Instalados no segundo andar do The Westin Copley Place, hotel de luxo em Boston, o trio de chefs da Noruega cuida da alimentação da seleção do país durante a Copa do Mundo. Já são 33 dias de concentração, preparando diariamente quatro refeições por dia para 61 pessoas. Com a classificação para as oitavas de final garantida, após assegurar um duelo contra a Costa do Marfim na terça-feira passada, a Noruega sonha em chegar à final, em 19 de julho. Isso significaria um total de 54 dias de concentração e 216 refeições preparadas. Mas não será preciso correr desesperadamente ao supermercado mais próximo. Os escandinavos viajaram aos Estados Unidos levando um grande estoque de alimentos. "Trouxemos aproximadamente 300 quilos de salmão, salvelino-do-Ártico, alabote e truta da Noruega", conta ao The Athletic, cobertura esportiva do The New York Times, o chef principal, Aron Espeland. "Também trouxemos 100 quilos de queijo Jarlsberg, que se somam aos nossos 80 quilos de queijo marrom norueguês." Agora que a equipe avançou ao mata-mata, uma nova remessa de peixes noruegueses será encomendada. O estoque restante também precisará ser transportado no domingo da antiga base da seleção, em Greensboro, na Carolina do Norte, para Dallas, em um voo de quatro horas. Freezers especiais serão levados a bordo para manter peixes e carnes em temperaturas entre -4°C e -15°C. A preferência pelos produtos da terra natal é fácil de entender. O salmão norueguês é conhecido como o "Wagyu dos oceanos". Meses de planejamento foram dedicados à estratégia para garantir novos lotes de peixes frescos nos Estados Unidos e, como a Noruega é o segundo maior exportador mundial de frutos do mar — setor responsável por cerca de 10% da economia do país —, a logística nunca foi um problema. Espeland, Eirik Tufte e Christian Karlsson formam o trio responsável por abastecer as ambições da Noruega — e de Erling Haaland — nesta Copa do Mundo. Esta é a primeira experiência de Espeland e Tufte trabalhando com uma equipe de futebol. Espeland conquistou a medalha de ouro pela Noruega no Global Young Chefs Challenge de 2022, enquanto Tufte trabalhou em alguns dos melhores restaurantes estrelados pelo Guia Michelin no país. Karlsson, por sua vez, conhece muito bem o vestiário. Ele integra a comissão técnica da seleção desde o segundo semestre de 1998, tendo perdido por poucos meses a Copa do Mundo daquele ano. Chegou da Finlândia em 1996 para uma estadia prevista de seis meses, mas acabou ficando para a vida toda. Ele jamais imaginou que demoraria tanto para cozinhar em sua primeira Copa do Mundo. Tampouco esperava que os jogadores se tornassem tão conscientes sobre aquilo que colocam no próprio corpo. "Antigamente era: 'Me dá um hambúrguer ou uma pizza e está tudo certo'", conta Karlsson. "Hoje todos sabem que usam o corpo como ferramenta de trabalho e precisam cuidar dele." Haaland e suas 6 mil calorias O meio-campista Fredrik Aursnes, do Benfica, é um dos mais interessados no assunto, assim como o volante Patrick Berg, ele conta: "Berg também se interessa muito por alimentação e pelos nutrientes dos alimentos. Ele segue uma dieta bastante rigorosa. Descobriu que seu corpo funciona melhor quando come determinadas coisas e manteve esse hábito. Evita glúten e lactose." Haaland, naturalmente, é um apaixonado por comida. O canal do atacante do Manchester City no YouTube já mostrou um pouco de seus hábitos alimentares: cerca de seis mil calorias por dia, churrascos debaixo de chuva no quintal de casa e visitas ao açougue para comprar uma enorme variedade de carnes — tomahawk, ribeye, costela, filé, coração e fígado bovinos. Há também alguns itens menos convencionais, como mel cru e leite cru. "Leite cru aqui não existe, porque é proibido nos Estados Unidos por causa das bactérias", ri Espeland. Em um episódio da série no YouTube, a namorada de Haaland, Isabel Haugseng Johansen, brinca que o atacante pensa apenas na próxima refeição. Será verdade? "Ele realmente ama comida. Precisa dessa energia para correr o jogo inteiro com marcadores pendurados nele", responde Karlsson. "Erling e alguns outros jogadores gostam muito do fato de prepararmos uma comida simples, honesta, sem técnicas complicadas. Eles até pediram algumas receitas." No almoço da quinta-feira, na véspera do confronto com a França, os chefs prepararam potes repletos de cores vibrantes para serem levados ao centro de treinamento do New England Revolution, em Foxboro. O cardápio: salmão com molho ponzu, manga, favas, abacate, sementes de gergelim, maionese apimentada, cebolinha e arroz branco — o combustível para a atividade da tarde. Os chefs trabalham em conjunto com as equipes médica e de desempenho da seleção para garantir que o equilíbrio nutricional de cada refeição seja o mais adequado possível. Todos os pratos contêm proteína de alta qualidade para favorecer a recuperação muscular, carboidratos para repor as reservas de energia, além de ácidos graxos ômega-3, vitamina D, cálcio, ferro e magnésio. Frutas e vegetais fornecem vitaminas, minerais e antioxidantes. "O objetivo não é perseguir nutrientes isolados, mas criar refeições completas que ajudem os jogadores a desempenhar bem e a se recuperar da melhor maneira possível", explica Espeland. "Também prestamos muita atenção ao momento em que cada refeição é consumida. O que os jogadores comem antes dos treinos ou das partidas é diferente do que comem depois, quando o foco passa a ser a recuperação." Fast food? Sim, por