A Chanel está de olho no público masculino — ainda que não necessariamente na moda masculina propriamente dita. A marca francesa de luxo anunciou nesta quinta-feira a aquisição da Charvet, a tradicional maison da Place Vendôme, em Paris, reconhecida mundialmente por suas camisas sob medida, gravatas e pijamas de luxo. Os valores da transação não foram divulgados. A compra reforça a estratégia da grife francesa de ampliar sua presença no universo masculino, ainda que a empresa não tenha planos de lançar uma linha própria de moda masculina. — Agora temos um nome para as mulheres, Chanel, e um nome para os homens, Charvet — afirmou Bruno Pavlovsky, presidente da divisão de moda da Chanel, em entrevista por vídeo. Segundo o executivo, a mudança acompanha uma transformação no comportamento dos consumidores. — Embora a Chanel seja uma marca voltada para as mulheres, vemos cada vez mais homens entrando em nossas lojas. Da mesma forma, apesar de a Charvet ser tradicionalmente associada ao público masculino, muitas mulheres procuram a marca para confeccionar camisas sob medida. A escolha pertence ao cliente. Todos são bem-vindos. Essa é a beleza e o segredo dessa abordagem — disse. Para Pavlovsky, a operação reflete uma visão mais livre em relação ao gênero na moda e pode até representar "o início da alta-costura masculina". Embora não produza roupas masculinas, a Chanel vem reforçando sua aproximação com esse público ao escolher nomes como ASAP Rocky e Pedro Pascal como embaixadores da marca. A incorporação da Charvet aprofunda essa estratégia. A companhia também vive um momento financeiro sólido. Em 2025, a Chanel registrou receita de US$ 19,3 bilhões e lucro operacional de US$ 4,7 bilhões, destacando-se em um setor de luxo que enfrenta desaceleração. Parte desse desempenho é atribuída à repercussão em torno do estilista Matthieu Blazy, nomeado diretor artístico da maison em dezembro de 2024. Suas primeiras coleções provocaram grande procura nas lojas da marca em Paris, Londres e Xangai. Fundada em 1838 por Joseph-Christophe Charvet, filho do camareiro de Napoleão Bonaparte, a Charvet é considerada a primeira loja do mundo dedicada exclusivamente à fabricação de camisas. A empresa permaneceu sob controle da família fundadora até 1965, quando foi vendida para Denis Colban, então fornecedor de tecidos da maison. Atualmente, é administrada pelos filhos dele, Jean-Claude e Anne-Marie Colban. Um alfaiate confecciona uma camisa na boutique da Charvet, em Paris, em 4 de dezembro de 2025. Uma colaboração com a Chanel destacou o apelo exclusivo da tradicional camisaria parisiense, que encanta clientes há 188 anos — Foto: James Hill/The New York Times As camisas da Charvet ganharam fama internacional e foram citadas em obras como 'Em Busca do Tempo Perdido', de Marcel Proust, e 'Um Homem por Inteiro', de Tom Wolfe. Entre seus clientes históricos estiveram o rei Eduardo VII, que concedeu à marca um raro selo de fornecedor oficial da realeza britânica para uma empresa estrangeira, além de personalidades como Gary Cooper, John F. Kennedy, Charles de Gaulle, David Hockney, Sofia Coppola e o ex-diretor criativo da Chanel, Karl Lagerfeld. Pavlovsky revelou, inclusive, que recebeu algumas camisas da Charvet de presente do estilista. A relação entre Chanel e Charvet remonta aos primórdios da maison francesa. Há quase um século, Coco Chanel costumava usar as camisas de seu companheiro, o empresário britânico e jogador de polo Boy Capel — peças confeccionadas justamente pela Charvet. Essa conexão foi retomada em outubro do ano passado, quando Matthieu Blazy, inspirado no estilo de Coco Chanel, desenvolveu em parceria com a Charvet três modelos de camisas para sua primeira coleção na marca. A atriz Nicole Kidman usou uma delas na primeira fila do desfile, enquanto o ator Jacob Elordi vestiu outro modelo algumas semanas depois. Segundo Pavlovsky, a repercussão despertou nos irmãos Jean-Claude e Anne-Marie Colban, de 71 e 69 anos, reflexões sobre o futuro da empresa, já que nenhum de seus filhos atua no negócio. De acordo com o executivo, a iniciativa de vender a Charvet partiu dos próprios proprietários. Segundo estimativas do analista de luxo Luca Solca, do Bernstein, a Charvet fatura entre € 10 milhões e € 15 milhões por ano (cerca de US$ 11 milhões a US$ 17 milhões). Entre seus ativos estão cerca de 100 funcionários, um ateliê nos arredores de Paris e sua histórica loja na Place Vendôme, imóvel que também passou a integrar o patrimônio da Chanel. Solca estima que o valor total da operação tenha girado em torno de € 100 milhões (aproximadamente US$ 114 milhões). Apesar de operar com apenas uma loja, a reputação da Charvet ultrapassa em muito seu tamanho. A edição britânica da Vogue descreveu as camisas da maison como "a peça essencial definitiva para quem valoriza básicos de altíssima qualidade e não se preocupa com o preço", acrescentando que a marca alcançou um status "quase religioso" entre especialistas e profissionais da moda. — Quando observamos as grandes casas de moda de Paris, não encontramos muitas joias como essa — afirmou Bruno Pavlovsky, presidente da divisão de moda da Chanel. — A Charvet é uma verdadeira joia. Segundo o executivo, outro fator decisivo para a aquisição foi a semelhança entre os métodos de trabalho das duas marcas. Ele destacou que o serviço de alfaiataria sob medida da Charvet, bem como seu rigor na seleção de tecidos e nos acabamentos, está alinhado aos padrões da Chanel. — Na Charvet, por exemplo, não existe apenas um tom de azul. Existem 500 tons diferentes de azul", exemplificou. A Charvet não será incorporada ao grupo de maisons d'art da Chanel — que reúne ateliês especializados, como o bordador Lesage e a ourivesaria Goossens. Assim como outras empresas controladas pela grife, entre elas Eres, Orlebar Brown e Barrie, a marca continuará operando de forma independente. Os atuais proprietários, Jean-Claude e Anne-Marie Colban, permanecerão na gestão por pelo menos um ano para garantir uma transição gradual após a venda. Pavlovsky também afirmou que não há expectativa de que a Charvet passe a realizar desfiles próprios. No entanto, reconheceu que, em algum momento, a empresa deverá contratar um diretor criativo exclusivo para comandar sua evolução — decisão que, segundo analistas do setor, deve alimentar especulações sobre quem assumirá o posto.