Quem é atleta sabe que não basta treino sozinho para se destacar no esporte. Além dos fatores genéticos e de uma boa recuperação entre os exercícios, há um componente-chave para garantir a energia de que o corpo precisa: a alimentação. E numa época em que nunca se falou tanto sobre o tema, não seria diferente com a Copa do Mundo. Desde 11 de junho, os olhos do planeta estão voltados para os 1.248 jogadores, muitos que parecem desafiar as leis da física e da biologia. E também para o que colocam no prato na busca por serem os melhores do mundo. Os cardápios revelam dietas rígidas, em parte responsáveis pelo desempenho em campo. Mas que devem ser interpretadas com cautela pela população em geral. — Não existem dietas mágicas, existem estratégias estabelecidas pela ciência. Não é porque o atleta é um grande jogador que a alimentação dele está necessariamente correta. Mas a maioria dos jogadores come bem, com adaptações segundo as suas necessidades individuais e a cultura de cada um — diz Eduardo Rauen, médico do exercício do esporte e nutrólogo e diretor técnico do Instituto Rauen, que atua com atletas. O GLOBO pediu a especialistas que avaliassem as dietas de seis dos principais craques da Copa do Mundo 2026: Erling Haaland, Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Vini Jr., Kylian Mbappé e Lamine Yamal. Veja abaixo o que eles comem e o que pensam nutricionistas e nutrólogos a respeito. Haaland comemora gol da Noruega contra a Costa do Marfim pela Copa do Mundo — Foto: Paul Ellis / AFP Um dos principais personagens do próximo duelo do Brasil, o atacante da Noruega de 25 anos é conhecido pelo seu tamanho. Com 1,95 m e pesando cerca de 90 kg, o jogador já revelou em seu canal no YouTube consumir cerca de seis mil calorias por dia. Fã de um churrasco, mantém uma dieta repleta de bistecas tomahawk, filé de costela e coração e fígado bovinos. O atleta também já contou comer itens menos convencionais, como leite cru e mel cru. Durante o torneio, tem consumido muito salmão norueguês. Em relação às calorias, os especialistas afirmam fazer sentido porque, pelo seu tamanho, o jogador deve ter uma taxa metabólica basal, o que ele gasta em repouso, de cerca de três mil calorias diárias. Soma-se a isso a elevada carga de treinamento, levando a uma necessidade de consumo bem acima da média para manter o físico. — O consumo de carnes, fígado, coração e salmão fornece proteínas de excelente qualidade, ferro, vitamina B12, ômega-3 e outros nutrientes importantes para recuperação muscular e desempenho. Agora, dois pontos merecem atenção. O leite cru não é indicado porque pode oferecer risco de contaminação por bactérias. Já o mel cru não é necessariamente superior ao mel tradicional do ponto de vista nutricional — avalia Thiago Monteiro, ex-nutricionista do Flamengo que trabalha com a Seleção Brasileira sub-20. O foco em carne vermelha também é um ponto de atenção na dieta. Rauen lembra que as autoridades de saúde recomendam restringir o consumo a 500g por semana, cerca de duas vezes, devido ao risco de aumentar o colesterol e as chances de câncer de intestino. Por isso, a preferência deve ser por carnes magras, como frango e peixe. Lionel Messi Contra a Argélia, Lionel Messi marcou o primeiro hat-trick em Copas da carreira — Foto: Roberto Schmidt/AFP O jogador argentino de 39 anos passou por uma reeducação alimentar em 2015 com o nutricionista italiano Giuliano Poser. O profissional já declarou que a dieta de Messi passou a priorizar azeite de oliva, cereais integrais, frutas e verduras frescas, que não sejam contaminadas por pesticidas e herbicidas, e frutos secos e nozes. Além disso, deixou de lado carne vermelha em excesso, açúcares e pizza, que era uma de suas refeições favoritas, o que ajudou com vômitos constantes. Um de seus pratos prediletos é frango grelhado com cenoura, alho-poró e batata. O atleta, que foi para sua sexta Copa do Mundo, também não dispensa um bom chimarrão, aprovado pelos especialistas por ser rico em antioxidantes e cafeína. — Priorizar frutas, verduras, cereais integrais, azeite de oliva e oleaginosas favorece o aporte de fibras, vitaminas, minerais, antioxidantes e gorduras insaturadas. Reduzir açúcares e carnes vermelhas também está associado a melhores indicadores. Vale destacar que evitar alimentos com exposição a pesticidas pode ser uma escolha individual, mas, do ponto de vista científico, deve-se aumentar o consumo de frutas, verduras e legumes independentemente do sistema de produção — diz Tamara