O mercado farmacêutico brasileiro alcançou um faturamento de R$ 160,7 bilhões em 2024, crescimento nominal de 12,8% em relação ao ano anterior, com a venda de seis bilhões de embalagens, superando em 5,3% o volume registrado em 2023. O dado oficial, considerado o mais recente sobre o setor, consta do Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico, estudo divulgado em agosto de 2025 pela secretaria executiva da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além do aumento nas vendas de medicamentos em geral, o segmento aguarda um grande salto nos dígitos de faturamento, com o avanço das canetas emagrecedoras. Estimativas do Itaú BBA apontam que esse nicho tenha encerrado 2025 com uma movimentação em torno de R$ 10 bilhões e possa atingir R$ 50 bilhões em 2030, com a entrada dos genéricos do GLP-1 (nome técnico para essa categoria de soluções). A queda da patente da semaglutida — princípio ativo que reduz o apetite — aconteceu em março de 2026. Segundo Grazielle Alves, gerente sênior da consultoria EY-Parthenon, as projeções do setor indicam um salto de 10,6% no faturamento da indústria farmacêutica nacional em 2026 ante 2025. “Os números sustentam o Brasil como o maior mercado da América Latina, responsável por 42% das vendas regionais, e colocam o país entre os dez maiores mercados globais, com um crescimento impulsionado pelo envelhecimento da população e pela prevalência das doenças crônicas”, analisa. A proporção de idosos (60 anos ou mais) na população brasileira quase duplicou entre 2000 e 2023, subindo de 8,7% para 15,6%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). — Foto: Arte/Valor Entre as principais movimentações da indústria em 2026, a especialista em ciências da saúde destaca o avanço da oferta, da competição e de novas formulações do GLP-1. “É a classe [de medicamentos] que mais ‘puxa conversa’ de investimento e acesso no curto prazo”, diz ela. Um exemplo disso é a evolução dos modelos injetáveis para formulações orais, assinala. “A agência americana Food and Drug Administration (FDA) aprovou uma versão oral do Wegovy [semaglutida] em dezembro de 2025.” O desafio para o mercado brasileiro, diz Alves, será repensar padrões de financiamento para que os consumidores tenham acesso aos novos tratamentos. “Uma das dinâmicas que veremos em 2026 será a nacionalização e expansão da oferta, como o lançamento de canetas de liraglutida [indicada para o tratamento do diabetes tipo 2 e no auxílio ao emagrecimento] com preços a partir de R$ 300.” A AstraZeneca, que atua no desenvolvimento de medicamentos de prescrição em oncologia, doenças raras e biofarmacêuticos, vai trabalhar com as canetas emagrecedoras, avisa Alexandre Gibim, vice-presidente da multinacional para a América Latina. “Temos três moléculas no ‘pipeline’, cujos estudos clínicos estão em andamento há pelo menos um ano”, adianta. Alexandre Gibim, vice-presidente da AstraZeneca: Soluções para uma abordagem mais abrangente da saúde metabólica — Foto: Foto: Divulgação Em janeiro de 2026, a companhia com sede no Reino Unido anunciou um acordo com a farmacêutica chinesa CSPC Pharmaceuticals para o desenvolvimento e comercialização de terapias voltadas para perda de peso e diabetes, incluindo alternativas orais. “A estratégia busca avançar em soluções que contribuam para uma abordagem mais abrangente da saúde metabólica, como a preservação da massa magra.” A agenda do executivo também guarda outros compromissos para o segundo semestre. “Entre as principais apostas estão os avanços em tratamentos para câncer de mama e de pulmão”, acrescenta. Em 2025, a AstraZeneca registrou receita global de US$ 58,7 bilhões, um aumento de 8% a câmbio constante (CER) em relação ao período anterior. Na carteira de inovação, divulgou 16 resultados positivos de estudos clínicos de fase 3 e obteve 43 aprovações regulatórias em mercados-chave, ao longo do ano. Estudos clínicos de fase 3 representam a etapa final de testes em humanos antes de um novo medicamento ser aprovado pelas agências regulatórias. Na Novartis, conhecida por formulações como o onasemnogeno abeparvovec (nome comercial Zolgensma) — indicado para a atrofia muscular espinhal (AME), doença que compromete o desenvolvimento motor de crianças —, o planejamento inclui novos tratamentos para doenças renais raras. “Um dos destaques é a iptacopana, lançada no fim de 2025 e aprovada para glomerulopatia C3 [C3G], uma doença renal grave”, detalha Sylvester Feddes, presidente da Novartis Brasil. “Trata-se da primeira terapia aprovada no país para essa condição.” Somente em pesquisa clínica, a companhia, que registrou vendas líquidas globais de US$ 54,5 bilhões em 2025, investiu, no período, US$ 23,4 milhões (cerca de R$ 145 milhões) no Brasil, um incremento de 45% em relação a 2024. A maior parte do aporte, segundo Feddes, seguiu para estudos em áreas como oncologia, imunologia e doenças cardio-renais-metabólicas. O laboratório possui 107 estudos clínicos em andamento no país, envolvendo mais de 2,4 mil pacientes. “Nos últimos seis anos, lançamos 18 novos tratamentos no Brasil”, acrescenta. Na avaliação de José Vicente Marino, diretor-presidente do Aché Laboratórios, uma maior atenção a projetos de inovação garante combustível para acelerar o fluxo de lançamentos na indústria. “Encerramos 2025 com um investimento em inovação equivalente a mais de 8% da receita líquida”, assinala. “Os recursos se