Quase duas semanas após terremotos destruírem centenas de edifícios e deixaram 3,5 mil mortos, incerteza sobre paradeiro de familiares tira o sono dos expatriados 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Torres parcialmente desabadas e gravemente danificadas no complexo Luisa Cáceres de Arismendi após os terremotos na Venezuela — Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 06/07/2026 - 22:22 Venezuelanos em SP vivem angústia por parentes após terremotos Venezuelanos em São Paulo enfrentam o desespero pela falta de notícias sobre parentes desaparecidos após devastadores terremotos na Venezuela, que resultaram em 3.535 mortos e milhares de feridos. Com dificuldades de comunicação, expatriados como Luigina de Martino e Sami López vivem dias de angústia, organizando doações e apoio remoto para ajudar suas famílias. As buscas continuam, mas a incerteza persiste. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO São 4.300 quilômetros em linha reta entre São Paulo e a área de epicentro dos terremotos na Venezuela. Em 24 de junho, dois sismos causaram intensa destruição em La Guaira, balneário turístico palco de um cenário desolador, com centenas de edifícios residenciais que vieram abaixo. Em todo o país, 3.535 mortos foram confirmados, além de 16.740 feridos. Segundo a ONU, o número de desaparecidos pode chegar a mais de 50 mil pessoas. Na capital paulista, venezuelanos que viveram infâncias ensolaradas nas areias do Mar do Caribe que banha La Guaira aguardam com angústia notícias de familiares ainda não encontrados sob os escombros. — Essa cidade que eu conheci já não existe mais — conta Luigina de Martino, de 28 anos, moradora há cinco anos no Brasil, jornalista de formação e atualmente trabalhando na área da tecnologia. Ela viveu 12 anos em La Guaira, passando a infância com a família nas praias da região, e tem familiares que moram no estado. O tio dela, Nelson Oropeza Atencio, de 60 anos, está desaparecido após o edifício residencial em que ele vivia na região de Tanaguarena, ser destruído. Outros parentes, como os primos, enviam fotos mostrando o estado precário de suas casas após os abalos sísmicos. — Quando tudo aconteceu, eles ficaram sem luz, sem sinal, então não dava para a gente saber da situação. 72 horas depois meus primos apareceram dizendo que o apartamento deles estava inabitável. Estão procurando meu tio, 12 dias depois do terremoto seguem aparecendo pessoas vivas, não perdemos a fé de que ele apareça — conta Luigina. De longe, ela recebe relatos dos parentes revirando os escombros com as próprias mãos em busca de Nelson Atencio. Na sala do apartamento onde mora na região central de São Paulo, Luigina acaricia uma de suas gatas enquanto descreve o estado de tensão com que tem lidado nos últimos dias. — Para mim, está sendo um choque. Estou com a cabeça lá, e acho que todos os imigrantes, todos os venezuelanos que estão fora do país, estão no mesmo estado de espírito. É uma frustração enorme, porque você quer ajudar, procurar, fazer tudo que esteja nas suas mãos — conta ela. A recepcionista Sami López, de 37 anos, também aguarda ansiosamente por informações da tia Ruth Noemí Jiménez, de 58 anos. A parente morava em La Guaira e desapareceu após o desabamento do conjunto residencial Caribe, em Caraballeda. Na sala de reuniões de uma empresa de seguros na Zona Oeste da capital paulista, Sami se emociona ao falar da tia, que se fixou na cidade costeira para aproveitar a aposentadoria mais próxima da praia. — Ela sempre sonhou em morar em La Guaira, estava em um apartamento novo, reformado. Isso (o desabamento) nunca passou pela cabeça. Foi o sacrifício de família como um todo (o apartamento), para ela ter uma aposentadoria digna, uma velhice tranquila. É a matriarca da família, cuidou de todos nós desde criança — conta Sami. Ela estava com amigos, assistindo ao jogo entre Brasil e Escócia da Copa do Mundo, quando recebeu uma ligação de uma amiga da Venezuela, avisando-a do terremoto. — Primeiro pensei que era algo leve, porque já teve situações de pequenos tremores. Mas ao finalizar o jogo, encontrei muitas notícias de que tinham sido dois terremotos. E aí começou o desafio, a saga de tentar entrar em contato com a minha família, só conseguimos nos falar quase de madrugada — diz Sami. A parte da família residente na capital, Caracas, foi a primeira a dar sinal. Relataram queda de energia elétrica, mas estavam bem. Depois, no entanto, veio o silêncio por parte da tia Ruth, com quem ninguém consegue contato. — O conjunto residencial dela foi um dos mais afetados pelo terremoto. Tenho fé de que ainda está resistindo, esperando o resgate. Mas ao mesmo tempo, tem uma impotência, até agora não recebemos nenhum tipo de suporte, nem de ajuda humanitária, nem do governo. Está sendo desesperador. Um dos meus primos foi até lá, o prédio dela está totalmente desmontado. Inclusive ficamos sabendo que tem uma ordem de demolição do prédio por parte do governo, sendo que ainda tem gente lá — relata a mulher. Dois homens ajoelhados removiam escombros com as mãos no complexo OPPE 33 — Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT De longe, os venezuelanos têm ajudado as famílias como podem. Luigina, por exemplo, juntou doações de amigos e levou para os pontos de coleta organizados em São Paulo pela Casa Venezuela, ONG de auxílio a venezuelanos recém-chegados ao Brasil que têm angariado itens básicos para envio ao país. A entidade conta com o auxílio de voluntários para organizar e separar as doações. Maiores informações sobre como ajudar podem ser consultadas pelo Instagram @casavenezuelabr. Sami, por sua vez, organizou um serviço voluntário de comunicação para quem precisa contatar parentes. De forma gratuita, ela faz ligações internacionais em nome de compatriotas venezuelanos que estão sem telefone ou internet, conectando-os às famílias nas áreas afetadas pelo terremoto. Ela calcula que já realizou mais de 100 chamadas desde o desastre.
Venezuelanos de São Paulo sofrem com falta de informações sobre parentes desaparecidos
Quase duas semanas após terremotos destruírem centenas de edifícios e deixaram 3,5 mil mortos, incerteza sobre paradeiro de familiares tira o sono dos expatriados






