A forma como o mundo vê os Estados Unidos e como o país percebe a si próprio pode ser atribuída, pelo menos em parte, a Hollywood. Desde que o cinema norte-americano existe, ele reforça as histórias que o país conta sobre si mesmo e sobre seu caráter nacional. Como a ideia de que a posição social de uma pessoa não é determinada pelo nascimento e que tudo é possível, incluindo justiça e riquezas incalculáveis, se o sujeito tiver determinação. É claro que versões mais sombrias dessa história também foram exibidas nos cinemas. Mas existe um filme definitivo sobre a os Estados Unidos? A resposta, sem dúvida, varia de acordo com a época e o entrevistado. Mas, com o país celebrando seu 250º aniversário e profundamente dividido, é um bom momento para revisitar essa questão. Então, na lista abaixo dez críticos de cinema falam quais filmes eles escolheriam para definir os Estados Unidos e por quê. As escolhas variam de grandes sucessos de bilheteria a filmes independentes, de comédias a dramas italianos enigmáticos, de um recente indicado ao Oscar de Melhor Filme a uma estreia pouco conhecida — em resumo, filmes tão variados quanto o próprio país. 'Dia D' (2026), de Steven Spielberg O mundo, como diz o vilão Colin Firth, está à beira do abismo. Agentes paraestatais trabalham nas sombras. Paranoia e desconfiança, às vezes justificadas, pairam no ar. A luta para revelar a verdade é tão intensa quanto a luta para suprimi-la. Sim, "Dia D" é uma epopeia sobre a presença de alienígenas, mas, em termos de tom, quando os cardeais, os círculos nas plantações e as perseguições de carro dão lugar a pessoas comuns lutando para sobreviver em uma nação caótica, o filme transmite a ansiedade e a incerteza que permeiam a vida americana moderna, fora do contexto da ficção científica. Emily Blunt eJosh O'Connor em Dia D (2026) — Foto: Divulgação Percebi isso na cena em que Emily Blunt e Wyatt Russell param em uma loja de conveniência: ainda não chegamos às grandes sequências de ação e revelações, mas eles estão cercados por pessoas estocando produtos freneticamente, preparando-se para uma guerra iminente. No final, quando nossos heróis finalmente revelam a verdade ao público, o clima muda para um otimismo vacilante e hesitante, e Blunt tem a última palavra que soa como um apelo à compreensão: “Escutem”. Algo ali nos faz lembrar quem somos como país. (ANDREW LAVALLEE) 'Projeto Florida' (2017), de Sean Baker Existe alguma cidade mais americana do que Orlando, na Flórida? Suas atrações prometem grandes sonhos, muita diversão, uma fuga completa. Mas muitas vezes mascaram a tremenda luta da classe trabalhadora necessária para manter esses sonhos vivos. O diretor Sean Baker interpreta as complexidades de Orlando, e da própria América, neste drama ensolarado que se desenrola do outro lado do mundo Disney. Motéis baratos com nomes como Futureland Inn e Magic Castle são os lares e playgrounds de fato de crianças que passam seus dias brincando e aprontando travessuras, em meio a esses ambientes decadentes. Brooklynn Prince e Valeria Cotto em Projeto Flórida (2017) — Foto: Divulgação Brooklyn Prince brilha como Moonee, de 6 anos, o coração e a alma otimista do filme. Ela cria seu próprio tipo de magia enquanto os adultos oprimidos ao seu redor (incluindo sua mãe, interpretada por Bria Vinaite) tentam sobreviver. Baker está profundamente sintonizado com essa dicotomia e guia o filme com uma escala épica e um foco íntimo. Os resultados são encantadores e comoventes. (MEKADO MURPHY) ‘Sangue negro’ (2007), de Paul Thomas Anderson Um magnata implacável, que construiu seu império com base num passado repleto de negócios obscuros. Um pregador oportunista mais interessado no poder do que na santidade. Um país onde riquezas fabulosas estão disponíveis, se você estiver disposto a pisar nas costas do seu vizinho. O épico de Paul Thomas Anderson, que deu a Daniel Day-Lewis um de seus maiores papéis, critica o sonho americano, tomando emprestada a linguagem cinematográfica dos grandes faroestes de Hollywood, mas invertendo seus temas. Daniel Day-Lewis em Sangue negro (2007) — Foto: Divulgação Nesta visão do Oeste, a fronteira produz petróleo tão negro quanto a noite e exige sangue em troca, enquanto as forças gêmeas da prosperidade americana — capitalistas desenfreados e sem escrúpulos e vigaristas que roubam a religião para seus próprios fins — caminham para uma conclusão