Nos anos 50 e 60, São Paulo de Piratininga transformava-se de capital da província em metrópole. Terminou por seguir os descaminhos da megalópole cosmopolita periférica. Dizem que suas formas – feias, desconjuntadas, híbridas – são o avesso da urbanidade e do urbanismo. Deixo o julgamento para os especialistas.
Meu olhar de menino e adolescente, fanático pelo dito esporte bretão, via São Paulo como um imenso campo de futebol, interrompido por impertinentes avenidas e arranha-céus. Jogava-se futebol nas ruas, nos becos, nos terrenos baldios, nos quintais, em todos os cantos. No vale que iria receber a Avenida 23 de Maio – entre a Liberdade e o Paraíso – eu assistia, nos fins de semana, sentado nos barrancos, à bola dos adultos correr solta. Nos dias úteis, a molecada cabulava aula e se juntava nos terrões que simulavam campos de futebol. Os gazeteiros ora celebravam os gols marcados, ora se estapeavam por conta de faltas controvertidas. Socos e pontapés eram desferidos com lealdade e até com amizade. Tudo acabava bem, descontadas as fraturas de crânio e de nariz.
Sábados e domingos, pela manhã ou à tarde, os craques da várzea exibiam suas habilidades nos times organizados. No Glicério, na Liberdade, no Carmo, na Mooca, no Bom Retiro, na Lapa, às margens do Pinheiros e do Tietê, no Parque da Aclimação, celebravam-se incríveis porfias entre times de todos os bairros, tamanhos e reputações. Quem era do meio sabia distinguir os grandes dos pequenos nesse imenso campeonato informal. Nos anos 60, eu batia minha bolinha no modesto, mas não menos vitorioso Buscapé F.C.: camisa grená, calções brancos, meias variadas. Meu maior troféu foi um hematoma na perna esquerda produzido por um tarugo de 2 metros, zagueirão da metalúrgica Lanzara, que não gostou da minha “caneta”, ou seja, da bola entre as pernas. “Não vem que não tem. Lugar de palhaço é no circo”, justificou o bate-estaca.