Lazarini, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban). Cristiano Ronaldo O atacante português número 7, Cristiano Ronaldo, reage durante a partida de futebol das oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 entre Portugal e Croácia, no Estádio de Toronto, em Toronto, em 2 de julho de 2026. — Foto: Cole Burston / AFP Também em sua sexta edição do campeonato, Cristiano Ronaldo é conhecido por manter uma rotina rígida de exercícios e alimentação. De acordo com Giorgio Barone, chef que trabalhou com ele na Juventus, sua dieta é focada em itens como arroz negro, abacate, peixe, como bacalhau, polvo e camarão, ovos, frango e óleo de coco. Por outro lado, elimina cinco itens do dia a dia: açúcar, fast food, bebida alcoólica, amido e farinha. Especialistas elogiam o padrão alimentar, semelhante ao de Messi e à dieta mediterrânea, uma das com mais evidências de benefícios para a saúde. Mas Isolda Prado, médica nutróloga, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) e professora de Nutrologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), destaca que os carboidratos não devem ser cortados totalmente: — É um padrão alimentar compatível com excelente composição corporal e recuperação muscular. Mas a exclusão ampla de alimentos ricos em amido ou farinha não representa uma recomendação universal, pois carboidratos são fundamentais para atletas de modalidades de alta intensidade, devendo ser ajustados conforme a demanda energética. Vini Jr. Vini Jr. comemora gol do Brasil sobre o Haiti na Copa do Mundo — Foto: Mauro Pimentel / AFP Responsável por quatro gols pelo Brasil apenas na fase de grupos, o atleta de 25 anos tem o hábito de comer fatias de abacaxi antes e no intervalo dos jogos. Ao youtuber Ibai, o atleta contou que o mais difícil para ele na dieta é a vontade de comer doces e que come frutas para saciá-la. O craque brasileiro disse ainda que costuma frequentar restaurantes, mas come em casa para seguir a dieta e vai aos locais apenas para se reunir com amigos. Sua alimentação foca em "comida de verdade", como arroz, feijão e proteínas magras, como frango e peixe, evitando açúcar e bebidas alcoólicas. Vini Jr. já contou, por exemplo, que não bebe cerveja. — Consumir abacaxi é interessante porque a fruta fornece carboidratos de rápida absorção, água e ajuda na reposição de energia ao longo da partida. Além disso, trocar doces por frutas pode ser uma boa estratégia para controlar a vontade de açúcar sem deixar de ingerir alimentos nutritivos. A base da alimentação dele continua sendo aquilo que costuma funcionar melhor: arroz, feijão, proteínas magras, frutas e pouca comida ultraprocessada — afirma Monteiro. Kylian Mbappé Kylian Mbappé — Foto: CHARLY TRIBALLEAU / AFP O prato favorito do jogador francês de 27 anos é salmão com macarrão. Seu plano alimentar é também marcado pela redução de carnes e produtos com açúcar. Mas ele come carboidrato à vontade e consome bastante aveia. Durante a Copa, o chef da seleção francesa compartilhou que o menu reúne opções frias com variadas saladas, pratos quentes como arroz e brócolis, uma estação para personalização de massas, frutas e sobremesas. — O prato favorito dele faz bastante sentido nutricionalmente. O macarrão fornece energia para treinar e competir, enquanto o salmão oferece proteína e ômega-3, que ajudam na recuperação muscular. Muita gente ainda tem medo do carboidrato, mas, para um atleta, ele é fundamental. Em muitos casos, não é o carboidrato que atrapalha o emagrecimento, é o excesso de calorias e a baixa qualidade da alimentação como um todo — diz Monteiro. Lamine Yamal Lamine Yamal comemora seu gol — Foto: Buda Mendes/Getty Images/AFP Um dos prodígios desta edição da Copa, o espanhol de apenas 18 anos foca em itens como salmão, batatas assadas, couve-flor e aspargos. Mas, em entrevista à GQ Espanha, ele contou que sua comida favorita é arroz com molho de amendoim, prato tradicional do país de sua mãe, a Guiné Equatorial, que ela costumava preparar para o atleta comer antes dos treinos. — A alimentação de Yamal combina proteínas de alta qualidade, carboidratos complexos e vegetais, oferecendo nutrientes importantes para recuperação e desempenho. O arroz com molho de amendoim também representa uma combinação interessante de carboidratos, gorduras insaturadas e proteínas vegetais. A presença de alimentos ligados à cultura e à família é importante, pode contribuir para maior adesão ao plano alimentar, aspecto frequentemente valorizado na nutrição esportiva — afirma Isolda.