explosiva. Nesta grande terra, sugere "Sangue Negro", você pode ganhar o mundo inteiro, contanto que esteja preparado para perder também a sua alma. (ALISSA WILKINSON) 'Jovens, Loucos e Rebeldes' (1993), de Richard Linklater Logo no início de "Jovens, Loucos e Rebeldes", enquanto estudantes do ensino médio do Texas saem das salas de aula para as férias de verão em 1976, o professor descolado anuncia aos berros o iminente Bicentenário: "Não se esqueçam o que vocês estão comemorando, que é o fato de que um bando de homens brancos aristocratas e donos de escravos não queriam pagar seus impostos." Rory Cochrane, Sasha Jenson, eJason London em Jovens, loucos e rebeldes (1993) — Foto: Divulgação O marco nacional permanece na mente dos adolescentes — "Este país foi fundado por pessoas que gostavam de alienígenas, cara", insiste o líder dos maconheiros — mas serve principalmente como pano de fundo para uma noite agitada. À medida que os grupos sociais se misturam, surgem conflitos: entre os costumes antigos e as novas tendências culturais, entre o patriotismo e a rebeldia, entre a liberdade ilimitada e a falta de perspectivas. É nesse atrito que a essência americana da comédia dramática de Richard Linklater, de 1993, se torna inegável. Como estudante do segundo ano do ensino médio, apaixonada por essa representação da adolescência americana, eu assistia repetidamente em VHS. "Escolha sabiamente", parecia me alertar uma filha de imigrantes profundamente consciente de que quem somos agora define o rumo de quem podemos ser — e se esse eu futuro se renderá ao pensamento coletivo ou resistirá para sempre a ele. (MAYA SALAM) 'Dirty Dancing' (1987), de Emile Ardolino Um estudo sobre divisões de classe, trabalho, identidade, direitos das mulheres, saúde e muito mais, disfarçado em um romance leve e divertido sobre a passagem para a vida adulta. "Dirty Dancing" tem todos os elementos certos para entender a América do pós-guerra — e uma trilha sonora incrível. Jennifer Grey e Patrick Swayze in 'Dirty Dancing: Ritmo quente' (1987) — Foto: Divulgação Ambientado em meio às convulsões sociais dos anos 60 em um resort nas montanhas Catskills, o filme acompanha o despertar de Baby, ao conhecer Johnny, o instrutor de dança interpretado por um Patrick Swayze — frequentemente sem camisa. (Observe os sobrenomes dos personagens: dela, Houseman, e dele, Castle; ela é judia e abastada, e ele — apesar do nome pomposo — não. O caso deles foi um transgressor de tabus na época.) Uma trama franca sobre aborto era uma raridade no cinema — Eleanor Bergstein, a roteirista, lutou para mantê-la. A mensagem é que a cultura pode levar a mudanças sociais e políticas — ninguém coloca Baby num canto! — especialmente quando é apresentada com dançarinos e músicos (notavelmente, os únicos atores não brancos do filme). (MELENA RYZIK) 'O matador de ovelhas' (1978), de Charles Burnett A obra-prima de Charles Burnett se passa no bairro de Watts, em Los Angeles, em meados dos anos 1970, uma década após os distúrbios civis que ocorreram na região. Filmado em preto e branco, é um retrato expressionista de uma família negra pobre e do país em que vivem, com seu idealismo e suas amargas verdades. Há uma beleza arrebatadora, assim como uma comédia melancólica na visão de Burnett, e uma dor que penetra até os ossos. Aqui, cada parede suja e terreno baldio evoca promessas quebradas, assim como o rosto encovado do pai, que trabalha num matadouro (Henry G. Sanders). O matador de ovelhas (1978) — Foto: Divulgação Burnett é um dos maiores poetas do cinema, mas também um dialético lúcido, como fica evidente na cena de crianças brincando no que parece ser um canteiro de obras abandonado, um interlúdio embalado pela música "The House I Live In", de Paul Robeson. Uma ode ao idealismo americano, imortalizada por Frank Sinatra, essa canção começa com a pergunta "O que é a América para mim?". Ela ganha um significado muito diferente quando cantada por Robeson, um ativista dos direitos civis cuja carreira foi interrompida durante o Macartismo. Com um filme inesquecível, Burnett evoca a história americana e a transforma em realidade. (MANOHLA DARGIS) 'Nashville' (1975), de Robert Altman Poucos cineastas retratam a América, em toda a sua complexidade e contradições, de forma tão completa quanto Robert Altman. Em seus melhores filmes, ele questionou temas tabus, instituições ocultas, a mitologia da fronteira