Um jogo de futebol é capaz de engajar a audiência de uma maneira que um produto feito com inteligência artificial dificilmente consegue replicar — Foto: Divulgação Footbao Eventos esportivos devem se valorizar como ativos nos próximos anos, à medida que a inteligência artificial passa a permear cada vez mais a produção de outros tipos de conteúdo, como filmes e séries. É o que propõe um relatório do Itaú BBA sobre a evolução do mercado de direitos de transmissão assinado pelos analistas de tecnologia Maria Clara Infantozzi, Stephano Gabriel e Leonardo Cintra. Um jogo de futebol é capaz de engajar a audiência de uma maneira que um produto feito com inteligência artificial dificilmente consegue replicar. “O brasileiro quer assistir ao vivo, ele não quer assistir esse conteúdo depois. Vender mídia, vender publicidade, nesse momento pode destravar ainda mais valor, na nossa visão”, diz Infantozzi. No ano passado, o valor total dos direitos de transmissão de eventos esportivos no mundo chegou a US$ 57,8 bilhões, segundo a empresa de análise de dados SportBusiness, o que significa um crescimento de 3,3% em relação a 2023. A comparação entre anos ímpares permite ver além dos efeitos de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. “O mercado global de mídia esportiva continua a desafiar os ventos contrários macroeconômicos mais amplos, como as flutuações das taxas de juros e a volatilidade dos mercados de capitais, que têm freado outros segmentos da indústria do entretenimento”, aponta o relatório. Com a Copa do Mundo, a SportBusiness calcula que os direitos de transmissão de eventos esportivos devem alcançar US$ 66,42 bilhões em 2026. Até 2030, devem superar US$ 78 bilhões, segundo a firma de dados Ampere Analytics. O principal vetor de crescimento deve seguir sendo a entrada de serviços de streaming na disputa pelos esportes - atualmente elas já respondem por 20% dos gastos globais com direitos de transmissão. “Cada vez mais as plataformas digitais têm buscado aumentar o nível de retenção do cliente”, explica a analista. As competições esportivas oferecem um público fiel, que se mantém interessado por períodos mais longos, ao invés de, por exemplo, cancelar a assinatura após chegar ao fim de uma série. “Como consequência, a precificação dos direitos de mídia esportiva tem se tornado cada vez menos dependente da monetização direta da televisão linear, passando a ser impulsionada principalmente pelo valor estratégico de reter consumidores dentro de amplos ecossistemas digitais” , diz o relatório. A equipe de análise do Itaú BBA aponta que a alocação de capital em direitos de transmissão não é uniforme, mas se concentra em ligas esportivas consolidadas, com consumidores em rápido processo de digitalização. Em 2021, a NFL, principal liga de futebol americano dos Estados Unidos, vendeu os direitos de transmissão para o período de 2023 a 2033 por aproximadamente US$ 110 bilhões. Apesar disso, o futebol jogado com os pés ainda responde pela maior fatia do valor dos direitos de transmissão: cerca de US$ 20,8 bilhões, considerando todas as competições. Os torneios de futebol do Brasil, entretanto, contribuem com uma parcela ainda pequena desse total, de aproximadamente R$ 5,4 bilhões, sendo que o Brasileirão sozinho vale cerca de R$ 2,8 bilhões, segundo cálculos do Itaú BBA. “Quando a gente compara os direitos do Brasileirão com os de outras ligas no mundo, a gente percebe que existe um gap muito relevante de monetização” , afirma Maria Clara. O relatório aponta que mudanças regulatórias recentes, como a chamada Lei do Mandante, de 2021, que atribuiu ao time da casa o direito de negociar exclusivamente a venda da transmissão, contribuíram para ampliar o valor das competições. “A Lei da SAF, de alguma forma, ajudou também a aumentar a governança e profissionalização dos clubes e os direitos de transmissão“, diz a especialista. Na avaliação do Itaú BBA, a aceleração desse crescimento no Brasil depende da adoção de melhores práticas de governança pelos clubes, do aprimoramento da gestão das vendas de direitos, do aumento de investimentos no ecossistema do futebol e de uma maior coordenação entre os times.