O bolsonarismo abocanhou parte do eleitorado evangélico com uma fórmula simples: cristão não vota na esquerda. A disputa pública entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro oferece à esquerda um espelho tentador dessa lógica: mulher não vota em candidato da direita bolsonarista.
É justamente essa simetria que precisamos evitar, sem abrir mão de nomear a incompatibilidade entre o projeto bolsonarista e os direitos das mulheres. A questão não é replicar interditos morais, mas expor um conflito político que se torna insustentável para qualquer mulher que não aceite viver sob tutela masculina.
Dizer que fé cristã e voto na esquerda são estruturalmente incompatíveis é desonestidade bíblica. A defesa dos mais fracos atravessa a lei de Moisés, os profetas e as palavras e gestos de Jesus de Nazaré.
Já sustentar que o bolsonarismo colide com mulheres que levam a sério sua dignidade e seus direitos encontra respaldo nos fatos recentes. Não se trata da "essência" das mulheres, mas de uma contradição entre um projeto autoritário e a recusa à tutela masculina sobre corpo, voz e voto.
Jair Bolsonaro jamais admitiu que foram seus erros políticos e sua gestão da pandemia que o tornaram o primeiro ex‑presidente da redemocratização a fracassar na tentativa de reeleição. A culpa recaiu sobre Carla Zambelli, transformada em bode expiatório ideal.













