Mortalidade materna cresceu mais de um terço na Ucrânia em meio à guerra contra a Rússia, segundo dados compilados pela Organização Mundial da Saúde 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Iryna Kostiuchenko, uma paramédica, cumprimenta Denys, seu filho, após dar à luz em um abrigo subterrâneo transformado em maternidade em Sumy, na Ucrânia — Foto: Lynsey Addario/NYT RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/07/2026 - 17:49 Impacto Devastador da Guerra na Ucrânia sobre Grávidas e Partos A guerra na Ucrânia trouxe um fardo pesado para mulheres grávidas, com estresse e medo impactando gravidezes e partos. A mortalidade materna aumentou em mais de um terço, e o número de nascimentos caiu drasticamente. Estruturas médicas foram destruídas, e partos ocorrem em condições precárias, muitas vezes em subsolos. O estresse contribui para abortos espontâneos e partos prematuros, enquanto mulheres no front enfrentam desafios adicionais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Nos primeiros dias aterrorizantes da invasão russa em grande escala, Inna Slavhorodska fugiu de sua casa no leste da Ucrânia e conseguiu chegar à Alemanha, a quilômetros de distância das bombas e dos tiros. Slavhorodska, de 38 anos, estava grávida na época. Após a fuga, sofreu um aborto espontâneo aos cinco meses de gestação, perdendo o bebê. Os combates continuavam intensos. Slavhorodska ainda queria ter um filho, embora estivesse convencida de que o estresse da guerra já a havia feito perder um. Ela voltou para casa, na cidade de Kharkiv, onde as Forças Armadas ucranianas haviam repelido as forças russas no final de 2022, e engravidou novamente. Em janeiro, deu à luz um bebê saudável por meio de uma cesariana. No dia seguinte, drones russos atingiram o hospital onde ela se recuperava, causando danos, mas deixando Slavhorodska e seu recém-nascido ilesos. — Foi muito assustador — disse. — Muito mesmo. A guerra, que começou em fevereiro de 2022, vem causando um sofrimento extra às mulheres grávidas devido ao medo e ao estresse provocados por bombardeios, deslocamentos, ocupação e apagões. A mortalidade materna na Ucrânia aumentou em mais de um terço entre 2023 e 2024, os anos mais recentes com estatísticas disponíveis, segundo dados compilados pela Organização Mundial da Saúde e parceiros, e citados pelas Nações Unidas. A ONU atribuiu o aumento a ataques a instalações de saúde, estresse e deslocamento, conclusão corroborada por entrevistas realizadas pelo New York Times com mais de 40 mulheres e mais de uma dezena de médicos ucranianos. Bebê recém-nascido em hospital de Kharkiv, Ucrânia — Foto: Lynsey Addario/NYT O número de crianças nascidas na Ucrânia também tem diminuído a cada ano desde o início da guerra. Mais de 168 mil crianças nasceram no país no ano passado, contra quase 274 mil em 2021, segundo estatísticas do Ministério da Justiça. Os dados não incluem a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, nem os territórios ocupados por Moscou. A queda se deve em parte ao fato de que nascimentos de ucranianas refugiadas na Europa não vêm sendo registrados na Ucrânia, dizem especialistas. Algumas mulheres também adiaram seus planos de ter filhos porque seus maridos estão no Exército. Mas médicos afirmam que o estresse causado pela guerra também contribuiu para a queda, pois tornou a gravidez e o parto muito mais difíceis. Em dezembro, mais de 80 hospitais de maternidade e de cuidados neonatais na Ucrânia haviam sido danificados ou destruídos, de acordo com estatísticas da ONU. Algumas cidades não têm mais alas de maternidade. Muitos hospitais transferiram salas de cirurgia e leitos para porões e milhares de partos agora acontecem no subsolo. As Nações Unidas ajudaram unidades próximas à linha de frente a construir abrigos antibombas equipadas como salas de parto. Em janeiro, quando alertas aéreos avisaram sobre a aproximação de mísseis ou drones na cidade de Dnipro, mulheres na maternidade levaram seus recém-nascidos para o corredor, longe das janelas que poderiam se estilhaçar. Assustadas e fisicamente debilitadas tão pouco tempo depois do parto, elas não sabiam se deviam ficar ali ou ir para um abrigo. Em