favor Diversos jogadores noruegueses sofreram com cãibras na segunda partida da equipe, contra Senegal. O técnico Ståle Solbakken e sua comissão médica realizaram exames de urina para avaliar o nível de hidratação dos atletas. "A hidratação é outra prioridade fundamental, especialmente em um torneio em que os jogadores treinam e competem sob temperaturas elevadas", afirma Espeland. "Estamos adicionando um pouco mais de sal aos alimentos para incentivar os jogadores a beber ainda mais água do que o habitual." Ainda assim, uma vez por semana a seleção reserva espaço para uma refeição de "fast food". Até agora, tacos, pizza e hambúrgueres caseiros estiveram no cardápio. Após os jogos, a refeição servida no vestiário é fornecida pela Fifa por meio de seus patrocinadores — e, digamos, a nutrição não é exatamente a prioridade. "Todo mundo precisa de uma pausa. Caso contrário, você acaba enjoando da comida", diz Espeland. "É como em um resort all inclusive. Nos primeiros dias é maravilhoso, mas depois você pensa: 'Ok, agora precisamos mudar um pouco...'" Uma das principais orientações de Karlsson foi lembrar que a maior parte do elenco joga e vive fora da Noruega. Muitos deixaram o país ainda muito jovens. "Quando eles se apresentam à seleção, é como voltar para casa", afirma Karlsson. "Queremos despertar aquela sensação de: 'Minha avó costumava fazer isso para mim'." Por isso, eles levaram lembranças da infância norueguesa. Trouxeram sua própria máquina de fazer waffles e prepararam queijo marrom para servi-los. Também levaram geleias de framboesa e morango, molho de tomate, Mills Polar Kaviar, Nugatti — a versão norueguesa da Nutella —, além de molho marrom e gratinado de peixe. Talvez o prato mais caseiro seja o "mingau genial" de aveia criado por Karlsson. Cozido em leite durante uma hora, pode receber banana, castanhas, frutas vermelhas, mel, canela e açúcar. É o prato favorito dos jogadores e se tornou o café da manhã tradicional da concentração, oferecendo carboidratos de longa duração. Cardápio variado Outra exigência inegociável dos jogadores modernos é um bom café. Por isso, os chefs levaram seus próprios grãos, que são moídos todas as manhãs. Também transportaram quatro máquinas: duas de espresso e duas de café filtrado. O lateral-direito Julian Ryerson levou até mesmo a própria máquina. Os chefs sabiam que fazer quatro refeições coletivas por dia poderia se tornar cansativo. Queriam que a experiência fosse leve e descontraída. Nada de grandes travessas servidas igualmente para todos. Seria impessoal demais e excessivamente padronizado. Em vez disso, organizaram duas longas mesas de banquete para estimular a conversa: uma destinada aos jogadores e outra aos integrantes da comissão técnica. Em vez de pratos idênticos, montaram diferentes estações de buffet. Há dois tipos de peixe, dois de carne, arroz, massas, três variedades de legumes, batatas e um buffet de saladas. "Queríamos que esse fosse um momento em que eles pudessem deixar o celular de lado, passar um tempo com os amigos e conversar", diz Espeland. Na busca pelos melhores ingredientes, o trio percorreu cada cidade por onde a seleção passou em busca dos melhores açougues e padarias para comprar carne fresca e pão diariamente. Eles oferecem quatro tipos diferentes de pão de fermentação natural. A Noruega ficou baseada em Greensboro, mas, como disputou partidas em Boston e Nova Jersey, os chefs precisaram cozinhar em diversas cozinhas diferentes ao longo da viagem. No hotel da equipe em Boston, dividem a cozinha com um estabelecimento de 700 quartos. A colaboração tem sido positiva, embora tenha sido necessário explicar que preferiam o peixe menos passado do que a Escócia, que estava hospedada lá antes: "Nós dissemos: 'Não, não, não... está demais'. Eles responderam: 'Mas os escoceses queriam o peixe morto... morto e um pouco mais morto ainda'", conta Karlsson, aos risos. Antes dos jogos? Mingau de aveia ou lasanha Os chefs da Noruega começam a pensar em comida às sete da manhã todos os dias. Nos dias de jogo, a primeira refeição é servida cerca de cinco horas antes do apito inicial, enquanto a última acontece aproximadamente três horas antes da partida — normalmente destinada aos reservas, que preferem comer mais tarde. "Alguns preferem o mingau de aveia antes da partida, enquanto outros escolhem massa, lasanha e muito pão com queijo amarelo e salame. Alguns comem frango ou salmão com espaguete à bolonhesa. No geral, refeições bem simples." Os chefs também prepararam tradicionais almoços de domingo, com carne de porco assada ao forno coberta por um glacê de mel e mostarda, acompanhada de batatas descascadas. Até agora, porém, o prato favorito do elenco foi o tataki de salmão servido com vinagrete de manteiga noisette, shoyu branco, yuzu e mel. Para os chefs, foi uma pequena vitória. "Estávamos com certa pressa", lembra Espeland. "Eu e Christian grelhamos um salmão inteiro e o cortamos em fatias. Precisávamos de um molho. Então o Eirik apareceu com esse molho magnífico. Perguntei o que ele tinha colocado ali, e ele respondeu apenas: 'Um monte de coisas boas'." Sempre que algum jogador faz aniversário durante a concentração, eles preparam um bolo personalizado. Os atletas também participam da elaboração dos cardápios. "Alguns dizem: 'Estamos com vontade de comer isso ou aquilo'. Então compramos os ingredientes e tentamos atender aos pedidos. Cada pessoa é diferente. Procuramos cuidar de todos os jogadores", afirma Tufte.