Destaque na seleção africana, o meia Ayyoub Bouaddi, como outros cinco companheiros de time, nasceu no país europeu,mas escolheu representar o local de origem de seus ascendentes 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ayyoub Bouaddi em aquecimento no jogo do Marrocos na Copa do Mundo — Foto: Alex Slitz/Getty Images/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/07/2026 - 21:45 Jogador nascido na França escolhe representar Marrocos na Copa O artigo destaca Ayyoub Bouaddi, jovem jogador nascido na França, mas de ascendência marroquina, que optou por representar Marrocos na Copa do Mundo. Tal escolha reflete um orgulho das raízes e ecoa a história colonial entre França e Marrocos. A França abriga uma significativa diáspora marroquina, que influencia tanto o futebol quanto a sociedade, evidenciando um complexo entrelaçamento cultural e histórico. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Por Carlos Massari e Aurélio Araújo O meia Ayyoub Bouaddi tem 18 anos. Nasceu em uma pequena cidade no norte da França e tem ascendência marroquina. Começou cedo a brilhar com a camisa do Lille, terceiro colocado da liga francesa na última temporada, tornando-se presença indiscutível na equipe. Como um jovem que nasceu e cresceu na França, Bouaddi jogou na seleção francesa nas categorias de base, do sub-16 ao sub-21. Mas daí veio o chamado: Marrocos o queria para a Copa do Mundo. O orgulho de suas raízes marroquinas fez com que Bouaddi aceitasse o convite. Trata-se de um jogador talentoso, que hoje ainda não teria vaga na seleção francesa, mas poderia ter num futuro não tão distante. Mas essa questão já não era mais importante, já que jogar por Marrocos também era um sonho. Passado colonial Marrocos é uma nação antiga, repleta de história: foi a única do norte da África a não ser incorporada ao Império Otomano. Não teve como, porém, resistir ao assédio europeu durante a era do neocolonialismo, no início do século XX. Em um acordo secreto, acabou particionado entre França (que ficou com a maior parte) e Espanha, potências europeias que estabeleceram protetorados em seu território. Oficialmente, foram 44 anos de colonização, entre 1912 e 1956. Apesar de Marrocos não ter precisado de uma guerra de independência tão violenta quanto a vizinha Argélia, houve tensão e sangue derramado no processo. A França, é claro, deixou marcas no Marrocos. O idioma francês ainda é falado por cerca de 35% dos marroquinos, e há herança nos sistemas judiciário e educacional, na cultura e na economia. Com esse legado, a migração de marroquinos à antiga metrópole foi uma consequência natural. Uma comunidade Estimativas indicam que a França abriga hoje mais de 1,5 milhão de marroquinos ou pessoas de origem marroquina, a maior diáspora do país norte-africano no planeta. A busca por uma vida melhor na Europa a partir da independência, em 1956, motivou essa explosão populacional. Em periferias e zonas mais empobrecidas do país europeu, os marroquinos fincaram raízes e mantiveram uma unidade. Seus filhos e netos, que já nasceram na Europa, ainda podem gozar de um grande senso de pertencimento. O futebol demorou para pegar como esporte favorito dos franceses, e não à toa o país demorou tanto para vencer uma Copa do Mundo. Quando o fez, em casa, em 1998, entrou de vez para o hall dos grandes do futebol. E a França deve muito da sua mudança de patamar aos imigrantes, que espalharam a febre de bola pela sua nova casa. O artilheiro Na década de 1950, um francês nascido no Marrocos marcou o recorde de gols em uma única edição do torneio. Just Fontaine anotou 13 vezes na Suécia, em 1958. Mas ele era o outro lado da narrativa: apesar de nascido em Marrakech, era filho de europeus. Seu pai era um dos vários funcionários públicos que a França havia enviado à colônia para atuar na administração local. Sua história era diferente dos marroquinos, afastados à força dos clubes esportivos criados no Marrocos, exclusivos para divertimento de europeus e de seus filhos. O Wydad, um dos grandes times do Marrocos, foi fundado em Casablanca em 1937 para que os marroquinos pudessem enfim ter um clube próprio. Não é exagero dizer que, como em outros países do norte africano, o futebol teve um papel de afirmação de uma identidade nacional local do Marrocos, diferente dos colonizadores franceses e espanhóis. Mas é preciso ser justo com Fontaine. Embora identificado com a França na carreira de jogador, ele manteve uma conexão com Marrocos como treinador, comandando a seleção entre 1979 e 1981. Depois, participou da campanha fracassada para que o país recebesse a Copa do Mundo de 2006. Reivindicando a diáspora Depois de chegar às semifinais da Copa duas vezes, em 1982 e 1986, a França sequer se classificou para os dois Mundiais seguintes. Voltou em 1998, ao disputá-lo em casa, com uma seleção rejeitada por parte do país justamente por apresentar uma nova faceta do país, com negros e norte-africanos. Zinedine Zidane, filho de argelinos nascido em Marselha, era a estrela maior da companhia. A década de 1990 foi marcada também pela extinção do passe, o que revolucionou o mercado de transferências do futebol, e pela introdução do euro, uma moeda comum europeia. Isso fez com que o continente se tornasse o epicentro do futebol mundial como nunca antes, acumulando craques, técnicos e os melhores profissionais possíveis. O Marrocos, apaixonado por futebol, foi um dos primeiros países a entender que era possível se beneficiar disso, mesmo não sendo europeu: filhos e netos da diáspora podem representar sua camisa, pelas regras da FIFA. Por que não convencê-los de que Marrocos é uma alternativa mais viável que a França? Além de Bouaddi, há outros cinco atletas nascidos em solo francês no elenco marroquino atual, um eco curioso e invertido da história de Fontaine em 1958. Nas entrevistas, todos falam orgulhosos de se sentirem pertencentes ao Marrocos. Os mais céticos vão falar que se trata apenas de uma escolha melhor para suas carreiras, mas a identidade das diásporas é também formada pelas memórias que atravessam gerações das famílias que se deslocam de uma parte a outra. O projeto Copa Além da Copa traz ao GLOBO textos que relacionam política, cultura, história, arte e sociedade com o futebol
Copa Além da Copa: Chamado do Marrocos ecoa em solo francês
Destaque na seleção africana, o meia Ayyoub Bouaddi, como outros cinco companheiros de time, nasceu no país europeu,mas escolheu representar o local de origem de seus ascendentes










