Novo livro sustenta que Trump está subvertendo as regras do jogo, desprezando os mecanismos de controle e concentrando autoridade na Presidência 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Trump divulga 'UFC Freedom 250', que celebrará a independência dos EUA na Casa Branca — Foto: Kent Nishimura/AFP Quem já andava e falava em 1989 foi testemunha de um terremoto político: a queda do Muro de Berlim marcou o início do fim da União Soviética, que até então parecia uma realidade lavrada em pedra. É difícil explicar hoje o impacto disso num mundo que já se acostumou a ver impérios e certezas desmoronarem (“colapsarem”, como se diz atualmente; argh!) em tempo real. Naquele ano, contudo, a História, com H maiúsculo, saiu dos livros e invadiu a sala de estar. Para uma vida só, já seria bastante ter assistido a isso. Mas nós, que estávamos vivos naquela época e continuamos vivos até hoje, estamos vendo um outro império entrar em declínio diante dos nossos olhos. Era comum naquela época, e ainda é hoje, falar em “mudança de regime”, a expressão usada quando uma ditadura cai e um sistema político inteiro é substituído. Foi assim em Portugal, na Romênia, na África do Sul; foi assim também no Brasil, com a redemocratização. Ninguém jamais pensou em usar a expressão “mudança de regime” em relação a democracias aparentemente consolidadas. Ela é reservada a autocracias como Myanmar, Eritreia, Irã, Coreia do Norte — nunca à Dinamarca, à Inglaterra ou à Suíça. Até outro dia, os Estados Unidos também estavam nesse time. Constituição. Primeira Emenda. Eleições confiáveis. Instituições sólidas. Mas Maggie Haberman e Jonathan Swan, jornalistas do New York Times, acreditam que é justamente isso que está acontecendo desde a posse de Trump: uma mudança de regime. Este é o título do livro que publicaram há uma semana e que esgotou uma edição inteira assim que chegou às livrarias: “Regime change”. Os dois cobrem a Casa Branca e entrevistaram cerca de mil pessoas, Trump incluído, para mostrar os bastidores do que definem como uma presidência imperial. (E a capa é um espetáculo: só letras pretas sobre um fundo dourado metálico; adoro uma capa inteligente.) Haberman e Swan sustentam que Trump não está apenas imprimindo um novo rumo ao governo nem promovendo a habitual alternância de poder entre os partidos. O que ele vem fazendo é subverter as regras do jogo, desprezar os mecanismos de controle e concentrar autoridade na Presidência, governando com um círculo cada vez mais restrito de auxiliares. Foi assim que aumentou tarifas e sacudiu as finanças mundiais. Foi assim que ordenou a captura de Maduro, bombardeou o Irã e viu sua família ganhar mais de um bilhão de dólares em tempo recorde. Foi assim também que mandou cimentar o Jardim de Rosas de Jackie Kennedy e demolir parte da Casa Branca para construir um salão de baile. Os EUA parecem assistir a essa transformação numa espécie de apatia difícil de compreender para quem está de fora. Dentro do governo, a dissidência praticamente desapareceu; o Partido Republicano derreteu. Onde antes se esperava lealdade às instituições, Trump exige (e obtém) subserviência pessoal, como qualquer tirano de anedota. Ele se vangloria de ser descrito como o homem mais poderoso que já pisou a Terra, na companhia de Gengis Khan, Átila, Napoleão, Hitler, Stalin e Mao. O mandato vai apenas pela metade; Maggie Haberman e Jonathan Swan temem que a outra metade não acabe nunca. A falta de vergonha na cara é o superpoder que o sustenta.
Mudança de regime
Novo livro sustenta que Trump está subvertendo as regras do jogo, desprezando os mecanismos de controle e concentrando autoridade na Presidência









