Realidade virtual, simuladores e testes cognitivos ganham espaço em equipes da Europa para melhorar a percepção de espaços dentro de campo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jovens atletas participam de treinamento cognitivo com realidade virtual — Foto: Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/06/2026 - 20:40 Clubes de futebol investem em neurociência para jogo mais inteligente Clubes de futebol estão investindo em neurociência para aprimorar a inteligência de jogo dos atletas. Tecnologias como realidade virtual, simuladores e testes cognitivos são usadas para melhorar a percepção de espaços e tomada de decisão em campo. Equipes como Bayern de Munique e FC Copenhagen já adotaram essas ferramentas. Apesar de algumas controvérsias sobre sua eficácia, a aposta é que avanços cognitivos ofereçam vantagens competitivas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Inteligência de jogo, capacidade de perceber espaços, adversários e opções de passe antes de receber a bola, sempre foi vista como um talento inato no futebol. Saber para onde a bola vai em seguida é o que separa os atletas apenas fisicamente talentosos dos verdadeiros superastros, como o atacante do Real Madrid, Kylian Mbappé, ou o centroavante do Bayern de Munique, Harry Kane. Um elenco inteiro com esse nível cognitivo cometeria menos erros táticos — e seria muito difícil de derrotar. Nos últimos anos, alguns visionários do futebol começaram a pensar que, se a inteligência de jogo pode ser definida, talvez também possa ser medida. E, se pode ser medida, talvez possa ser ensinada. Tecnologias como análise de movimentos oculares, realidade virtual e monitoramento cerebral estão sendo usadas para desenvolver essa capacidade. — Durante décadas falamos sobre inteligência de jogo, mas não sabíamos exatamente o que queríamos dizer quando usávamos esse termo — afirma um desses visionários, Jes Buster Madsen, fã de futebol e jogador promissor que migrou para a neurociência quando percebeu que seu cérebro era mais rápido que seus pés. Jes Buster Madsen, fã de futebol e jogador que migrou para a neurociência — Foto: Iman Al-Dabbagh/Bloomberg Hoje, empresas estão utilizando pesquisas de Madsen e de outros cientistas para desenvolver tecnologias que podem ser vendidas a equipes de esportes dinâmicos e fluidos, como futebol e hóquei. Uma empresa holandesa, trabalhando com pesquisadores da Universidade de Amsterdã, criou testes para avaliar o potencial de um jogador para alcançar alta inteligência de jogo. Uma desenvolvedora alemã de software construiu um simulador de futebol em 360 graus. Pouquíssimos estudos Já a empresa norueguesa Be Your Best, da qual Madsen foi consultor, vendeu máquinas de realidade virtual para quase 20 clubes, incluindo Seattle Sounders e Union Berlin. Segundo a empresa, jogadores que utilizam seus equipamentos apresentam, em média, aumento de 28% na taxa de scanning após nove semanas de treinamento e um ganho de 44% em consciência situacional — isto é, na capacidade de agir com base nas informações obtidas durante essas varreduras visuais. Ao ver números como esses, dezenas de clubes profissionais, seleções classificadas para a Copa do Mundo em Canadá, México e Estados Unidos e até algumas ligas de base passaram a investir em tecnologias voltadas para explorar uma parte do corpo que historicamente quase não treinavam: o cérebro. Eles estão tentando ampliar a capacidade cognitiva dos atletas por meio de exercícios em realidade virtual, testes neuropsicológicos e outras ferramentas. Algumas equipes investiram milhões de dólares em infraestrutura. Outras firmaram parcerias com empresas de tecnologia que comercializam sistemas de treinamento cognitivo. Ex-jogador das categorias de base do FC Copenhagen, Madsen começou a pesquisar estudos sobre cognição e futebol — e descobriu que a lista era extremamente curta: — O campo inteiro tinha aproximadamente o mesmo número de artigos científicos que são publicados sobre Alzheimer em apenas uma semana. Basicamente não havia nada sobre inteligência de jogo, ou tomada de decisão, no futebol. Desempenho em testes cognitivos Os pesquisadores não podem abrir o cérebro de um jogador para verificar se o treinamento altera sua estrutura, como fazem neurocientistas com animais de laboratório. Tampouco podem colocar eletrodos na cabeça de um atleta enquanto ele corre em velocidade máxima. Madsen identificou 14 funções cerebrais — como memória de trabalho, reconhecimento de padrões e capacidade de scanning — que outros pesquisadores haviam constatado serem comuns em jogadores de elite. A ideia está alinhada com estudos recentes, como um publicado em 2017 pelo pesquisador sueco Torbjörn Vestberg, que encontrou correlação entre desempenho em testes cognitivos e número de gols marcados por jovens jogadores de elite. Vestberg descobriu que jovens jogadores de elite superavam significativamente pessoas que não praticavam futebol. Mais impressionante ainda: melhor desempenho nos testes apresentava correlação positiva com maior número de gols marcados, mesmo após o controle de fatores como idade Essas conclusões desencadearam uma corrida entre clubes profissionais europeus para testar e aprimorar as habilidades cognitivas de seus atletas. Na Bundesliga alemã, Bayern de Munique, Borussia Dortmund e RB Leipzig instalaram simuladores — áreas de