Desde os anos 1990, a quantidade de médicos formados mais que quadruplicou e, hoje, são 635,7 mil profissionais ativos – 2,98 médicos por mil habitantes; a estimativa é que esse número salte para 1,15 milhão até 2035 Faculdade de Medicina da USP, que forma 175 médicos por ano — Foto: Foto: Divulgação O Brasil nunca formou tantos médicos em sua história. Desde o início da década de 1990, a quantidade mais que quadruplicou e hoje são 635,7 mil profissionais ativos. E a estimativa é que esse número salte para 1,15 milhão até 2035, o que vai elevar a taxa de médicos por mil habitantes dos atuais 2,98 para 5,25. O país ultrapassou 50 mil vagas anuais em 494 cursos, firmando-se como o segundo em número de escolas de medicina no mundo, atrás apenas da Índia, segundo a pesquisa Demografia Médica no Brasil, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). “Observamos um forte crescimento no número de formandos, algo que deve se manter nos próximos anos. Por outro lado, os dados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) sugerem que este crescimento não tem sido acompanhado por uma formação de qualidade, com potenciais repercussões para a saúde do país”, avalia Rudi Rocha, professor da FGV Eaesp e diretor de pesquisas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). Para os especialistas, a expansão de vagas não se traduziu automaticamente na melhoria da qualidade do atendimento na rede pública de saúde nem em uma melhor distribuição — os médicos continuam concentrados no litoral e nas regiões metropolitanas. E a oferta de residência não acompanha a expansão da graduação médica — quase 30 mil novos médicos podem ingressar no mercado a cada ano sem acesso imediato à residência, considerada o “padrão ouro” na formação pós-graduada. Essa restrição provocou o aumento do número de médicos generalistas — são mais de 240 mil sem registro de especialização. Muitas faculdades funcionam baseadas em decisões judiciais, contornando as avaliações técnicas de qualidade do Ministério da Educação (MEC), um processo que o Supremo Tribunal Federal (STF) começou a coibir. O secretário de gestão do trabalho e da educação na saúde do Ministério da Saúde (MS), Felipe Proenço de Oliveira, informa que o governo federal está implementando um rígido controle regulatório para conter a expansão desordenada dos cursos e assegurar a qualidade da formação profissional voltada ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Essa expansão sem controle sobrecarrega os serviços de saúde locais, que não comportam tantos estudantes, resultando em má qualidade na formação.” Já o MEC reforça que retomou medidas de avaliação, como o Enamed, utilizando o desempenho dos estudantes para aplicar sanções e suspender vagas em instituições com resultados insuficientes. Há um esforço também na modernização curricular, incluindo temas como saúde digital e mudanças climáticas. Com uma demanda reprimida e um sistema rentável — a mensalidade de medicina em instituições privadas custa entre R$ 8 mil e R$ 15 mil em 2026 —, houve uma explosão no número de escolas privadas, que respondem por 80% das vagas. Enquanto alguns são novos na área e contam com pouca estrutura, outros já têm tradição, como hospitais de ponta que estão investindo pesadamente em cursos de medicina. É este o caso da Beneficência Portuguesa (BP), que recebeu, em abril de 2026, autorização do MEC para abertura do curso de medicina da Faculdade BP. Com investimento de R$ 70 milhões, terá cem vagas anuais, com início das aulas no próximo ciclo letivo. “Parte desses talentos poderá seguir trajetória dentro do ecossistema da BP, em programas de residência, especialização, pesquisa, inovação e atuação assistencial. Ao mesmo tempo, a formação desses profissionais também contribui para o fortalecimento do sistema de saúde como um todo”, destaca Denise Santos, CEO da BP. Denise Santos da BP: Investimento de R$ 70 milhões para curso de medicina com cem vagas anuais — Foto: Foto: Beto Assem/Divulgação Com investimento de R$ 40 milhões, a Faculdade Sírio-Libanês inaugurou suas primeiras turmas de medicina no segundo semestre de 2025, ofertando cem vagas anuais. Segundo Felipe Spinelli, diretor de ensino e pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, o objetivo