Kleber Mendonça Filho veio ao Il Cinema Ritrovato, na Bolonha, para apresentar seu documentário "Crítico", de 2008 —que trata justamente do diálogo entre cineastas e críticos de arte—, e depois papear com o público sobre seu trabalho. Antes disso, aproveitou o tempo para ver o que estivesse a seu alcance. Encontrei-o na saída de "Sangue por Glória", de 1926, de Raoul Walsh.

Um clássico do cinema de guerra —da Primeira Guerra Mundial, no caso—, mas que foge sabiamente dos lugares-comuns do gênero para se fixar na disputa pessoal de dois soldados por uma mesma mulher. Walsh trata a guerra à distância, o que é justo esperar, porque os Estados Unidos só entraram na guerra na hora de ganhar. Diferente do filme de Abel Gance, "Eu Acuso!", de 1919, por exemplo, aqui a guerra parece um fenômeno que pode ser tratado com alguma leveza, e até com humor.

O que não impede que, além de sequências no campo de batalha, uma das mais belas cenas do filme seja a da moça —vivida por Dolores del Río— andando por um desolado mar de terra revolta, cadáveres e cruzes. Ou o plano fugaz, mas notável, de um caminhão trepidante que leva para longe soldados vivos e outros mortos.

Kleber Mendonça Filho se encantou com o filme, assim como sua companheira e produtora Emilie Lesclaux. Mas o essencial foi seu comentário de que estava vendo esses filmes antigos e, enquanto os via, tinha ideias para novos filmes. É assim que se faz o cinema —com filmes que saem de outros filmes. Quem não revisita a história terá muito mais dificuldade de se manter com as pernas firmes.