Nos dois séculos e meio desde que os EUA se libertaram da Grã-Bretanha, não se pode dizer que os dois países tenham se distanciado muito um do outro. As duas nações são, há muito tempo, aliadas firmes. No entanto, quando o assunto é a Guerra de Independência, o público britânico não demonstra tanto interesse. — O evento não recebe aqui a atenção que merece — afirmou Tom Holland, historiador e coapresentador do popular podcast britânico “The rest is History”. — Isso acontece, em parte, porque nós perdemos. Ainda assim, vestígios da Revolução Americana podem ser encontrados por toda Londres, incluindo a sala de estar de Benjamin Franklin e um exemplar original de 1776 da Declaração de Independência. Veja como seguir os passos de alguns fundadores dos EUA e celebrar em Londres o 250º aniversário do país, comemorado no último dia 4. A ‘carta de rompimento’ O texto da Declaração de Independência foi divulgado inicialmente com a ajuda de John Dunlap, um impressor da Filadélfia que produziu 200 cópias do documento que foi apelidado pela imprensa de “carta de rompimento”. Os visitantes podem ver no Arquivo Nacional, localizado no bairro de Richmond, um exemplar original da Declaração impresso por Dunlap — uma das apenas 26 cópias sobreviventes produzidas em 4 de julho de 1776, na Filadélfia. A exposição “Revolution 250” do Arquivo Nacional, que fica em cartaz até 29 de novembro, também inclui uma carta de George Washington aceitando a rendição britânica, entre muitos outros documentos. Benjamin Franklin Foi em Londres que Benjamin Franklin, um dos mais famosos fundadores dos EUA, tornou-se um revolucionário. De 1757 a 1775, ele morou em uma casa geminada em Craven Street, perto da Trafalgar Square. Ele chegou a Londres como diplomata não oficial para resolver uma questão tributária entre o governo provincial e a família Penn — que governava a Pensilvânia —, mas logo se tornou uma figura popular na cidade. — Ele valorizava estar no coração do Império Britânico — disse Megan King, historiadora da Benjamin Franklin House, que hoje funciona como museu. — Franklin chegou como monarquista e partiu como revolucionário. Casa em estilo georgiano onde morou Benjamin Franklin: quase intacta, incluindo o piso de madeira — Foto: Jeremie Souteyrat/The New York Times/9-6-2026 A casa tem assoalhos que rangem, mas permanece praticamente intacta, incluindo as tábuas de madeira originais da sala de visitas. A 'Pequena América' De 1785 a 1788, após a Guerra da Independência, John Adams morou na Grosvenor Square, em Mayfair, uma das áreas mais sofisticadas de Londres. A casa hoje ostenta uma placa lateral em homenagem a Adams, o segundo presidente dos EUA. No bairro vizinho de Marylebone, uma placa no número 62 da Gloucester Place marca a última residência de Benedict Arnold, o traidor mais famoso dos EUA. Arnold lutou inicialmente contra os britânicos, chegando à patente de major-general. À medida que a guerra se prolongava, ele começou a passar informações aos britânicos e acabou desertando. Talvez de forma irônica, a placa o descreve como “um patriota americano”. Arnold morou nesse endereço de 1796 até sua morte, em 1801. Uma cidade dividida A guerra gerou divisões na Londres do século XVIII, como explica Jerry White, historiador britânico. Os comerciantes da época queriam evitar a guerra a todo custo, disse ele: — Foi um momento muito perturbador para o comércio de Londres. E Londres era uma cidade comercial. Muitos locais representativos do comércio de Londres ainda existem hoje. A Fortnum & Mason, loja de departamentos sofisticada especializada em chás, porcelanas e alimentos — e uma favorita tanto de turistas quanto de moradores — foi inaugurada em 1707. Estátua de William Pitt, o Velho, na Abadia de Westminster — Foto: Jeremie Souteyrat/The New York Times/9-6-2026 Entre outros opositores da guerra estava William Pitt, o Velho, estadista que serviu como primeiro-ministro. Ele propôs, em 1775, uma medida na Câmara dos Lordes destinada a promover a reconciliação entre a Grã-Bretanha e as colônias. Ele estava convencido de que uma vitória militar britânica na América era impossível. (Curiosidade: a cidade de Pittsburgh, nos EUA, recebeu esse nome em sua homenagem.) Hoje, os visitantes podem ver a efígie de William Pitt, o Velho, na Abadia de Westminster, onde ele foi sepultado e homenageado com um monumento de mármore branco de quase dez metros de altura. Os ingressos para visitar a abadia custam 27,13 libras (R$ 186). O coração da vida política O Parlamento britânico era o verdadeiro centro de poder na época da Revolução Americana. — Não é apenas uma câmara de debates — disse Stephen Conway, historiador especializado na Grã-Bretanha do século XVIII. — É o órgão que, mais do que qualquer outro, aliena os americanos devido à sua própria convicção de que tem autoridade para legislar sobre eles e tributá-los. A Capela de Santo Estêvão (St. Stephen’s Chapel), de origem medieval, serviu como espaço para debates da Câmara dos Comuns a partir de 1548. Após um incêndio destruir a capela em 1834, o que restou do local se tornou o St. Stephen’s Hall, que hoje serve como entrada pública para o Parlamento. Se você já estiver na região, passe pela Downing Street 10, local da residência oficial do primeiro-ministro britânico desde 1735 e que, atualmente, aguarda seu novo ocupante. Middle Temple No século XVIII, muitos jovens americanos iam a Londres para estudar Direito nas Inns of Court — instituições que educam advogados e funcionam também como associações profissionais. Diferentemente de hoje, no século XVIII não havia exigências acadêmicas rigorosas para ser admitido na ordem dos advogados, disse Barnaby Bryan, arquivista e chefe de coleções do Middle Temple, uma das Inns of Court. A admissão baseava-se em contatos e no número de jantares de que o estudante participava no salão de refeições principal. Um dos locais-chave dentro do complexo — um oásis de tranquilidade acadêmica e chão de paralelepípedos bem no centro de Londres — é o Middle Temple Hall. Os visitantes podem agendar uma visita guiada e almoçar no salão. Na década de 1770, no Middle Temple — um local que, por natureza, propiciava debates —, “havia um apoio considerável aos colonos americanos”, disse Bryan: — Era um foco de interesse sobre atividades relacionadas às colônias. O Rei George III Antes de endurecer sua postura em relação aos colonos e declará-los rebeldes, o rei George III desempenhava o papel de um monarca constitucional. Inicialmente, ele até surgiu como uma força moderadora, disse Conway, “pedindo cautela e evitando conflitos e um confronto direto com as colônias”. A principal corte real de George em Londres ficava no Palácio de St. James, um edifício de tijolos em estilo Tudor próximo ao Palácio de Buckingham e à Abadia de Westminster, no Centro de Londres. A entrada no palácio só é permitida em datas específicas. Foi lá que, em 23 de agosto de 1775, ele assinou a Proclamação para a Supressão da Rebelião e da Sedição, o documento que declarava que as colônias estavam em estado de rebelião.
Circuito mostra como Londres preserva endereços que ajudam a compreender os 250 anos da independência dos EUA
Atrações vão de sala de estar de Benjamin Franklin a um exemplar original de 1776 da Declaração de Independência