Kharkiv, Anastasia Lotkova, de 25 anos, recorreu a um ritual para ajudá-la a ignorar as explosões durante a gravidez: sentar-se no banheiro, cobrir-se com um cobertor, tapar os ouvidos e gritar com toda a força dos pulmões. — Só para não ter que ouvir esses sons — disse. Slavhorodska segura Anastasia, que tinha apenas alguns dias de vida, enquanto se recuperava da cesariana — Foto: Lynsey Addario/NYT Os ataques russos a usinas de energia causaram frequentes cortes de eletricidade e aquecimento na região de Kharkiv neste inverno, obrigando Lotkova a usar várias camadas de roupa, já que a temperatura em seu apartamento chegou a 8 graus Celsius. As condições também são difíceis para as mulheres grávidas no Exército ucraniano, onde servem cerca de 70 mil mulheres. Os uniformes não acomodam uma barriga grande. Os médicos militares não estão bem equipados para prestar cuidados pré-natais. Iryna Dolhopolova, de 31 anos, deu à luz uma filha saudável em janeiro, após servir como paramédica até o sétimo mês de gestação em alguns dos setores mais perigosos da linha de frente. Seu trabalho era evacuar soldados feridos enquanto drones sobrevoavam a área. Dolhopolova e seu marido, que se conheceram no Exército, já têm duas filhas mais velhas. — Precisamos trazer uma nova vida — disse ela sobre a decisão de terem um bebê apesar da guerra. Desde a invasão russa, muitos médicos ucranianos relatam um aumento nos partos prematuros e abortos espontâneos. Não existem estatísticas nacionais, mas alguns hospitais monitoram os dados localmente. A Organização Mundial da Saúde define prematuro como "bebês nascidos vivos antes de completarem 37 semanas de gestação". Em 2021, antes da guerra, 2,9% dos partos no Centro Clínico Perinatal da Bem-Aventurada Virgem Maria em Sumy, cidade do nordeste na linha de frente, eram prematuros. No ano passado, esse número subiu para 5,5%, segundo Yulia Kovalenko, vice-diretora do hospital. Nana Pasiieshvili, diretora do Centro Clínico Perinatal Regional de Kharkiv, afirmou que muitos partos prematuros desde o início da guerra estão "associados ao estresse, aos bombardeios, aos alertas, à insônia, à ansiedade e ao aumento da pressão arterial". Ela acrescentou que a pressão alta pode contribuir para o descolamento da placenta, o que pode levar a partos prematuros. Médicos que trabalham em Zaporíjia, uma cidade na linha de frente, disseram que os recém-nascidos tinham maior probabilidade de apresentar icterícia, baixo peso ou inflamação. As cesarianas também são mais comuns em áreas de linha de frente, onde os médicos tentam realizar os partos durante as pausas nos bombardeios, em vez de arriscar um trabalho de parto prolongado sob fogo inimigo. Em Zaporíjia, Liubov Yuferova, de 39 anos, teve gêmeos por cesariana após sua bolsa romper prematuramente. Eles nasceram com 32 semanas e foram colocados em incubadoras. Os riscos da guerra agravaram seu estresse, disse ela. Antes de dar à luz, um ataque de míssil russo matou uma gestante no mesmo hospital, segundo uma médica que afirmou ter presenciado a cena. Olena Mohiliuk, de 25 anos, sofreu um aborto espontâneo pela primeira vez em 2022, quando os russos ocuparam sua cidade natal, e novamente depois que a cidade para onde ela fugiu, a cerca de 32 quilômetros de distância, foi fortemente bombardeada. Ela engravidou novamente em Kharkiv, onde, em janeiro, os médicos realizaram uma cesariana de emergência quando ela entrou em trabalho de parto devido à fraqueza das contrações. Ela deu à luz uma filha, Sofiia, que foi diagnosticada com hipóxia e uma arritmia nos batimentos cardíacos fetais, mas sobreviveu. Mohiliuk só viu Sofiia no dia seguinte ao parto, na unidade de terapia intensiva. De pé, usando máscara cirúrgica, ao lado da filha, que estava ligada a aparelhos de suporte à vida, seus olhos se encheram de lágrimas. — Minha pequena, tudo vai ficar bem para nós — disse ela. — Você é tão forte, minha menina.
Bombas, apagões e ansiedade materna: Estresse da guerra transforma gravidez em desafio para mulheres ucranianas
Mortalidade materna cresceu mais de um terço na Ucrânia em meio à guerra contra a Rússia, segundo dados compilados pela Organização Mundial da Saúde









