A Fraternidade São Pio X, uma comunidade tradicionalista, anunciou a intenção de ordenar seus próprios bispos, em ato que representaria insubordinação direta à Igreja Católica 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Papa Leão XIV — Foto: Simone Risoluti/Vatican Media/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 30/06/2026 - 15:47 Papa Leão XIV enfrenta crise com Fraternidade São Pio X sobre ordenação de bispos O Papa Leão XIV enfrenta sua primeira crise de pontificado com a Fraternidade São Pio X, que planeja ordenar bispos sem o consentimento do Vaticano, um ato considerado cismático. Ao apelar para a unidade, Leão XIV destaca que tal ruptura comprometeria os sacramentos e a coesão da Igreja. O conflito reflete uma resistência às reformas do Concílio Vaticano II, com a Fraternidade defendendo práticas tradicionais e um modelo antimodernista. A crise ressalta tensões entre tradição e modernidade dentro da Igreja, desafiando o Papa a manter a unidade em meio a um cenário de polarização global. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Papa Leão XIV fez um último apelo à Fraternidade São Pio X, pedindo que "renuncie ao seu projeto" de ordenar quatro novos bispos sem o consentimento do Vaticano, uma vez que isso constituiria um cisma. Essa comunidade tradicionalista, com sede em Ecône (Suíça), anunciou a intenção de ordenar, em 1º de julho, seus próprios bispos. Para a Santa Sé, representaria um ato de insubordinação direta, que acarretaria a excomunhão automática dos bispos. Quando termos como "cisma" e "excomunhão" surgem em notícias sobre a Igreja Católica, logo se espera um evento de grande magnitude capaz de mudar o curso da história, como a Reforma Protestante de 1517 ou o Grande Cisma de 1054, que dividiu as igrejas do Ocidente e do Oriente. A provável sanção do Vaticano contra uma pequena seita católica antimodernista não se enquadra em nenhuma dessas categorias. No entanto, a comoção em torno do caso tem gerado muitas declarações com tom de cisma e discussões maçantes sobre detalhes arcanos da liturgia católica. A comunidade fundada em 1970 pelo bispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991) reúne fiéis que se orientam por uma interpretação estrita da tradição doutrinal e litúrgica. Rejeita as evoluções da Igreja desde o Concílio Vaticano II (na década de 1960), defendendo um modelo de sociedade patriarcal e um ideal de Estado teocrático. Além disso, segue o rito "tridentino", caracterizado pelo uso do latim e por uma liturgia altamente codificada. Nas missas, o sacerdote fica de costas para os fiéis, voltado para o altar. "Suplico do fundo do meu coração: reconsiderem a sua decisão!", escreveu Leão XIV em uma carta dirigida ao superior geral da Fraternidade, datada de 29 de junho e divulgada nesta terça-feira pelo Vaticano. O Papa americano pede à comunidade que "leve em conta o bem espiritual dos fiéis", cujo número é estimado em 600 mil em todo o mundo. Acrescenta que, em caso de cisma, os sacramentos, como o matrimônio ou a confissão, realizados pelos bispos deixariam de ser reconhecidos pela Igreja Católica. A maior expectativa gira em torno de saber se o Pontífice estenderá a excomunhão a todos os padres e até mesmo aos líderes leigos da sociedade. "Rezo por vós, pois rasgar a túnica inconsútil de Cristo é um pecado de extrema gravidade. Que o Senhor ilumine as vossas consciências e desperte os vossos corações. Pela autoridade recebida de Cristo, com o coração entristecido, mas cheio de esperança, vejo-me obrigado a pedir-vos que renunciem ao vosso projeto", acrescentou o Pontífice. Segundo a Bíblia, no dia de sua crucificação Cristo vestia uma túnica sem costuras, tecida de uma só peça. Em 1988, o papa João Paulo II fez um apelo semelhante à Fraternidade para dissuadi-la de ordenar novos bispos. Foi em vão. A ordenação provocou uma excomunhão imediata, que foi suspensa em 2009. O superior desta fraternidade, Davide Pagliarani, reagiu nesta terça-feira justificando sua determinação e afirmou que sua comunidade não busca se separar de Roma, mas, ao contrário, "servi-la por meio de meios extraordinários, como se ajuda uma mãe que atravessa uma grave dificuldade". "Um gesto de compreensão por parte de Vossa Santidade, longe de prejudicar a unidade, só poderá manifestar ao mundo e a todos os cristãos sua preocupação pela unidade e sua bondade de pai", declarou, em comunicado. A Fraternidade São Pio X é influente em alguns círculos conservadores. A comunidade alega em sua defesa que ordenará bispos por "necessidade", já que conta apenas com dois em atividade, o que limita seu crescimento. Entenda o problema Por que esse grupo, que leva o nome do Papa Pio X — um pontífice do início do século XX ferrenhamente antiliberal —, está causando tantos problemas? Por que alguém deveria se importar com uma disputa interna da Igreja tão obscura? Uma das razões é que o Papa fez da unidade um pilar central de seu pontificado. Uma ruptura formal comprometeria esse objetivo. Em um contexto mais amplo, o hipertradicionalismo da sociedade representa uma corrente problemática dentro da Igreja, que canaliza a política do medo e do ressentimento — marcas registradas de muitos movimentos populistas. Nostálgicos da vida eclesiástica e nacionalistas chauvinistas seguem o mesmo caminho: