ser apreciado pela Suprema Corte, de maioria conservadora. O montante, no entanto, não poderá ser devolvido pela decisão da jornalista de doá-lo a instituições de caridade. No Maine, os democratas têm até o próximo dia 27 para anunciar quem enfrentará Collins em novembro. Três nomes são os favoritos para substituí-lo, todos do flanco progressista. Nirav Shah é ex-diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças do estado. Shenna Bellows, secretária de Estado do Maine, é tida como política habilidosa, capaz de atrair também os moderados. E o ex-senador estadual Troy Jackson é um lenhador, também endossado por Bernie Sanders nas prévias para o governo do estado, quando fez dobradinha com Platner e chegou em terceiro. Batalha interna no Partido Democrata mira 2028 Outra possibilidade é a imposição de um nome moderado, com interferência do comando do partido na Convenção. Neste caso, alerta a esquerda, há risco de se aumentar o cisma interno, reduzir o entusiasmo dos eleitores anti-Trump e entregar o pleito de bandeja para Collins, com consequências negativas nacionais na tentativa de se conter o avanço ultraconservador do Trump 2.0. O melancólico fim da candidatura Platner se tornou peça-chave no quebra-cabeças da batalha interna do Partido Democrata, com consequências para a sucessão de Trump em 2028. Apontada como covarde no enfrentamento à atual Casa Branca, o comando da sigla reforça agora sua crítica a candidatos capazes de energizar a base nas prévias, mas que, por motivos diversos, também se mostraram vulneráveis na eleição geral. Crêem que a debacle no Maine pode afetar especialmente as prévias para o Senado no Michigan, em agosto. Lá, Abdul El-Sayd, um socialista apoiado por Bernie Sanders, percebido como muito à esquerda, lidera as pesquisas, mas pode perder terreno para a deputada federal moderada Haley Stevens. Em entrevista ao GLOBO por conta dos 250 anos da independência americana, o jornalista Fareed Zakaria, colunista do Washington Post e apresentador do “GPS” na CNN americana, afirmou na semana passada que o Partido Democrata deveria prestar mais atenção na Hungria de Péter Magyar, conservador que derrotou a extrema direita este ano ao apresentar uma plataforma de união nacional, centrista. E buscar, nas eleições de meio de mandato, opções que sejam combativas e eleitoralmente viáveis para derrotar o trumpismo. Menos por purismo ideológico e mais pela incapacidade de enfrentar o escrutínio à sua vida pessoal, Platner falhou ao tentar ser as duas coisas ao mesmo tempo.