e noções convencionais de heroísmo com um olhar cúmplice e uma risada discreta. Há algo inerentemente americano em sua obra-prima de 1975, "Nashville". A forma como ele busca algo grandioso, abrangente e audacioso ao entrelaçar 24 personagens de origens e estratos sociais diversos ao longo de alguns dias na capital da música country. Clare Bowen e Sam Palladio in Nashville: No ritmo da fama (2012) — Foto: Divulgação A estrutura desordenada e não convencional do filme tornou-se uma das marcas registradas de Altman. Ele adorava as intersecções complexas da vida real, como um forasteiro excêntrico pode acabar se deparando com uma figura arrogante do establishment e sair por cima. É um filme repleto de música, de mágoa, de patriotismo e de violência política; É a experiência americana completa em 160 minutos. (JASON BAILEY) 'Zabriskie Point' (1970), de Michelangelo Antonioni Ambientado no verão de 1968 no Deserto de Mojave, "Zabriskie Point" é uma meditação hipnótica sobre os ideais americanos, contada através da perspectiva de dois estranhos que se tornam amantes: um jovem universitário fugitivo e uma secretária em viagem de trabalho. Eles passam uma tarde onírica vagando pela paisagem, discutindo tensões sociais e se deparando com uma orgia extremamente empoeirada. (Afinal, é Antonioni e os anos 60.) Mark Frechette e Daria Halprin em Zabriskie Point (1970) — Foto: Divulgação "Há mil lados — não apenas heróis e vilões", diz a secretária (Daria Halprin) ao jovem (Mark Frechette), o que parece ter sido a visão do diretor italiano sobre os Estados Unidos. Entre as cenas fascinantes do Oeste americano e a trilha sonora pulsante de Pink Floyd e Jerry Garcia, há momentos de intensa agitação social, crime e ganância corporativa. O FBI investigou o filme por suposto anti-americanismo, mas Antonioni cria uma carta de amor de um forasteiro à América, ao seu povo e a tudo o que ela representa, com todos os seus defeitos. (AMANDA WEBSTER) "Nada Além de um Homem" (1964), de Michael Roemer O diretor Michael Roemer nasceu em Berlim em 1928. Ele não sabia o que era ser jovem, negro e ter um emprego precário no Alabama pré-Lei dos Direitos Civis, como Duff Anderson, o personagem admirável, porém autodestrutivo, no centro de seu primeiro longa-metragem. Mas Roemer conhecia a sensação de não ser bem-vindo em seu próprio país e o preço espiritual da servidão de fato. Essa sensação ele despejou em seu roteiro que, na tradição de Tocqueville e Gunnar Myrdal, reflete a América sobre si mesma como só um forasteiro pode fazer. Yaphet Kotto, Mel Stewart, Ivan Dixon e Milton Williams em Nada além de um homem (1964) — Foto: Divulgação Estrelado pelo inesquecível Ivan Dixon (como Duff), com um elenco de apoio excepcional (Abbey Lincoln, Yaphet Kotto, Gloria Foster), "Nada além de um homem" conta uma história política sob um registro pessoal. Seus personagens — fruto de viagens de pesquisa que Roemer fez pelo Sul dos Estados Unidos com seu co-roteirista, diretor de fotografia e também judeu, Robert Young — são sempre humanos, para o bem e para o mal. (REGGIE UGWU) 'Scarface' (1932), de Howard Hawks Falando em tipos americanos: a epítome da comédia pastelão e a sensação que desagradou a censura em 1932. "Scarface" foi financiado por um lendário magnata texano (Howard Hughes) e dirigido por um grande cineasta de Hollywood (Howard Hawks), a partir de um roteiro escrito principalmente por um célebre jornalista de Chicago (Ben Hecht), como um veículo para um antigo ídolo do teatro iídiche de Nova York (Paul Muni), que interpreta um retrato ficcional do homem mais notório do país na época (Al Capone). Al Pacino em 'Scarface' — Foto: Divulgação "Scarface" não foi o primeiro filme de gângster dos estúdios, mas foi o mais violento e barulhento. Surge em meio a uma paisagem sonora de pneus cantando, metralhadoras estrondosas e diálogos repletos de gírias, com Capone acompanhado por duas belas mulheres, uma sensual (Ann Dvorak) e a outra fria (Karen Morley). Devido a problemas com direitos autorais, o padrinho dos filmes de gângsteres americanos ficou indisponível por 33 anos, o que só reforçou seu status de cult. A viralização do remake de Brian De Palma, de 1983, atesta seu poder. (J. HOBERMAN)
Qual é o filme definitivo sobre os Estados Unidos, em seu 250º aniversário?
Críticos de cinema do New York Times dizem quais filmes eles escolheriam para definir o país











