Se a história do Brasil não começou com a chegada de Vicente Pinzón em janeiro de 1500 ou de Pedro Álvares Cabral alguns meses depois, então a cultura da bola no Brasil também não começou com Charles Miller em 1894. Entre os povos indígenas do atual território brasileiro havia, muito antes da chegada do futebol moderno, jogos competitivos com bola.
Um dos exemplos é o jikunahati, também conhecido como xikunahity, jikyonahati, ajaīlypypy, ou simplesmente cabeçabol. É praticado, ainda hoje, por povos indígenas do Mato Grosso, como os Paresi, Manoki, Nambikwara e Enawenê-Nawê. A bola, de 12 a 14 centímetros de diâmetro, é feita cerimonialmente da seiva da mangabeira e não é chutada, mas cabeceada.Para os Paresi, segundo a Funai, o jikunahati tem origens remotas. O lendário Wazáre, o primeiro Paresi, saiu de uma fenda numa rocha e ensinou ao seu povo as regras da vida. Antes de regressar ao seu mundo, distribuiu os Paresi pelas suas terras e organizou uma grande festa de confraternização. Foi nessa ocasião que teria criado o jikunahati. Por isso, o jogo pertence a uma esfera mais ampla do que a competição; entre os povos que o praticam, combina espiritualidade, memória e vida comunitária. Tradicionalmente, era jogado em festas da primeira colheita e em cerimônias de iniciação.