é que esses profissionais estejam preparados para disputar vagas em programas de residência em todo o país. Para ele, um dos grandes desafios da próxima década será garantir que a ampliação do número de médicos venha acompanhada de formação especializada, supervisão adequada e atualização permanente. O MEC ampliou a oferta de bolsas de residência, com o anúncio de três mil novas vagas e investimento de R$ 3 bilhões. A meta é sair de 0,5 vaga por egresso para 0,75 vaga em dez anos. A pasta defende que houve uma melhoria na distribuição com a interiorização dos cursos de graduação. “Um sinal positivo de interiorização ocorre por meio do Mais Médicos. Hoje temos dezenas de candidatos por vaga, inclusive em municípios remotos e periferias, algo que era muito difícil no início do programa”, destaca o secretário Oliveira. Na avaliação da presidente da comissão de graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Iolanda de Fátima Lopes Calvo Tibério, apenas aumentar o número de profissionais não garante fixação no interior. “Isso depende de condições de trabalho, carreira estruturada, remuneração adequada e infraestrutura de saúde”, diz a médica e professora da FMUSP, que forma 175 médicos por ano. Felipe Spinelli, diretor de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês: R$ 40 milhões investidos em faculdade que inaugurou suas primeiras turmas de medicina no segundo semestre de 2025 — Foto: Foto: Divulgação A Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, que lançou a graduação em medicina em 2016, passou de 120 para 156 vagas anuais em 2026. “Muita gente fica aqui dentro, mas como o Einstein é muito grande, o número que formamos não é suficiente para compor nossa rotatividade. Alguns voltam para seus estados, outros vão para o exterior ou para a pesquisa. A empregabilidade é muito alta, variando de 40% a 100%, dependendo do curso”, informa Alexandre Holthausen, diretor-executivo de ensino e consultoria do Einstein. São ofertados oito cursos na área de saúde, incluindo o de medicina. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Médica Brasileira (AMB) defendem a criação de um exame de proficiência obrigatório. A demanda ganhou força após a divulgação dos resultados do Enamed, que mostraram que cerca de um terço dos cursos foram considerados insatisfatórios. O MS é favorável à medida, mas com gestão do MEC. Nesse sentido, defende que a avaliação seja baseada na experiência já acumulada do Enamed, integrando-o ao sistema educacional, em vez de criar uma prova exclusiva executada pelo CFM. Para a presidente da comissão de graduação da FMUSP, embora não resolva sozinho o problema da expansão indiscriminada das faculdades privadas, a médio prazo o exame pode se tornar um parâmetro relevante tanto para a sociedade quanto para os próprios estudantes na avaliação das escolas médicas. Um dos grupos educacionais privados que mais têm aumentado sua participação na área da medicina é a Cruzeiro do Sul Educacional. Em dezembro de 2025, recebeu aval do MEC para aumentar em 50 vagas o curso da Universidade Positivo, em Curitiba (PR), que agora oferece 219 vagas anuais. Desde 2015, concretizou oito aquisições, a última em 2024, com a compra do Centro de Ensino Superior de Pinhais (Fapi), no Paraná, que garantiu 154 vagas após aporte de R$ 180 milhões. Atualmente, oferece 1.069 vagas anuais, distribuídas em oito instituições de ensino. A intenção é ampliar ainda mais a atuação, seja por meio de novas aquisições ou participação em editais governamentais. “É uma área necessária para o atendimento da população brasileira e havia uma demanda reprimida por mais médicos”, destaca Renato Padovese, CEO da Cruzeiro do Sul Educacional. A Cruzeiro do Sul participou com oito propostas do último edital do MEC que visava à criação de novos cursos de medicina, mas o processo foi revogado em fevereiro de 2026 pelo ministério, que apontou uma “judicialização excessiva” com mais de 360 liminares judiciais que obrigavam a análise de abertura de pedidos “por fora” da proposta oficial. Parte da política de expansão do Mais Médicos, o edital previa a abertura de 95 novos cursos e 5.900 vagas. Em março, o MEC e o MS iniciaram estudos para a elaboração de um novo edital, ainda sem previsão de data de publicação.