um foco comum na preservação da pureza cultural e religiosa e na restauração de glórias passadas da Igreja e do Estado. A crise ameaça arrastar Leão XIV para os conflitos polarizadores que atormentam tantas sociedades, justamente no momento em que ele emerge como a voz moral mais proeminente do mundo em questões como direitos humanos, guerra, inteligência artificial, migrantes e os pobres. A excomunhão de todos os padres e até mesmo dos líderes leigos da sociedade ligados à Fraternidade São Pio X seria um sinal contundente de que Roma finalmente perdeu a paciência com o grupo que surgiu da rejeição às reformas do Concílio Vaticano II (1962-65). Tais reformas puseram fim a séculos de ensinamentos antijudaicos, buscaram a reconciliação com protestantes e outras igrejas e abraçaram a liberdade religiosa e o engajamento com o mundo moderno. O Vaticano II também trouxe mudanças litúrgicas, como a permissão para a Missa em língua vernácula e a celebração com o padre voltado para a congregação. A Fraternidade São Pio X afirma que essas mudanças minam a fé. O que realmente está em jogo na questão da antiga Missa em latim é uma objeção mais ampla à trajetória reformista da Igreja, que ganhou novo fôlego com o Papa Francisco. Francisco tem sido frequentemente acusado por diversos grupos e líderes conservadores de abraçar a heresia e semear confusão doutrinária. A iminente ruptura por parte dos defensores da Missa em latim reacende essa indignação entre muitos católicos de direita. Às vezes, eles defendem a fraternidade suíça; outras vezes, criticam-na por prejudicar a própria causa. No entanto, a crise tornou-se, de modo geral, uma forma de questionar ou opor-se frontalmente às reformas do Vaticano II. O bispo Athanasius Schneider, do Cazaquistão — uma liderança global entre os conservadores —, afirmou que excomungar a fraternidade seria "injusto" e que "a exigência de aceitar o Vaticano II" e o atual rumo da Igreja constituem "a raiz do problema". Leila Marie Lawler, comentarista conservadora, descreveu a fraternidade como "quase uma distração": — Eles poderiam desaparecer, e os problemas que enfrentamos continuariam existindo. Em vez de levar a um cisma canônico restrito, o descontentamento ameaça transformar-se em um estado duradouro de alienação, marcado por uma raiva instintiva. É uma atitude que agora ameaça pôr fim à "lua de mel" de Leão XIV. Uma força motriz por trás dessa oposição é a nostalgia — ou melhor, o "nostalgismo": a crença inquestionável, compartilhada por alguns membros da Igreja, de que as coisas eram melhores no passado, de que os católicos eram mais santos e de que a Missa era verdadeiramente sagrada, celebrada com requinte por clérigos em vestes suntuosas e acompanhada pela bela música renascentista. Na verdade, se os "tradicionalistas" de hoje fossem transportados para o passado, descobririam que a antiga Missa era, muitas vezes, uma cerimônia realizada de forma mecânica, com um latim precário e pouca participação dos fiéis. Também não se deve esquecer que a Missa passou por revisões ao longo dos últimos 2.000 anos para se adaptar a mudanças sociais, como a transição do grego para o latim ou a incorporação de leituras do Antigo Testamento. Associada à nostalgia tradicionalista por uma era de ouro perdida, existe uma reação contra uma mudança demográfica tectônica no catolicismo. Sim, o cristianismo nasceu no Oriente Médio, mas o catolicismo cresceu na Europa. "A Europa é a fé e a fé é a Europa", escreveu o escritor católico Hilaire Belloc há um século. Isso não é mais verdade. Graças em grande parte ao Concílio Vaticano II, o catolicismo cresceu enormemente, mais do que dobrando de 653 milhões de membros em 1970 para 1,4 bilhão hoje. A vasta maioria desse crescimento ocorreu no Hemisfério Sul. O catolicismo é muito mais africano, asiático e latino-americano do que europeu. Essa não é a história que os tradicionalistas querem contar. Para eles, a modernização representou o toque de finados da Igreja, pois as reformas do Vaticano II coincidiram com o acentuado declínio da prática religiosa na Europa e no Ocidente. A fé deles está ligada à cristandade ocidental, fato ilustrado pelos números. As Missas em latim celebradas pela Sociedade e aquelas celebradas com a aprovação do Vaticano restringem-se, em sua esmagadora maioria, aos Estados Unidos e a partes da Europa. No entanto, graças à sua base no Ocidente industrializado, os tradicionalistas dispõem de dinheiro, influência e visibilidade. O que acontecerá? Uma ação firme do Papa poderia provocar uma reação negativa da direita, mas também poderia dividi-la. Até agora, os conservadores tentaram interpretar da melhor maneira possível o pontificado de Leão XIV — que já dura um ano — e podem relutar em se voltar contra um Papa de 70 anos que poderá permanecer no cargo por muito tempo. Eles também podem encarar a censura do Pontífice como um aviso para moderar seus próprios instintos divisionistas, isolando os tradicionalistas radicais e deixando que o movimento deles se esvazie aos poucos. Essa é a vantagem de ser Papa. Democracias modernas que enfrentam insurgências de direita baseadas em ideais de "sangue e solo" nem sempre têm a opção de agir de forma tão decisiva. Você pode gostar disso, caso concorde com o homem que está no comando. (AFP e New York Times)