O caso da Ancine oferece conclusões simples. Controle não é sinônimo de paralisia. Fiscalização pode coexistir com inovação 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Prédio da Ancine — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/06/2026 - 21:32 Inovação e Cooperação na Ancine Economizam R$ 1,4 Bilhão em 3 Anos A administração pública no Brasil enfrenta paralisia devido ao excesso de controle, como visto na Ancine. A solução passa pela cooperação institucional, como o "Malha Fina Ancine", que utiliza aprendizado de máquina e transparência, resolvendo 92% do passivo em três anos, economizando R$ 1,4 bilhão. A experiência mostra que fiscalização e inovação podem coexistir, destacando a importância de substituir disputas por consenso na gestão pública. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A administração pública vive um paradoxo: quanto mais controle, mais os gestores se paralisam. O receio da responsabilização produz a “infantilização da gestão pública” — expressão de Bruno Dantas, ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), para descrever a tendência de gestores evitarem decisões inovadoras à espera de um aval prévio. Essa paralisia custa caro ao país, em recursos desperdiçados, oportunidades perdidas, ineficiência administrativa e descrédito institucional. O caso da Agência Nacional do Cinema (Ancine) ilustra tanto o problema — comum a dezenas de instituições brasileiras — quanto uma solução possível. Na última década, o setor audiovisual conviveu com insegurança jurídica, crescimento contínuo do passivo de prestações de contas e dificuldades para agentes econômicos que dependiam de previsibilidade regulatória. A agência consumia recursos crescentes para administrar processos acumulados, enquanto a eficácia das políticas públicas era constantemente questionada. O cenário era marcado por normas complexas, burocracia excessiva e cultura institucional dominada pelo receio de decidir. Nesse ambiente, urgências eram adiadas, e a capacidade de ação do Estado diminuía. A reversão começou com uma mudança de método. Não com mais normas, controles ou punições, mas com o rompimento do isolamento institucional e a adoção de um paradigma ainda pouco explorado na administração pública brasileira: o consensualismo e a construção compartilhada de soluções. Atualmente, depois da resolução de 92% do passivo histórico de prestações de contas e do reconhecimento formal pelo TCU como “boa prática de gestão pública”, o caso da Ancine oferece lições relevantes sobre como destravar a máquina administrativa brasileira. A agência estabeleceu parceria com a Controladoria-Geral da União e aprofundou sua cooperação institucional com o TCU. Em vez de instituições atuando isoladamente — ou em conflito —, optou-se pela cooperação baseada em evidências. O resultado é o Malha Fina Ancine, que o TCU caracterizou como “abordagem moderna, transparente e baseada em risco”. O modelo combina aprendizado de máquina, priorização por materialidade e trilhas automatizadas de análise financeira e de verificação do cumprimento do objeto. Entre 2024 e 2026, foram analisadas e homologadas aproximadamente 5.700 prestações de contas, equivalentes a 92% do passivo histórico. O estoque residual deverá ser concluído em pouco mais de três anos. Sem o novo modelo, esse mesmo volume demandaria 41 anos de trabalho. A economia estimada para os cofres públicos supera R$ 1,4 bilhão, considerando os custos administrativos evitados e a otimização de recursos humanos. Todos os dados estão disponíveis em painel público acessível em tempo real. Para o setor privado, os ganhos também são expressivos. Agentes econômicos que esperavam anos por definições agora têm maior previsibilidade para planejar investimentos, desenvolver novos projetos e acessar financiamento. Com a crise superada, a Ancine pode concentrar esforços no que realmente importa: desenvolver um setor estratégico para a economia brasileira e para a projeção internacional da nossa cultura. O caso da Ancine oferece algumas conclusões simples. Controle não é sinônimo de paralisia. Fiscalização pode coexistir com inovação. Cooperação institucional produz resultados superiores ao conflito. Transparência fortalece a legitimidade das decisões públicas. Reformar a gestão pública brasileira exige, antes de tudo, uma mudança de método e cultura: substituir disputas por consenso, conflito por cooperação e opacidade por transparência. O custo da inércia é alto demais para continuar sendo ignorado. *Alex Braga Muniz é diretor-presidente da Agência Nacional do Cinema