Relatório do Crisis Group aponta que crianças e menores são mais de 40% das vítimas da disputa iniciada após captura de El Mayo, enquanto governo Sheinbaum tenta conter violência e responder a Washington 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Forças mexicanas protegem uma área em Culiacán, Sinaloa, México, em 19 de fevereiro de 2025 — Foto: Daniele Volpe / The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 06/07/2026 - 18:26 Conflito no Cartel de Sinaloa: Jovens são 40% das Vítimas A guerra entre facções do Cartel de Sinaloa, intensificada após a captura de El Mayo, tem afetado desproporcionalmente jovens, que representam mais de 40% das vítimas. O governo mexicano enfrenta pressões dos EUA para controlar o narcotráfico sem permitir intervenção externa. A violência não só perpetua o tráfico de fentanil, mas também impacta a economia e a segurança, destacando a necessidade de estratégias mais eficazes. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quase dois anos após a captura de Ismael Zambada — conhecido como "El Mayo" — nos Estados Unidos, a guerra entre facções do Cartel de Sinaloa, no México, tem atingido de forma desproporcional crianças, adolescentes e jovens adultos, que representam mais de 40% das vítimas do conflito. Apesar da redução dos confrontos armados mais visíveis na capital do estado, homicídios e desaparecimentos permanecem elevados em áreas rurais, enquanto o tráfico de drogas segue operando sem grandes impactos. Em um contexto de crescente pressão de Washington para combater o narcotráfico, uma pesquisa do International Crisis Group (ICG) aponta que o governo da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, enfrenta o desafio de conter a violência sem abrir espaço para uma intervenção americana, ao mesmo tempo em que tenta enfraquecer as estruturas que sustentam os cartéis. O relatório "A guerra dos herdeiros em Sinaloa: o combate ao crime no México sob pressão dos EUA" analisa como a desarticulação da liderança de um poderoso grupo criminoso reconfigurou o cenário do narcotráfico no México, incluindo o impacto sobre a população. Além disso, o estudo avalia os avanços e limitações da estratégia de segurança do país. Escalada de violência Em 25 de julho de 2024, Zambada foi levado aos EUA após ser entregue por um dos filhos de seu antigo aliado, Joaquín Guzmán Loera, o "El Chapo". O episódio desencadeou uma disputa pelo controle do Cartel de Sinaloa entre Los Mayos e Los Chapitos, grupos que já tinham tensões antigas, mergulhando o estado em uma nova fase de violência. Em setembro de 2024, integrantes dos Mayos iniciaram uma ofensiva contra rivais ligados aos Chapitos, desencadeando confrontos que deixaram milhares de mortos, desaparecidos e deslocados. Segundo o relatório, a batalha pelo controle de Culiacán, principal base de operações do cartel, transformou a cidade em um dos principais focos da violência. Embora o envio de forças federais tenha reduzido os confrontos mais visíveis na capital, os combates migraram para áreas rurais. A guerra também alterou o equilíbrio interno da organização, com avanços territoriais dos Mayos sobre os Chapitos e a ascensão de uma terceira facção liderada por Fausto Isidro Meza Flores, o "El Chapo Isidro". De acordo com o Crisis Group, os grupos criminosos passaram a empregar métodos cada vez mais brutais para intimidar rivais e demonstrar poder. Corpos mutilados foram abandonados em vias públicas, enquanto drones adaptados para lançar explosivos passaram a ser utilizados com frequência nos confrontos. Entre setembro de 2024 e novembro de 2025, ao menos 31 ataques com drones foram registrados em Sinaloa. — Nesta guerra, o bando não esconde (os corpos); eles empilham os cadáveres, descartam-nos nas ruas e os exibem como troféus — diz uma mulher, ouvida pelo ICG, que procura pelo filho. Impacto sobre os mais jovens A disputa entre as facções mergulhou Sinaloa em um dos períodos mais violentos de sua história recente. Segundo o relatório, dados oficiais registraram cerca de 2.600 homicídios no estado entre setembro de 2024 e março de 2026, embora o número real possa ser maior. O levantamento também aponta um aumento dos desaparecimentos, com estimativas que variam de 1.700 registros oficiais a mais de 3.800 casos, incluindo 134 mulheres, contabilizados pela imprensa local no período. Em Culiacán, a guerra levou à suspensão de aulas, ao fechamento de empresas e afetou a economia local, com perda de empregos, retração do turismo e paralisação de empreendimentos imobiliários. Um dos principais alertas do