traduziram em um ritmo recorde de lançamentos. No ano passado, colocamos no mercado 55 novos medicamentos, o equivalente a um produto por semana.” Durante 2026, a companhia prevê 60 novidades — 21 já estavam disponíveis em maio. Jose Vicente Marino, diretor-presidente do Aché Laboratórios: Previsão para este ano é lançar 60 novidades no mercado — Foto: Foto: Divulgação Para chegar a esse volume, uma das estratégias foi expandir a capacidade da fábrica em Pernambuco. Em setembro de 2025, anunciou um investimento de R$ 267 milhões, destinado à ampliação da entrega de medicamentos estéreis (livres de microrganismos). “A capacidade de produção de medicamentos sólidos deverá alcançar cinco bilhões de doses ao ano, ante os atuais três bilhões”, estima. “Já a fabricação de estéreis está projetada para 40 milhões de unidades anuais.” No ano passado, o grupo que completa 60 anos em 2026 registrou receita líquida consolidada de R$ 5,8 bilhões, uma evolução de 8,3% ante 2024. “Isso reflete a combinação entre aumento da demanda, renovação de portfólio, investimentos em inovação e ampliação da capacidade produtiva”, resume Marino. “Já temos pedido de registro na Anvisa para entrar no mercado das canetas emagrecedoras.” Na EMS, 6% do faturamento anual é destinado ao Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Hortolândia (SP). “Somente em 2025, o número de pesquisadores no local passou de 800 para mais de 900”, afirma Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS. Entre 2025 e o primeiro trimestre de 2026, a farmacêutica também costurou aquisições estratégicas para expandir o portfólio. No fim do ano passado, concluiu o processo de compra dos ativos de Anápolis (GO) da multinacional alemã Fresenius Kabi, de medicamentos injetáveis hospitalares. Em março de 2026, o grupo EMS, detentor da EMS, e a Sanofi anunciaram um acordo de compra e venda de 100% da Medley, uma das principais marcas de genéricos do Brasil. Em 2027, a EMS deve investir mais de R$ 1 bilhão numa nova planta em Manaus, anexa à unidade que construiu no local. “A proposta é avançar na produção de comprimidos, ampliando de 1,5 bilhão de unidades para dois bilhões, ao mês, até 2028”, revela Sanchez. A marca já atua no mercado de canetas emagrecedoras, com a Olire e a Lirux, com o princípio ativo liraglutida. “Fechamos 2025 com R$ 100 milhões em faturamento nesse segmento e projetamos superar R$ 250 milhões em 2026”, informa. O grupo EMS concluiu 2025 com um faturamento de R$ 10,9 bilhões, um crescimento de 6,7% ante 2024. Fernando Sampaio, presidente da Sanofi no Brasil, diz que o laboratório não tem projetos no campo das canetas emagrecedoras, mas que não faltarão novos produtos nas prateleiras. “Temos 77 projetos focados em gerar soluções inovadoras, sendo 43% deles dedicados à imunologia”, adianta. O Brasil está no centro desse arranque, afirma. “Sete das onze moléculas mais promissoras do nosso ‘pipeline’ global estão em fase de testes clínicos no país.” Neste ano, a Sanofi já embalou três novos medicamentos para o mercado local. A lista inclui o fitusirana sódica (Qfitlia), para o tratamento de hemofilia A ou B; o teplizumabe (Tzield), capaz de adiar o início dos sintomas do diabetes tipo 1; e o Belumosudil (Rezurock), recomendado para atuar na doença crônica do enxerto contra o hospedeiro (DECHc), complicação que pode ocorrer após transplantes de células-tronco. “Globalmente, mantemos em 2025 um investimento de 7,8 bilhões de euros [cerca de R$ 47 bilhões] em pesquisa e desenvolvimento”, afirma o executivo, acrescentando que o valor é 5,4% maior do que o registrado em 2024. No ano passado, o conglomerado inflou os investimentos no Brasil, destinando R$ 153 milhões para pesquisa clínica, valor que foi triplicado nos últimos três anos. Outros laboratórios conhecidos pela inovação no setor de medicamentos, como Roche, Cristália, Eurofarma e Blanver, também montam novos planos para 2026 e 2027. A Roche tem terapias na área de canetas emagrecedoras em fase de estudos clínicos e mantém uma parceria global com a dinamarquesa Zealand Pharma para o desenvolvimento da petrelintida, molécula voltada ao manejo do sobrepeso e da obesidade, segundo Alberto D’Angelo, diretor de finanças e serviços da Roche Farma Brasil. No Cristália, uma das novidades é a inauguração de uma planta de genética aplicada em Campinas (SP), com investimentos de R$ 70 milhões. “Vai viabilizar a produção de medicamentos personalizados, que ajustam os tratamentos ao perfil genético do paciente, para uma maior eficácia e menos efeitos colaterais”, diz Ogari Pacheco, cofundador e presidente do conselho da empresa. Andréa Frazão, diretora da unidade de prescrição médica na Eurofarma, ressalta a aliança com a dinamarquesa Novo Nordisk para expandir o alcance nacional da semaglutida injetável, por meio das marcas Poviztra e Extensior, à venda desde 2025. “Estamos presentes em 4,7 mil municípios brasileiros, o que amplia o alcance dos produtos”, argumenta. Na Blanver, de produção de fármacos para pessoas com HIV, o CEO Sérgio Frangioni sinaliza diversificar a atuação, com opções para oncologia e o sistema nervoso central. “Operamos duas unidades industriais em São Paulo e estamos implantando uma terceira, dentro de um ciclo de investimentos de R$ 900 milhões, até o final da década”, diz. Sergio Frangioni, CEO da Blanver: Opções para oncologia e o sistema nervoso central — Foto: Foto: Divulgação