grama sintética cercadas por telas onde situações de jogo são projetadas. O clube holandês AZ Alkmaar recebeu elogios pelo uso de realidade virtual e videogames para avaliar jogadores da base. E, na Superliga Dinamarquesa, o FC Copenhagen passou a experimentar métodos desenvolvidos por seu ex-atleta Madsen. O segredo está no olhar No FC Copenhagen, o técnico Fleckner integrou avaliações cognitivas em todo o processo de formação do clube. Ele mede a frequência de scanning dos jovens que participam de testes para ingressar na equipe — ou seja, quantas vezes desviam o olhar da bola para verificar movimentações e espaços. Também avalia criatividade e flexibilidade cognitiva por meio de testes neuropsicológicos voltados para reconhecimento de padrões e capacidade de memória. Uma análise baseada em aprendizado de máquina revelou que a taxa total de scanning em realidade virtual era a característica mais importante para diferenciar atletas de elite dos de nível inferior. China realiza competição esportiva exclusiva para robôs 1 de 10 China realiza competição esportiva exclusiva para robôs — Foto: Pedro Pardo/AFP 2 de 10 Evento tem modalidades como atletismo, boxe e futebol — Foto: Pedro Pardo/AFP X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Evento contou com mais de 280 equipes de universidades e empresas de 16 países — Foto: Pedro Pardo/AFP 4 de 10 Em alguns casos, a capacidade atlética dos robôs deixou a desejar — Foto: Pedro Pardo/AFP X de 10 Publicidade 5 de 10 Em lutas de kickboxing, robôs usando luvas coloridas e equipamentos na cabeça tinham dificuldade para acertar socos — Foto: Pedro Pardo/AFP 6 de 10 Após alguns minutos de golpes e chutes, o árbitro declarou um robô vencedor — Foto: Pedro Pardo/AFP X de 10 Publicidade 7 de 10 O evento foi a mais recente vitrine de robótica de alto nível da China — Foto: Pedro Pardo/AFP 8 de 10 Em abril, a prefeitura de Pequim realizou uma meia maratona para 12.000 corredores e 20 robôs humanoides — Foto: Pedro Pardo/AFP X de 10 Publicidade 9 de 10 A China está buscando avanços rápidos em robótica, impulsionada por diretrizes governamentais e investimentos maciços — Foto: Pedro Pardo/AFP 10 de 10 Robôs movidos por inteligência artificial já revolucionaram a indústria no país — Foto: Pedro Pardo/AFP X de 10 Publicidade Evento tem modalidades como boxe e futebol Segundo o clube, seus jogadores mais jovens já apresentam índices de scanning semelhantes aos de profissionais da Premier League inglesa — embora, obviamente, inúmeros outros fatores determinem se eles alcançarão esse patamar. Os exercícios são utilizados principalmente com jovens, cujos cérebros são mais maleáveis — pela mesma razão que crianças aprendem idiomas estrangeiros com mais facilidade do que seus pais. Alguns integrantes do elenco principal também participam. Jonathan Moalem, meio-campista de 19 anos, inicialmente viu seu desempenho cair enquanto tentava integrar as novas informações. Alguns meses depois, porém, sua percepção de jogo começou a melhorar, e ele passou a utilizar a visão periférica de forma mais eficiente. — Ele sempre foi muito bom em antecipar jogadas e enxergar passes que outros não viam — diz Fleckner. — Mas, depois do treinamento, sua velocidade de intenção (a rapidez com que se decide o que fazer) melhorou significativamente. Há controvérsias Mas nem todos os pesquisadores estão convencidos. O pesquisador Job Fransen escreveu em 2024 que ainda não há evidências suficientes de que treinamentos cognitivos melhorem efetivamente o desempenho esportivo. Geir Jordet, da Escola Norueguesa de Ciências do Esporte, argumenta que simuladores não reproduzem totalmente as exigências físicas e cognitivas de uma partida real. Apesar das dúvidas, clubes europeus continuam investindo. A empresa holandesa BrainsFirst já avaliou mais de 25 mil jogadores, oferecendo testes de memória, atenção e agilidade mental para equipes como PSV Eindhoven, Real Sociedad e Eintracht Frankfurt. A alemã Umbrella Software criou o SoccerBot360, simulador cercado por telas que projeta cenários de jogo para desenvolver tomada de decisão, reação e antecipação. O equipamento custa a partir de € 100 mil. O Norwich City investiu £ 750 mil em uma instalação que inclui o sistema, embora reconheça que ainda faltam evidências científicas robustas sobre sua eficácia. Madsen acredita que o treinamento cognitivo não precisa necessariamente depender de equipamentos caros. Exercícios de campo podem estimular os jogadores a analisar o ambiente antes de receber a bola. A aposta dos clubes é que pequenos avanços no processamento de informações gerem ganhos competitivos suficientes para influenciar resultados. Novas ferramentas, como óculos de rastreamento ocular e aparelhos de eletroencefalograma (EEG, que registra a atividade elétrica cerebral) capazes de funcionar durante o movimento, podem acelerar essa tendência. — Daqui a cinco anos poderei responder essa pergunta — diz Madsen sobre a possibilidade de ensinar inteligência de jogo. — Talvez ninguém mais fale sobre isso. Ou talvez todos os 50 maiores clubes do mundo tenham um neurocientista cognitivo.
Neurociência entra em campo e clubes investem no cérebro para elevar a inteligência de jogo
Realidade virtual, simuladores e testes cognitivos ganham espaço em equipes da Europa para melhorar a percepção de espaços dentro de campo












