Em algum momento, caso a qualidade do futebol asiático evolua, é provável que uma das vagas da América do Sul seja cedida para a Ásia Em Tóquio, torcedores comemoram após jogo do Japão na Copa — Foto: REUTERS/Manami Yamada Se o centro de gravidade da economia mundial está se deslocando para a região da Ásia-Pacífico, o centro do futebol continua firmemente ancorado no Atlântico. Dos 32 países classificados para a fase de mata-mata da Copa, 30 são da área atlântica. A falta de competitividade do futebol asiático, com apenas dois classificados, continua dificultando a guinada da Fifa para a Ásia. Quando ocorrer, essa guinada pode afetar a América do Sul. Em 2011, o governo Barack Obama divulgou uma revisão da estratégia de política externa dos EUA que previa um “reequilíbrio” das prioridades americanas e que ficou conhecida como “guinada para a Ásia”. A iniciativa reconhecia que o futuro da economia e da geopolítica global estava se deslocando da região do Atlântico (EUA e Europa) para a região do Pacífico (EUA e Ásia). Como resposta, Washington deveria ampliar a sua atuação — econômica, política e militar — na Ásia. Uns poucos números explicam essa mudança de foco. A Ásia concentra quase 60% da população mundial. E a fatia do continente no PIB global (nominal) cresceu de 20,3% (1980) para 27,55% (2000) até atingir 34,67% (2025), segundo dados do FMI. É a economia mais vibrante e que mais cresce no planeta. O poderio econômico da Ásia já é perceptível na própria Fifa. Dos seus sete principais patrocinadores, quatro são asiáticos (a saudita Aramco, a coreana Hyundai/Kia, a chinesa Lenovo e a Qatar Airways). Os demais são as americanas Visa e Coca-Cola e a alemã Adidas. Seguindo o dinheiro, a Fifa já realizou duas Copas do Mundo na Ásia neste século (Japão/Coreia, em 2002, e Catar, em 2022). E, ao juntar América do Sul, Europa e África como sedes da próxima Copa, conseguirá voltar para a Ásia em 2034, com a Copa da Arábia Saudita. Essa guinada da Fifa para a Ásia esbarra, porém, na falta de competitividade atual das seleções asiáticas. O continente classificou 9 equipes para a Copa, mas apenas duas avançaram para a fase eliminatória, Japão e Austrália (que fica na Oceania, mas joga pela Ásia). Em comparação, a África, que iniciou a Copa com 10 seleções, classificou 9 para a fase eliminatória. A América do Sul classificou 5 de 6. A Europa, 12 de 16. A Concacaf (que reúne América do Norte, Central e Caribe), 3 de 6. A Nova Zelândia, único representante da Oceania, ficou de fora. Em termos geopolíticos, 30 dos classificados estão na região atlântica, ainda que o Equador fique na costa do Pacífico e os EUA e Colômbia tenham saída para os dois oceanos. Política, cultural e futebolisticamente, EUA, Colômbia e Equador estão na esfera atlântica. Esse desempenho asiático fraco dificulta para a Fifa conceder mais vagas na Copa para a Ásia. A região mais populosa do planeta, cuja confederação tem 47 países-membros, tem apenas 9 vagas na Copa. Em comparação, a confederação sul-americana, com um décimo da população asiática e apenas 10 países, tem 6 vagas. A região é a mais super-representada na Copa. Em algum momento, caso a qualidade do futebol asiático evolua, é provável que uma das vagas da América do Sul seja cedida para a Ásia. Antevendo esse risco, a Conmebol (confederação sul-americana) já sugeriu ampliar novamente o número de países na Copa, dos atuais 48 para 64. A proposta, porém, enfrenta muita resistência e dificilmente vai prosperar.