As consequências de um ano e meio de protecionismo foram adversas aos Estados Unidos, como se previa Trump ao lado do secretário de Comércio, Howard Lutnick, ao anunciar as tarifas recíprocas em abril de 2025 — Foto: Carlos Barria/Reuters O comércio mundial driblou as tarifas do presidente Donald Trump, que está novamente empenhado em aumentá-las. Estatísticas oficiais divulgadas ontem — no mesmo dia da última audiência pública antes de o Representante Comercial decidir se aplicará mais 25% de sobretaxas sobre US$ 14,9 bilhões de vendas brasileiras ao país — mostraram que a receita protecionista dos EUA continua não dando certo. O déficit comercial americano em mercadorias aumentou para US$ 106,5 bilhões em maio. O superávit em serviços fez o resultado total da balança ser negativo em US$ 77,6 bilhões, 42,2% maior que o de abril. O governo Trump, depois que teve sua ofensiva tarifária iniciada em 2 de abril de 2025 derrubada pela Suprema Corte, estabeleceu taxas de 10% sobre as importações de quase todos os países, enquanto busca aumentá-las de forma ampla de duas maneiras. Pela seção 301 da lei de comércio de 1974, quer punir práticas e políticas consideradas lesivas às empresas americanas, além de procurar sobretaxação adicional, de 10% a 12,5%, de 59 países (inclusive Brasil) e a União Europeia por terem falhado em coibir importações de bens que utilizam trabalho escravo. A sobrecarga brasileira seria das maiores: 25% no primeiro caso e 12,5% no segundo, em total de 37,5%. As consequências de um ano e meio de protecionismo foram adversas aos Estados Unidos, como se previa. O país consome 15% das importações mundiais, e o impacto no comércio mundial foi pequeno se comparado aos temores com o choque inicial. Os principais países atingidos redirecionaram suas vendas; vários deles, como a China fez com o Vietnã, para ter acesso indireto ao mercado americano. Outros, como o Brasil, ampliaram o esforço exportador em várias direções. Esse esforço tornou-se bem-sucedido em boa parte porque as trocas globais de mercadorias aumentaram para 5,5% nos 12 meses encerrados em julho, segundo a Oxford Economics, mesmo com o choque do petróleo. Um ator de peso permitiu isso: a inteligência artificial. Os enormes investimentos nela, em especial nos EUA, levaram os bens relacionados à IA a somar um quarto das importações totais do país, ante apenas 9% em 2024. Os países asiáticos e o México foram os principais beneficiários da demanda americana. As importações de bens de capital pelo mercado americano, que incluem computadores, semicondutores e outros componentes, cresceram 42% em 12 meses até maio. China e países asiáticos foram responsáveis por 80% do crescimento do comércio desses itens. A balança comercial de maio dos EUA ilustra essa dependência de importações. Houve déficit de US$ 20,6 bilhões com o Vietnã, US$ 20 bilhões com o México, US$ 19,4 bilhões com Taiwan e até mesmo com a China (US$ 14,5 bilhões). A primeira onda de tarifas elevou os preços, que foram inflados na sequência pelo choque de petróleo motivado pelos ataques dos EUA e de Israel ao Irã. A inflação subiu bastante, quase tanto quanto caiu a aprovação de Trump nas pesquisas — 36%, segundo a Reuters-Ipsos. O índice de preços ao consumidor (CPI) fechou maio em 4,2% anuais, pouco acima dos 4,1% dos gastos pessoais de consumo, e dos 3,4% do núcleo desses gastos, a medida predileta do Federal Reserve. Os índices estão bem acima dos 2% da meta de inflação, e os investidores temem agora que o Fed irá em algum momento elevar os juros, o contrário do que Trump desejaria que ocorresse quando escolheu o novo presidente do banco, Kevin Warsh. O saldo da balança comercial brasileira, por seu lado, sobe a cada nova estimativa. No ano, até a primeira semana de julho, chegou a US$ 44,6 bilhões, ante US$ 37,1 bilhões no mesmo período de 2025. Segundo a Câmara Americana de Comércio, as vendas dos itens tarifados em 10% pelos EUA recuaram 25,9%, e as dos incluídos na seção 232, como semiacabados de ferro, madeira, caminhões e cobre, caíram 6,7%. Mas o Brasil elevou exportações em 21,9% para a China e em 12,8% para a UE. Nas audiências de anteontem e ontem nos EUA para discutir a taxação, empresários brasileiros e americanos (Coca-Cola, Tesla e e-Bay) foram didáticos ao mostrar que as tarifas são prejudiciais aos consumidores americanos. Primeiro, porque 62% das importações vindas do Brasil são de bens intermediários para produção doméstica, segundo a Confederação Nacional da Indústria, e a taxação encarecerá os produtos finais significativamente, elevará a inflação e reduzirá a competitividade das empresas americanas. O maior argumento contra a punição foi ignorado pelos EUA, o de que o Brasil tem déficit comercial e de serviços com o país e que a tarifa média incidente sobre bens americanos é de apenas 2,6%. O governo brasileiro e as empresas têm razão em qualificar a ameaça de tarifação de 37,5% de injusta, arbitrária e nociva aos dois países. O Planalto escolheu acertadamente a via da negociação, não da retaliação, e colocou sobre a mesa proposta para negociação em fases com redução de alíquotas brasileiras para bens de setores em que os EUA dominam o mercado. Trump tende, assim mesmo, a punir o Brasil. O veredito do USTR, a ser dado em 15 de julho, não o obriga a aplicar as tarifas e, muito menos, imediatamente. Se a janela das negociações se reabrir, há chances de o Brasil aliviar a supertaxação.