relatório é sobre o impacto da violência em crianças, adolescentes e jovens adultos. Segundo o levantamento, pelo menos 55 menores e quase 450 jovens entre 18 e 28 anos morreram nos primeiros dez meses do conflito, representando mais de 40% das vítimas de homicídio registradas oficialmente no período. Os desaparecimentos também passaram a atingir os mais jovens. Antes da captura de Zambada, grande parte das vítimas tinha entre 35 e 40 anos, mas desde o início da guerra entre as facções, metade dos desaparecidos tem menos de 28 anos. — Nesta onda de violência em Sinaloa, morreram e desapareceram mais crianças, adolescentes e jovens do que em toda a década anterior — destaca David Mora, analista sênior do Crisis Group para o México. O fenômeno está ligado ao recrutamento de jovens para funções de base do crime organizado, como vigilância, transporte de drogas e atividades armadas. Com a intensificação dos confrontos, muitos deles passaram a ser utilizados nas linhas de frente da disputa entre facções. Fentanil segue circulando Localizado no noroeste do México, Sinaloa é considerado um dos principais centros de produção de fentanil, opioide sintético altamente viciante associado à morte de cerca de 500 mil pessoas nos EUA desde 2015. Impulsionada pela facção Los Chapitos, a produção da substância transformou-se, na última década, na principal fonte de renda do cartel. Mais de metade do fentanil apreendido pelas autoridades mexicanas entre 2021 e 2024 teve origem em laboratórios instalados em Sinaloa. Sob pressão do presidente americano, Donald Trump, o governo mexicano ampliou operações contra laboratórios clandestinos e o tráfico de precursores químicos usados na fabricação da droga. Ainda assim, segundo o relatório, não houve mudanças significativas na oferta, nos preços ou na disponibilidade do fentanil nos mercados mexicano e americano. Agentes da polícia isolam o perímetro de um laboratório clandestino de fentanil que o Cartel de Sinaloa era suspeito de operar em 2024 em Lomas del Valle, México — Foto: Meridith Kohut / The New York Times — As autoridades mexicanas ainda estão longe de expulsar os grupos criminosos de Sinaloa das áreas que controlam, cortar suas fontes de renda ou desmantelar as estruturas financeiras e políticas que sustentaram o cartel — ressalta Mora. Pressão americana Desde o retorno de Trump à Casa Branca, Washington tem intensificado as cobranças para que o México amplie o combate ao narcotráfico, especialmente ao fluxo de fentanil pela fronteira. Além de ameaçar impor tarifas comerciais, Trump e integrantes de seu governo passaram a defender publicamente a possibilidade de ações militares contra cartéis mexicanos. Em uma entrevista em janeiro deste ano, o presidente americano afirmou que seu governo passaria a "atacar por terra" os cartéis, alegando que essas organizações estariam "comandando o México". Em fevereiro de 2025, os EUA classificaram o Cartel de Sinaloa como Organização Terrorista Estrangeira. Meses depois, o Departamento de Justiça americano apresentou acusações contra dez autoridades e agentes de segurança do estado por suposta colaboração com grupos criminosos. Sheinbaum contestou a consistência das provas e classificou as acusações como uma questão relacionada à soberania mexicana, embora tenha afirmado que não pretende proteger eventuais políticos envolvidos com o crime organizado. Ao mesmo tempo, a presidente buscou atender parte das demandas americanas. Seu governo ampliou operações de segurança, destruiu laboratórios clandestinos, acelerou a transferência de traficantes para a custódia dos EUA e ampliou o compartilhamento de inteligência. Ainda assim, segundo o Crisis Group, os resultados permanecem limitados. Para a organização, a estratégia de Sheinbaum continua centrada em operações militares e na captura de lideranças criminosas, sem atingir as redes políticas e financeiras que sustentam os cartéis. O relatório defende o avanço de investigações contra autoridades e empresários ligados ao crime organizado e avalia que uma eventual intervenção americana teria pouco impacto sobre essas estruturas. — Uma intervenção militar dos EUA contribuiria muito pouco para enfraquecer as redes que sustentam o crime organizado e teria graves consequências para a estabilidade do país e para as relações bilaterais — explica Mora. — Para conter a violência em Sinaloa e em outros estados, o México precisa fortalecer a produção de inteligência e a responsabilização judicial daqueles que colaboram com grupos ilegais, prevenir o recrutamento criminoso e proteger as vítimas.