Do Equador, da Suíça e da Alemanha, María Pessina e seus irmãos passaram quatro dias procurando notícias da mãe em grupos de conversa e nas redes sociais. No sábado, 27 de junho, uma fotografia confirmou o pior: Magnolia morreu no desabamento de seu edifício durante o duplo terremoto que atingiu a Venezuela. — A agonia terminou — suspirou Pessina, pesquisadora venezuelana radicada em Quito, quando conseguiu confirmar que as roupas de um dos corpos encontrados sob os escombros eram de sua mãe, de 79 anos. Maria poderia estar entre as vítimas dos terremotos de 24 de junho. Ela passou três semanas visitando a mãe e embarcou de volta ao Equador poucas horas antes dos sismos. — O terremoto aconteceu enquanto eu estava voando — contou à AFP por telefone. — Meu telefone explodiu de mensagens porque muita gente achava que eu ainda estava em Caracas — conta ela, que antes mesmo de reencontrar seus familiares em Quito já havia recebido um vídeo mostrando o edifício da mãe reduzido a escombros. — O desespero passou para outro nível — diz. Maria e seus irmãos iniciaram então uma busca angustiante. Ativaram grupos de conversa da família e dos vizinhos e contrataram um motociclista para verificar as listas de sobreviventes, feridos e desaparecidos nos hospitais de Caracas. Graças a um grupo de WhatsApp, os moradores dos 14 andares do edifício Petunia, em Caracas, conseguiram restabelecer contato com familiares emigrados que buscavam notícias de seus parentes desde EUA, Espanha, República Dominicana, Panamá e Equador. Na sexta-feira, uma mensagem nesse grupo informou que havia sido recuperado um corpo com características semelhantes às de Magnolia. No dia seguinte, María confirmou a morte da mãe. — Passei três semanas limpando e dobrando as roupas dela, por isso consegui reconhecer o que minha mãe vestia na fotografia — explica. Imagens de satélite mostram antes e depois de área mais devastada por terremotos na Venezuela 1 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 2 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 4 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade 5 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 6 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade Governo interino declarou a região do estado de La Guaira como 'zona de desastre' Resgate interrompido O desespero da família de María Pessina se repete entre os milhões de venezuelanos que vivem no exterior e, mais de uma semana depois dos terremotos, continuam procurando seus familiares sem poder viajar ao país nem sepultar seus entes queridos. A Venezuela registra o maior êxodo da história recente da América Latina: 7,9 milhões de pessoas deixaram o país na última década, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). De Miami, Madri e Santiago, essa diáspora mobilizou redes para enviar medicamentos, fraldas e fórmulas infantis, além de viralizar pedidos de resgate. — Meu cunhado, Jorge Sedano, está no edifício Vallarta, em Playa Grande, e ainda não sabemos nada dele — contou à AFP, de Miami, Andre, que prefere não revelar seu sobrenome por motivos profissionais. — Não durmo desde que essa tragédia aconteceu. Publico pedidos de ajuda, de doações, reconecto pessoas; precisamos de tudo e recebo milhares de mensagens. Equipes internacionais chegam à Venezuela para auxiliar resgates após terremoto 1 de 11 Bombeiros e militares brasileiros embarcam em uma aeronave da Força Aérea Brasileira para uma missão de ajuda humanitária à Venezuela — Foto: NELSON ALMEIDA / AFP 2 de 11 Bombeiros equatorianos da equipe de Busca e Resgate Urbano (USAR, na sigla original) chegam ao Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em La Guaira. — Foto: Federico PARRA / AFP X de 11 Publicidade 11 fotos 3 de 11 Membros de uma equipe colombiana de Busca e Resgate Urbano (USAR, na sigla original) chegam ao Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em La Guaira — Foto: Federico PARRA / AFP 4 de 11 Membros de uma equipe de resgate do Exército mexicano chegam ao Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em La Guaira, Venezuela — Foto: Federico PARRA / AFP X de 11 Publicidade 5 de 11 Militares brasileiros voam em avião da FAB para Venezuela — Foto: NELSON ALMEIDA / AFP 6 de 11 Equipes de busca e resgate dos Estados Unidos embarcam em uma aeronave militar C-17 Globemaster III com destino à Venezuela — Foto: US SOUTHERN COMMAND / AFP X de 11 Publicidade 7 de 11 Bombeiros colombianos embarcam em uma aeronave da Força Aérea Colombiana com ajuda humanitária para a Venezuela — Foto: Luis ACOSTA / AFP 8 de 11 Bombeiros brasileiros aguardam para embarcar em uma aeronave da FAB para uma missão de ajuda humanitária à Venezuela — Foto: NELSON ALMEIDA / AFP X de 11 Publicidade 9 de 11 Militares mexicanos caminhando com cães de serviço militar na Base Aérea Militar de Santa Lucía, no Estado do México — Foto: Mexican Presidency / AFP 10 de 11 Equipes de resgate e profissionais de saúde do Exército mexicano seguram as bandeiras do México e da Venezuela, na Base Aérea Militar de Santa Lucía, no Estado do México — Foto: Mexican Presidency / AFP X de 11 Publicidade 11 de 11 Avião do México com destino à Venezuela — Foto: Gerardo Luna / AFP Um total de 17 países chegaram a Caracas As operações de resgate no prédio onde estava o cunhado de Andre foram interrompidas na terça-feira, 29 de junho, depois que moradores flagraram policiais roubando dólares entre os escombros. — Eles não chegaram a tempo para salvar vidas, quando talvez meu cunhado estivesse vivo. Mas chegaram a tempo para roubar. Despedida por streaming María Pessina diz que no edifício onde sua mãe morava, em um bairro de classe média em Caracas, quase todos tinham familiares vivendo no exterior. Na terça-feira, os moradores souberam pelo grupo de vizinhos que um casal e sua filha haviam morrido. Apenas o outro filho sobreviveu porque estava estudando na Itália. — Para o bem e para o mal, agora vivemos em tempo real tudo o que acontece do outro lado do mundo — diz, resignada, María Pessina, que, agora, se pergunta como ela e os irmãos se despedirão da mãe estando a centenas ou milhares de quilômetros de distância. Talvez façam uma transmissão ao vivo, quando as tias receberem as cinzas. — Não sabemos quando. Tudo é um caos neste momento — diz. — Imagino que vamos assistir por streaming, como já se acostumaram a fazer aqueles de nós que construíram a vida longe de casa.