Quadrilha movimentou mais de R$ 10 bilhões e ocultou recursos com origem ilícita por meio de transferências bancárias, criptoativos e remessas ao exterior 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagem ilustrativa de policial federal em SP — Foto: Divulgação/PF RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 18:27 Polícia Federal desmantela esquema bilionário de lavagem de dinheiro A Operação Exchange, deflagrada pela Polícia Federal, desmantelou um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou mais de R$ 10 bilhões, envolvendo tráfico de drogas, contrabando de alho e corrupção. O grupo utilizava transferências bancárias, criptoativos e remessas ao exterior para ocultar a origem ilícita dos recursos. Mandados de prisão e busca foram expedidos contra 13 investigados. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (3) a Operação Exchange, mirando uma estrutura suspeita de lavar até R$ 10,3 bilhões oriundos do tráfico internacional de drogas. Segundo a decisão da 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo, o grupo prestaria serviço a quem precisasse ocultar a origem de valores ilícitos. O grupo atuou do comércio de haxixe a um desvio bancário de R$ 206 milhões, passando pelo contrabando de alho argentino e por um suposto repasse de propina a um ex-delegado da cúpula da segurança pública paulista. Foram expedidos mandados de prisão temporária e de busca e apreensão contra 13 investigados; dois deles, considerados foragidos, ainda não haviam sido localizados até a divulgação da operação. A Justiça determinou, ainda, o sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados até o montante total de R$ 10,4 bilhões, que seria o total movimentado pelo grupo criminoso. Segundo a decisão, o elemento inaugural do inquérito foi a apreensão do celular de Ygor Fokin Saviolli, ocorrida em outubro de 2023 durante um controle de fronteira em Fort Lauderdale, na Flórida. O episódio revelou vídeos, fotografias, comprovantes de depósito e conversas indicativas de lavagem associada ao narcotráfico, e as informações teriam sido repassadas à Polícia Federal pelo Homeland Security Investigations dos Estados Unidos. Meses depois, Victor Henrique de Oliveira Shimada, apontado como líder do esquema ao lado de Saviolli, passaria por situação parecida na mesma cidade. Em maio de 2024, ao perceber que seria abordado pela imigração, ele teria avisado a um interlocutor que havia apagado todos os aplicativos de mensagem do celular. Já em janeiro de 2026, o FBI deflagrou nos Estados Unidos uma operação que resultou na prisão de outros integrantes da mesma organização, entre eles Saviolli, por suspeita de lavagem de dezenas de milhões de dólares ligados ao tráfico. Engrenagem bilionária Segundo o laudo pericial contábil citado na decisão, a empresa Hi Quality, sem funcionários registrados, foi mencionada em 645 comunicações ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras somando R$ 29,3 bilhões. Somadas as movimentações da Victory Trading e dos próprios Shimada e Saviolli, o total identificado alcançaria os R$ 10,3 bilhões. Para escapar do monitoramento, os investigados teriam recorrido a diversos codinomes nas conversas interceptadas: dinheiro em espécie era chamado de "vivo" ou "papel", dólares de "azul", e a própria droga aparecia disfarçada como "iPhone". Em um diálogo sobre o extravio de uma carga, Saviolli teria negociado com um fornecedor a devolução de parte do material. Operação da Polícia Federal mirou alvos de sanção do governo Trump A organização também teria ligação direta com uma fraude eletrônica contra o programa de fidelidade do Grupo Ultra, a KMV. Segundo a decisão, criminosos exploraram falhas nos sistemas da processadora responsável pelas transações e enviaram cerca de 18 mil ordens de pagamento fracionadas ao Banco Votorantim, das quais 6.736 teriam sido executadas, gerando no ataque hacker um desvio superior a R$ 206 milhões. Parte expressiva do valor teria caído na conta da Victory Trading, empresa de Shimada, que teria recebido 2.799 transferências indevidas, com prejuízo de R$ 35,1 milhões à instituição. Foi por esse episódio, aliás, que Shimada chegou a ser preso preventivamente em 2024 e solto meses depois por habeas corpus. Do narcotráfico ao tempero importado Outra frente do grupo operava de forma mais analógica: o comércio irregular de alho argentino. As mensagens analisadas apontaram sociedade entre Shimada e Diego Lameiro Diz, fornecedor do produto vindo da região de Mendoza. Em conversas de 2023, Shimada teria oferecido o alho a compradores brasileiros, descrevendo-o como de "altíssima qualidade" e afirmando que a mercadoria estava sendo trazida da Argentina. A negociação teria ocorrido dias depois da apreensão, pela Receita Federal em Foz do Iguaçu, de 25 toneladas de alho e cebola importados irregularmente do país vizinho. Para a Polícia Federal, Diego teria atuado ainda na constituição de empresas de fachada nos Estados Unidos e no Brasil, no ramo alimentício, o que configuraria, em tese, descaminho associado à lavagem de dinheiro. Para movimentar dinheiro em espécie e moeda estrangeira entre o Brasil e a Europa, Shimada teria contado com o tio materno, Amauri Henrique de Oliveira, e a prima, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira (filha de Amauri). Segundo a decisão, os dois desenvolveram um método próprio para comprovar as entregas sem deixar rastro digital: fotografavam cédulas de dois reais com o valor e a data anotados à mão. Stella, além do transporte físico de dinheiro, teria coordenado remessas para Lisboa, gerido planilhas financeiras do grupo. Em conversas, ela chegou a declarar a Shimada que trabalhava "no escritório" havia muito tempo, o que foi indício, para a Polícia Federal, de vínculo permanente com a estrutura, e não de simples parentesco. Propina a ex-delegado Um dos pontos mais sensíveis da decisão envolve Romany Cutolo Bonente, advogado apontado como intermediário de alto nível entre Shimada e credores ligados a organizações criminosas. Em áudios enviados a Shimada, Romany teria mencionado a necessidade de repassar R$ 100 mil a uma pessoa identificada apenas como "Fabio Caipira do Deic". Segundo a Polícia Federal, o apelido corresponderia a um delegado que chegou a dirigir o Departamento Estadual de Investigações Criminais de São Paulo e que teria sido afastado do cargo depois de ser citado em uma colaboração premiada sobre o envolvimento de policiais com o Primeiro Comando da Capital. A reportagem não localizou as defesas de Paulo Roberto Macedo, Gabriel Innocente, Jefferson Costa de Britis, Leandro de Proença, Carlos Henrique Costa Almeida, João Gilberto Codognotto e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. O espaço permanece aberto para manifestações