É triste quando nossos ídolos envelhecem mal. O crítico de cinema David Thomson é um caso. Durante décadas, seus livros foram para mim uma educação sentimental. O seu "The New Biographical Dictionary of Film", brilhante e idiossincrático, ainda é minha primeira leitura quando assisto a um filme clássico pela primeira vez.
Mas Thomson está desiludido com a arte. Desiludido, até, com sua dedicação à arte. Em entrevista ao também crítico A.O. Scott, no The New York Times, a sentença é grave —os filmes arruinaram a realidade. O seu livro mais recente, "A Sudden Flicker of Light: A Revisionist History of the Movies", explica como. Ainda não li o livro, que só estará disponível a partir desta terça. Mas duas teses do autor já me parecem discutíveis.
A primeira defende que o cinema americano não soube honrar a sociedade e a história do país. Pelo contrário —branqueou essa história por meio da propaganda política ou da romantização da violência.
Se hoje existe um Donald Trump na Casa Branca, é porque Hollywood foi premiando —em sentido literal e figurado— o gângster como herói nacional
Por outro lado, o cinema americano contaminou a realidade com sua lógica narrativa e até formal. Queremos vilões e heróis. Histórias simples, com resolução satisfatória. A mídia e as redes sociais limitaram-se a copiar a fantasia para explicar a realidade. Trump, uma vez mais, seria a arma do crime.







