Estudo foi elaborado pelo Instituto de Segurança Pública e divulgado nesta quarta-feira 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Patrulha Maria da Penha no Rio de Janeiro: forma de combate à violência contra a mulher — Foto: Bruno Kaiuca / Agencia O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 01/07/2026 - 14:06 "Dossiê Mulher 2026: Ameaça de Discursos Misóginos no RJ" O Dossiê Mulher 2026, elaborado pelo Instituto de Segurança Pública do Rio, analisa discursos misóginos e "redpill" nas redes sociais, que incitam violência contra mulheres. O estudo destaca a importância de responsabilizar homens agressores e não apenas as vítimas. Com 159.041 casos de violência contra mulheres registrados no Rio no ano passado, a pesquisa também aborda a violência psicológica online, que cresceu 20,6%. Estratégias discursivas como pseudo evidência e masking pill são usadas para justificar essas postagens. A investigação policial busca responsabilizar autores desses discursos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Pela primeira vez, o Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP-RJ) se debruçou sobre publicações das redes sociais ao elaborar o Dossiê Mulher, estudo anual que chega à 21ª edição, divulgado nesta quarta-feira. Na análise do órgão, que foi além dos dados, o discurso "redpill" — que representa homens que entendem que estariam se opondo a um sistema que favoreceria as mulheres — e misógino (desprezo ou ódio contra as mulheres) está presente em postagens na web, que incitam a violência contra elas, disfarçado com dados, que podem ser falsos, de fontes não confiáveis ou deturpados, para justificar as falas. Esse debate é justificado para evitar que esses discursos se transformem em registros policiais futuramente. — A gente só vai interromper esse ciclo de violência se trabalhar na raiz do problema. Isso vem de uma cultura machista da nossa sociedade, muito patriarcal, que acaba permitindo certos comportamentos misóginos, que acabam sendo naturalizados. É o que chamamos de microagressões — discursou Bárbara Caballero, presidente do ISP O dossiê propõe a responsabilização do homem autor da violência, em vez de apenas focar a narrativa nas vítimas. Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, o estudo do ISP pontua que o campo virtual é uma das formas encontradas de disseminar a misoginia. Ao todo, cem publicações feitas em cinco perfis diferentes no X (antigo Twitter) da esfera redpill, entre o ano passado e este, foram analisadas. A amostra é pequena, mas suficiente para entender como esse tipo de discurso se apresenta. O estudo analisou que essas contas se retroalimentam e, juntos, alcançaram mais de 23 milhões de visualizações, além de 210 mil curtidas. — É uma média de circulação muito grande. Estamos falando de um comportamento que, apesar de soar como comportamento de nicho, algo escondido, tem um potencial de circulação muito grande que atinge qualquer tipo de público, dos mais jovens aos mais velhos — avalia Laura Mariana da Costa, analista da Coordenadoria de Gestão do Conhecimento do ISP. — O discurso está mostrando uma violência ensaiada, então a gente quer agir para evitar que isso se transforme em dados (com registro em delegacias) de um futuro dossiê. No ano passado, 159.041 mulheres e meninas foram vítimas de violência no estado do Rio — três por minuto —, com 114.895 registros em delegacia, número que cresce desde 2020. Os números de vítimas e de registros são 3% maiores que os mesmos indicadores no ano passado. O perfil das mulheres alvos da violência é de maioria negra (52,3%), solteira (47,9%) e jovem (29,8% têm entre 18 e 29 anos). A principal forma de violência contra a mulher é psicológica, seguida por física, moral, sexual e patrimonial. No ano passado, foram 104 feminicídios no estado, três a menos que no ano anterior, mas terceiro maior índice da série histórica, que teve o maior número de casos em 2022 (111 ocorrências do tipo). Análise inédita: violência psicológica virtual O Dossiê Mulher fez ainda uma análise inédita de mulheres vítimas de violência psicológica no ambiente virtual. No ano passado, foram 6 mil casos de violência contra a mulher cometida virtualmente, dos quais 3.417 foram de violência psicológica (aumento de 20,6% em relação aos 2.834 registros do tipo em 2024). Estratégias discursivas Ainda segundo a análise do órgão estadual, duas estratégias discursivas principais foram identificadas: a pseudo evidência — apresentação de dados, informações e estudos, mesmo que falsos ou usados de má-fé — e a posição de revelação, quando o discurso é apresentado como detentor da verdade. O que estaria por trás desses discursos, segundo a fala de Laura Mariana, é uma metáfora do relacionamento amoroso como um mercado. Sem xingamentos, é mais difícil de que essas postagens sejam derrubadas. Há ainda a estratégia de mudar termos usados caso pessoas de fora do universo redpill comecem a identificá-los como parte desse discurso, em estratégia nomeada de masking pill (para mascarar). A mulher seria tratada com um valor inato, decrescente e biológico, com perda de valor com o passar dos anos, além da quantidade de filhos e do número de experiências sexuais. Carreira e independência também contariam para diminuir o valor feminino nesses grupos, já que seriam atribuições do universo masculino. Os homens, por outro lado, teria um valor construído, crescente e financeiro, com o status e conquistas financeiras como atributos a seu favor, inclusive o tempo. As postagens também classificaram o nível da violência a partir de um termômetro, que vai desde a frustração (menor nível) à incitação. Contas são investigadas Além da presidente do ISP, Bárbara Caballero, a secretária estadual de Mulher e Políticas Inclusivas, Bia Pacheco, também foi uma das autoridades presentes. Já o secretário estadual de Segurança Pública, Victor César Santos, mencionou medidas do governo para proteger essas vítimas nos últimos anos, como a Patrulha Maria da Penha, da Polícia Militar, mas pontuou que "não adianta ter todo um aparato para atender essa mulher se a causa continua sendo a mesma": o homem abusivo e agressivo. O ambiente virtual também foi citado pelo secretário. — Primeiro, (é preciso) alertar que aquilo não é uma brincadeira. Misoginia não pode ser objeto de brincadeira. Esse tipo de postagem é um crime, uma agressão à mulher. (É necessário) Identificar aquele perfil e responsabilizar, são cinco perfis que se conectam entre si, mas que geram um número grande de visualizações — afirmou o secretário, que informou que já há uma investigação da Polícia Civil sobre essas contas analisadas pelo ISP. — Se a investigação apontar que aquele autor ou a pessoa que manipula aquele perfil agiu dolosamente, com a intenção de agredir a mulher, ele será responsabilizado.