A aplicação de 10% de Imposto de Renda sobre os dividendos, que começou neste ano, levou à redução dos valores pagos pelas empresas da bolsa aos acionistas. As companhias distribuíram R$ 127 bilhões em dividendos e juros sobre o capital próprio (JCP) no primeiro semestre de 2026, um volume 28% menor em comparação ao mesmo período de 2025, segundo um levantamento da fintech Meu Dividendo. Porém, os estrategistas de ações ainda consideram as empresas generosas e recomendam principalmente os papéis das boas distribuidoras de dividendos para investir neste momento, em que a perspectiva é de juros e inflação altos por mais tempo desde que começou a guerra no Irã. Essas ações são consideradas defensivas, porque as empresas geralmente são de maior qualidade e os seus resultados crescem acima da média. A taxação sobre os proventos levou a uma corrida por anúncios de distribuição de dividendos no fim de 2025, antes que a aplicação do imposto de renda entrasse em vigor. Assim, a queda neste ano era esperada, porque muitas companhias pegaram as reservas de caixa para adiantar a distribuição e, neste momento, estão recompondo os valores. Além disso, as incertezas após o começo da guerra e o receio de uma piora da economia aumentaram a cautela na distribuição de dividendos. As expectativas para a Selic, a taxa de referência para os juros da economia, no fim deste ano aumentaram da casa dos 12% para a dos 14% desde o início da guerra, segundo o Relatório Focus do Banco Central. A taxa de juros está em 14,25% ao ano atualmente. A aplicação de Imposto de Renda sobre os dividendos mudou também a forma como os montantes são repassados aos acionistas. A fatia de juros sobre o capital próprio representou 54% do total de proventos pagos aos investidores no primeiro semestre. Esse é o maior valor da série histórica acompanhada pela fintech Meu Dividendo, que começou em 2020. Apesar de também ser tributado em 17,5%, o JCP pode ser usado pelas empresas na dedução da base de cálculo do pagamento de Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre Lucro líquido (CSLL). Assim, algumas companhias preferem pagar dessa forma, mais eficiente do ponto de vista tributário. “A tendência é esse movimento continuar. Contudo, o investidor não precisa se preocupar. Ao usar os juros sobre o capital próprio para deduzir a base de cálculo do pagamento de imposto, a companhia consegue melhorar os resultados e isso acaba repercutindo na valorização da ação”, afirma Wendell Finotti, fundador da Meu Dividendo, que atua com antecipação de pagamentos de proventos. A empresa que mais pagou proventos ao todo nos primeiros seis meses do ano foi a Petrobras (R$ 34,1 bilhões), seguida da Vale (R$ 32,5 bilhões) e do Itaú (R$ 8,5 bilhões), conforme o levantamento. Com a ajuda da Vale, o setor de materiais básicos liderou os pagamentos pela primeira vez (R$ 36 bilhões) e superou os setores de petróleo, gás e biocombustível (R$ 35,4 bilhões) e financeiro (R$ 22,4 bilhões). O cenário de dividendos menores no primeiro semestre não deve ser motivo de preocupação para os investidores, na análise de Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora, que acompanha os discursos das empresas de perto. “As companhias não estão falando que vão pagar menos dividendos. Não haverá crescimento dos dividendos pagos apenas, mas a frequência de distribuição deve normalizar um pouco”, afirma. “Do ponto de vista da pessoa física, dá para ficar tranquilo. Apesar do aumento das expectativas para os juros, os resultados do segundo trimestre vieram próximos do esperado e as empresas aumentam o preço do produto final para conseguir compensar o frete mais caro e os juros maiores”, diz. Conforme Peretti, os juros altos afetam especialmente os negócios mais dependentes da economia local e os mais endividados. As companhias boas distribuidoras de dividendos navegam melhor nesse ambiente. “Essas empresas historicamente performam melhor que o Ibovespa no longo prazo. São mais defensivas, geram um fluxo de caixa mais previsível, são menos voláteis e trazem menos susto para o investidor”, afirma. As suas empresas favoritas neste momento são principalmente de três setores, mais blindados contra a inflação e os juros altos: commodities, com dívidas em dólar e não influenciadas pela Selic, como Petrobras e Vale; energia elétrica, que reajusta as tarifas pela inflação e está mais protegido em ambientes de inflação maior, como Axia Energia e Copel; e telecomunicações, que também repassa a inflação para o consumidor, como a Telefônica Brasil. Na avaliação de Régis Chinchila, analista-chefe de investimentos da Terra Investimentos, o investidor deve esperar uma normalização dos pagamentos dos proventos. Contudo, ele espera uma participação menor dos dividendos extraordinários e uma participação maior das distribuições de dividendos mais sustentáveis. “Mesmo em um cenário de inflação mais persistente e juros elevados, as ações das boas distribuidoras de dividendos seguem tendo um papel importante na carteira. As companhias maduras, com maior geração de caixa e previsibilidade das receitas, costumam apresentar maior resiliência nos momentos de juros altos, além de oferecerem uma remuneração recorrente aos acionistas”, afirma. Contudo, ele alerta que o investidor não pode olhar apenas o chamado “dividend yield”, que são os ganhos sob a forma de dividendos, para comprar as ações. “Em um ambiente de juros maiores, é mais importante ainda avaliar a capacidade futura de geração de caixa, o endividamento e a previsibilidade dos resultados da empresa. Dividendos elevados obtidos às custas de deterioração operacional tendem a não se sustentar”, diz. De acordo com Chinchila, os bancos, as companhias de commodities, as prestadoras de serviços essenciais como energia e as seguradoras são as principais candidatas a manter os pagamentos recorrentes no restante deste ano. As suas empresas favoritas para investir neste momento são BB Seguridade, Caixa Seguridade, Cemig, Copel, Itaúsa, Petrobras e Vale. Pedro Galdi, analista da plataforma de investimentos e cursos AGF, afirma que enxerga uma normalização dos dividendos neste ano e não uma diminuição, já que as empresas apenas ampliaram a distribuição em 2025 para evitar a nova taxação. “A estratégia continua sendo eficiente para horizontes de médio e longo prazo. Independentemente da inflação e dos juros, manter o processo de reinvestimento dos dividendos faz a operação ser vencedora. O importante é escolher as ações corretas”, diz. As ações de bancos e empresas de energia, saneamento, seguros e telecomunicações são as suas preferidas, especialmente BB Seguridade, Bradesco, Cemig e Santander. “São setores perenes, que suportam qualquer crise com crescente lucratividade. Já os outros setores sofrem por outros fatores, como o de commodities, por exemplo, sujeito ao ciclo de preços e à variação cambial”, afirma.